Ajustado anualmente às necessidades da população com a possível integração de novas vacinas, o Plano Nacional de Vacinação (PNV) apresenta, no Portal da Saúde, as vacinas como «o meio mais eficaz e seguro de proteção contra certas doenças». Apesar das garantias dadas pelo Ministério da Saúde, a vacinação, os seus benefícios ou possíveis efeitos secundários suscitam sempre dúvidas nos pais, zelosos por garantir o melhor para a saúde dos seus filhos e, muitas vezes, baralhados com tanta informação (alguma dela por vezes contraditória) com que são confrontados.

Para desmistificar todas as suspeitas sobre as reais vantagens da vacinação, pedimos ajuda a Mário Cordeiro, pediatra e autor do livro «Educar com Amor», publicado pela editora A Esfera dos Livros, que em entrevista garante que as vacinas são «eficazes e seguras». Graças a elas, «milhões de pessoas estão vivas e centenas de milhões não adoeceram com patologias graves», conclui o especialista, procurando tranquilizar pais e educadores.

Quão eficazes e seguras são as vacinas?

Nenhuma vacina chega ao mercado sem passar por várias fases e décadas de investigação, daí também uma das razões para o preço elevado. São cada vez mais eficazes, seguras e boas para a população. Podem, claro, provocar um ou outro efeito colateral, como acontece com qualquer medicamento ou até com alimentos.

Quais são os principais efeitos secundários?

Embora cada vez mais raros, graças ao desenvolvimento de vacinas tecnologicamente superiores, pode surgir febre, dor e inchaço no local da injeção e pouco mais. Nunca são situações graves, mas passageiras e de grau ligeiro.  Sublinho que o que mata são as doenças, não são as vacinas.

Em termos de eficácia na proteção da saúde, o que distingue as vacinas do PNV das não comparticipadas?

Nada. Apenas que o Estado decidiu pagar umas e não outras. As mais recentes, não incluídas no Plano Nacional de Vacinação, são seguras e mesmo nas que estão abrangidas já se fizeram modificações no sentido de as substituir por versões mais eficazes e que têm menos efeitos secundários.  Hoje, é mais raro ter febre após as vacinas, do que há uns anos.

Que requisitos são exigidos para autorização e comercialização de uma vacina e, posteriormente, para integrar o Plano Nacional de Vacinação?

Uma vacina é pensada para proteger de doenças muito graves. Antes de chegar ao mercado, serão precisas várias fases de investigação. Quando a vacina é declarada segura e eficaz, é testada, os ensaios são apresentados às autoridades, como a Agência Europeia do Medicamento e da FDA, a agência americana que regula o merco, um crivo muito apertado… E, em Portugal, o INFARMED. Depois, a integração ou não no Plano Nacional de Vacinação é uma decisão política do Ministério da Saúde, sob proposta da Direção-Geral de Saúde e do seu grupo técnico de vacinação.

Veja na página seguinte: É seguro administrar duas ou mais vacinas em simultâneo?

É seguro administrar duas ou mais vacinas em simultâneo?

Sim. Algumas vacinas são várias vacinas.  A Prevenar 13 são 13 vacinas. A antiga vacina da poliomielite eram três. A Pentavalente, por exemplo, são oito. Tudo isto porque, quando dizemos vacina contra a poliomielite, estamos a falar de combater estirpes diferentes da doença. Podem, inclusive, administrar-se muitas vacinas no mesmo dia, como acontece quando a UNICEF e outras agências se deslocam até algumas aldeias e regiões remotas.

Aliás, convém não esquecer que as crianças, todos os dias, designadamente as que frequentam infantários e escolas, são submetidas a vacinas naturais através do contacto quotidiano com os micróbios transmitidos pelos colegas ou pelos adultos. Alguns têm reacções e outros não.

Por que surgiu a suspeita de que algumas vacinas podem provocar autismo?

Isso não é verdade e, cientificamente, já foi provado. Convém que as pessoas procurem informação não na internet ou em blogues de mães ou no Facebook, mas em sítios credenciados, como associações científicas. Como o autismo começou a ser identificado, por vezes em excesso, em idades em que se fazem muitas vacinas, foi natural investigar se haveria alguma hipotética relação. Todavia, ao estudar metódica e cientificamente o assunto, essa hipótese foi refutada.

A vacinação deve ser adiada se a criança estiver doente e/ou a ser medicada?

Se não houver uma urgência em vacinar, sim, pois pode induzir alguma confusão na interpretação dos sintomas e, por outro lado, a imunidade não reage convenientemente. Além de que uma criança doente estará em casa, pelo que o risco de se contagiar com a doença é menor.

Existe o risco de se vir a descobrir alguns danos colaterais das novas vacinas administradas?

