Regressamos lentamente à normalidade. Fazemo-lo porque reconhecemos os limites da situação de exceção em que vivemos e que não há como viver em equilíbrio e em acumulação das funções que nos foram sendo atribuídas.

Com o reinício do ano letivo, entregamos as crianças à escola, e seja o que Deus, as estrelas, ou o que quer que se acredite, quiser.

Têm sido tempos de enorme exigência para todos os envolvidos. Sem autorização devida, vamos respirando, não de alívio, mas de necessidade de ar. Estando não sabemos bem em que fase pandémica, vivemos como se o pior já tivesse passado. E bem!

Já quase esquecemos, mas é bom lembrar. É bom fazer memória do que, e como, se viveu para que não se torne vão. De entre os muitos obstáculos vividos, um dos que mais se foi repetindo (mas nunca publicamente discutido) foi o equilibrismo em que os pais viveram, acumulando as funções, de outrora, com as parentais, agora alargadas e em exercício permanente.

Houve, de facto, uma parte destas funções que não havia como escapar, mas de entre elas, estranhamente, aparece uma função a que se foi dando enorme relevo mas que não seria de esperar.

Foi enorme a preocupação com, “o meu filho não tem nada para fazer!”

Mas porquê? Parece que, hoje, as crianças perderam algumas capacidades que julgávamos inatas e cuja ausência nos é extremamente difícil compreender. De entre todas as diferenças geracionais, salta claramente à vista a incapacidade de estar só.

Capacidade, com duplo sentido e igual importância, em que se mostram intolerantes a estar sozinhos, mas também a “só estar”, sem fazer nada. Ambas as formas de “estar só” são muito importantes ser vividas e garantem a aquisição de recursos internos que, sem esta vivência, não seria possível obter.

Estar só, permite conhecermo-nos e permite-nos pensar sobre o que somos e o que queremos. Pensemos até nos castigos aplicados de, após uma desobediência ou mau comportamento, não poucas vezes, a consequência era ir “já para o quarto… pensar no que fizeste” e, no quarto, o “castigado” não tinha mais do que pensar no que havia feito.

Talvez se compreenda, por aqui, o quão frequente é a resistência dos pais ao tédio dos filhos. Talvez nos soe a castigo, e talvez nos lembre, não só do desconforto do silêncio, como também da intenção de quem nos punha de castigo.

Desde muito cedo, aprendemos que estar em só e em silêncio deve ser incómodo e indesejável. Daí se percebe a repugnância pelo acto, não reconhecendo as suas potenciais virtudes.

Nos dias que correm, o silêncio é cada vez mais raro. No mundo de hoje, com cada vez mais informação e comunicação, acabamos por, facilmente, perdermos o contacto connosco próprios. As redes distraem-nos, do nosso autoconhecimento, dos nossos desejos e das nossas emoções. Facilmente se empatiza com esta forma de estar, porque pensar e sentir pode nem sempre ser agradável.

Não queremos estar tristes, zangados ou inseguros e, por isso, recorremos a algo que nos distraia. É certo que, apoiando-nos no ruído, há coisas que deixarão de ser feitas e emoções que não serão digeridas mas, pelo menos, não nos sentimos quando não nos apetece.

Torna-se, assim, relevante viver o silêncio e todos os desafios que este nos coloca. Importa viver o silêncio para que se compreenda que não “morde” e que é normal não estar permanentemente sob estímulo. É urgente que se entenda que estar só não é o mesmo que estar abandonado.

Quanto mais cedo nos depararmos com a ausência, mais competentes seremos a viver e aproveitar aquilo que pode trazer de bem, para além de que, sem a sua vivência, nunca a saberemos manejar.

É só após o contacto connosco que encontramos ferramentas internas para sair do lugar em que estamos. Do tédio, parte-se para algures, e deve ser a criança a definir para onde irá. Pode ser sua responsabilidade ajudar um filho a aprender a sair do silêncio, mas o seu filho estar maçado nunca será culpa sua.

O silêncio e o vazio são lugares únicos de criação. Crianças que, hoje, parecem já não saber criar, imaginar e inventar, são-no por já não terem que o fazer. As crianças já não querem pintar, ler ou escrever porque estas são desafios que dão trabalho. Prefere-se, naturalmente, que alguém imagine por nós.

Toda a criação parte de nós e sem espaço para que o “eu” surja, este nunca se revela. Este aparece quando não temos mais alternativa. Quando não temos mais do que o silêncio que nos rodeia, aí sim, criamos, para o calar.

Aí, sim, se enchem as paredes do quarto, vazias. Aí, sem um desenho imposto, temos que ser nós a desenhar mas, pela sociedade em que vivemos, cheia de informação e estímulo, só neste lugar vazio é que o (e nos) encontramos.

Há que dar ferramentas que possibilitem a criação mas, esta, depois, torna-se inteira responsabilidade da criança porque a sua função é, exclusivamente, para que a criança tire proveito dela.

Não se imponham expetativas! Assim, que nenhum desenho tenha que ser digno da porta do frigorífico! Que nenhuma canção, tocada ou cantada, faça Mozart corar de inveja. Que nenhum texto seja cogitado para Nobel.

Qualquer que seja a criação, que esta ajude a criança a esquecer-se, ainda que por um momento, de que não pode jogar futebol nem ginástica, de que não sabe se poderá vir a jogar à apanhada até já ser demasiado adulta, e nem quando deixará de ter amigos apenas através de um ecrã que, sendo melhor do que nada, sabe a muito pouco.

Texto: Martinho Palha, Psicólogo Clínico - Núcleo de Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção

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