O número de episiotomias praticado em Portugal é um dos mais elevados da Europa. Fasquias acima dos 70 por cento são a regra nos nossos hospitais.
Apesar de a maioria dos estudos científicos concluir não haver motivos para continuar a praticar esta técnica de forma rotineira.
«Incisão no períneo e na parede vaginal que tem por objectivo facilitar o parto e evitar uma ruptura.» Esta é a definição vulgar de um dos procedimentos cirúrgicos mais comuns em obstetrícia e um dos poucos realizado sem qualquer consentimento da mulher, a episiotomia.
Em Portugal, são poucas as grávidas que escapam à experiência do «corte» no períneo (área muscular compreendida entre a vagina e o ânus) durante o parto, mas o tema é controverso.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) contesta o uso rotineiro desta técnica, considerando a forma como a episiotomia é, actualmente, praticada uma «conduta frequentemente utilizada de modo inadequado».
Estudos publicados ao longo das últimas duas décadas concluíram não haver razões científicas para continuar a executar, indiscriminadamente, a incisão no períneo durante o parto.
A episiotomia não previne a maioria das situações para as quais está indicada, em particular as lesões graves. Pelo contrário: existe evidência de que pode provocá-las. Isto mesmo está demonstrado num artigo publicado na Acta Médica Portuguesa (AMP).
Segundo as autoras, não existem bases sólidas que legitimem a prática rotineira da episiotomia. O tom crítico domina o trabalho: «Os riscos associados ao seu uso [da episiotomia] são significativos e levam-nos a ponderar se perante esta ausência de suporte científico é correcto praticar um acto para o qual não se encontram benefícios que o justifiquem!». Saiba mais na próxima página

Olhando para as taxas de episiotomias dos hospitais portugueses, o artigo terá tido pouco impacto na obstetrícia nacional. Bárbara Bettencourt Borges, umas das autoras do artigo publicado na AMP, obstetra na Maternidade Alfredo da Costa (MAC) avança uma justificação para o elevado número de incisões praticado em Portugal: «Criou-se o mito de que é melhor cortar que rasgar. É uma prática muito enraizada.»
E critica: «É mais fácil, durante o período expulsivo de um parto, cortar e abreviar o nascimento do que esperar que o períneo distenda.» Bárbara Bettencourt Borges contesta a teoria de que a episiotomia previne as lesões do períneo, argumento habitualmente invocado para justificar este procedimento cirúrgico: «Os estudos mostram que não é verdade!»
Há, no entanto, quem questione a evidência científica. Delfim Guerreiro, director do Serviço de Obstetrícia do Hospital S. Francisco Xavier, defende que a episiotomia, «quando correctamente efectuada previne as lacerações graves e diminui a frequência de lesões menos graves do períneo.»
O médico contesta os estudos que rebatem esta lógica, afirmando que é necessário analisar melhor as consequências do parto sobre o períneo - «com estudos que reavaliem as mulheres 30, 40 ou 50 anos depois do parto» e que sempre que «a potencialidade para lesões é grande», prefere uma «lesão controlada a uma lesão descontrolada».
Bárbara Betterncourt Borges defende que as lesões não ocorrem em todos os períneos. «A decisão de fazer ou não uma episiotomia deve ser baseada não só na evidência científica, mas também na prática clínica.
O conhecimento sobre como proteger o períneo diz-nos quando devemos optar, de facto, por uma episiotomia e dá-nos mais confiança para a fazer cada vez menos.»
Texto de Maria João Amorim
Revista Pais & filhos
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