Seria impossível ter estudos a longo prazo dessa natureza com qualquer fármaco dos habitualmente usados. Mas depois de uma vacina ser considerada eficaz e segura, seja ou não inserida no Plano Nacional de Vacinação ou no circuito comercial, começa a chamada fase IV, em que são reportados efeitos que possam advir com a vacina. Já houve casos de medicamentos retirados ao fim de um tempo.

É por isso que, no boletim de vacinas, se registam os lotes, de modo a retirar algum que resulte em vários casos de efeitos graves. O sistema está bem montado e devemos confiar nele. De qualquer forma, se não vacinássemos agora, até descobrir os tais hipotéticos efeitos, já teriam morrido milhares de pessoas com as doenças.

A quem compete a decisão de vacinar a criança dentro e fora do Plano Nacional de Vacinação? O pediatra deve ser imparcial ou ajudar nessa decisão?  

Sem qualquer dúvida, cabe aos pais.  Os médicos devem informar os pais e não emitir opiniões sobre o que fazer.  A teoria de que foi o médico mandou deve ser posta no lixo. O médico aconselha, informa, esclarece, mas não manda. Todavia, o médico deve informar sobre o que acontece se se vacinar, mas também se não se vacinar e de como se sentirão os pais se a criança, por exemplo no caso de uma meningite, morrer ou ficar incapacitada.

Veja na página seguinte: As crianças que vão ao infantário correm mais perigos?

O facto da criança frequentar o infantário deve pesar na decisão de vacinar ou não?

Não. Se, realmente, quem frequenta um infantário tem muito mais possibilidades de contrair doenças, nenhuma criança está numa redoma e livre, felizmente, dos miminhos e dos beijinhos dos pais e restante família. Se os pais têm ao alcance uma forma eficaz de prevenção, creio que a devem usar, apesar das vacinas serem facultativas. Não há, em Portugal, vacinas obrigatórias.

Como vê a decisão das famílias não vacinarem as crianças com receio dos efeitos secundários?

Cada um que assuma as responsabilidades pelos seus comportamentos. Mas os pais não são donos da criança. E quando, voluntariamente, decidem não vacinar, assumem a responsabilidade do que se vai passar. Riscos não são certezas mas, sim, probabilidades. No entanto, se as pudermos reduzir, melhor.

O que fazer em relação às que não são consideradas fundamentais?

É acerca das vacinas fora do Plano Nacional de Vacinação que esta dúvida mais surge aos pais. O pediatra Mário Cordeiro dá o sua opinião:

- Pneumococos, meningococos e outros

«A Prevenar 13 e a meningococo B (Bexsero), à semelhança da menigococo C e de outras mais antigas contra o haemophilus influenzae tipo B, dirigem-se a doenças similares, mas causadas por microrganismos diferentes. Uma vez que estas apresentam uma elevada taxa de letalidade e de sequelas graves no mundo ocidental, vacinar contra umas e outras não, só pode ser justificado se os pais não encontrarem meios financeiros para comprar as que não pertencem ao Plano Nacional de Vacinação», refere o especialista.

- Rotavírus

«Protege da gastroenterite mais comum e a que mais desidrata por que causa mais vómitos. Todavia, o pior cenário será o de um internamento de dois a três dias para repor líquidos através de administração de soro.  Se os pais puderem comprar a vacina, tanto melhor mas, se forem obrigados a optar, esta será a mais dispensável», aconselha Mário Cordeiro.

- Varicela

«A varicela é uma doença muito infecciosa. Pode ser grave e, até, provocar encefalite e morte, além de deixar o vírus no organismo que, mais tarde, se manifesta na forma de uma doença chamada zona, que tem vindo a aumentar com a longevidade, o stresse e os tratamentos oncológicos. A vacina da varicela deve ser administrada aos 14 meses e, depois, aos seis anos», recomenda o pediatra.

- Papilomavirus humano (HPV)

«Os efeitos na saúde individual e pública desta vacina são formidáveis. Pode contribuir para evitar cerca  de 80 por cento dos casos de cancro  do colo do útero. Deve ser realizada antes das jovens iniciarem a sua vida sexual», adverte o especialista.

Quando procurar o pediatra?

A atual composição das vacinas, mais elaborada e segura, faz com que as reações a elas sejam muito menores do que quando o programa de vacinação foi instituído:

- Pode surgir febre nas 48 horas subsequentes e dor e inchaço no local da inoculação.

- Algumas vacinas, como a antirrotavírus, VASPR e a antivaricela, por serem compostas por microrganismos atenuados (as outras são apenas proteínas e pedaços dos agentes), podem dar uma reação de doença em miniatura.

- No caso da VASPR e varicela, podem surgir febre baixa e pequenas borbulhas ou manchas, sem que isso seja doença ou contagioso.

- Recorra a um serviço de urgência se ocorrer uma reação anafilática com hipotensão, mal estar e choque.

Texto: Fátima Lopes Cardoso com Mário Cordeiro (médico pediatra)

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