Cerca de 35 por cento das crianças portuguesas usa óculos. O número parece assustador, principalmente se considerarmos que a média de um estudo com 8.000 pessoas de oito países (França, Holanda, Espanha, Portugal, África do Sul, Alemanha, Inglaterra e Itália) é de 34 por cento. Mas se já se está a preparar para culpar a televisão e os jogos de computador, saiba que a culpa, ainda que involuntária, pode ser mais sua do que pensa.

Televisão, consolas e genes

Antes de apontar o dedo à tecnologia, «é importante saber se há história de erros refrativos na família e se os pais têm astigmatismo, hipermetropia ou outro erro refrativo. Estas crianças têm muito mais probabilidade de desenvolver problemas e por isso devem ser rastreadas cedo, entre os dois ou três anos», começa por explicar Jorge Breda, responsável pela unidade de oftalmologia pediátrica e estrabismo do Hospital de São João, no Porto. Ver televisão ou jogar consola «pode fatigar se houver erros refrativos ou do equilíbrio oculomotor, mas mais nada», assegura o especialista.

Principais problemas

Miopia, astigmatismo, estrabismo, hipermetropia e ambliopia são os problemas oftalmológicos mais comuns na infância. Mas nem todos têm o mesmo grau de importância, até porque alguns são mais fáceis de tratar do que outros.

«As pequenas miopias, até duas ou três dioptrias se forem semelhantes em ambos os olhos não causam grande aflição porque o mundo das crianças é muito próximo e, como é sabido, os míopes vêem bem ao perto. O mesmo se passa com a hipermetropia de duas ou três dioptrias em ambos os olhos. As crianças conseguem com facilidade ultrapassá-las», esclarece o oftalmologista.

Aprender a ver

Tal como a criança aprende a andar e a falar, também aprende a ver. Se a refração não for igual nos dois olhos, estamos na presença de uma anisometropia, o que significa que um olho está «mais focado», descreve o especialista, que o outro. «Ora, se o cérebro não receber imagens nítidas de um olho, digamos que esse olho não aprende a ver com nitidez», refere ainda.

«Chama-se a isto olho preguiçoso, designado cientificamente por ambliopia», alerta Jorge Breda. Nestes casos, o tratamento consiste em tapar o olho que o especialista apelida de «olho bom» durante semanas ou meses, dependendo da gravidade do problema.

Detetar a brincar

Identificar os problemas visuais nem sempre é fácil, mas há fatores a que pais e educadores de infância podem prestar atenção. Por exemplo, o movimento dos olhos ao acompanhar os brinquedos. O facto de a criança levar o brinquedo muito próximo aos olhos, se faz uma conexão adequada da parte motora com a visual e/ou se demora a chutar uma bola podem ser sinais.

Mas existem outros, nomeadamente se tropeça com frequência, se estende apenas uma mão para apanhar objetos; se separa e combina cores corretamente, se não gosta de brincadeiras de encaixar peças ou tem dificuldades em escolher a peça adequada e colocá-la na posição correta. Se detetar algumas destas situações, consulte um especialista.

Veja na página seguinte: O papel que a escola deve ter

O papel que a escola deve ter

«É frequente ninguém em casa desconfiar que a visão de um dos olhos não se está a desenvolver, portanto, quando aos cinco ou seis anos a criança faz testes de medição da acuidade visual e se diagnostica ambliopia, muitas vezes, já é tarde para tratar porque foi ultrapassado o período crítico de desenvolvimento visual», acrescenta Jorge Breda.

«Por isso, todos os anos há quatro ou cinco mil crianças que vão ficar amblíopes por o seu problema não ser detetado em tempo útil», lamenta ainda o médico. Os professores são essenciais na deteção precoce dos problemas visuais e devem alertar os pais perante qualquer alteração.

Óculos ou lentes

Ao contrário do que possa pensar, a utilização de óculos ou lentes de contacto pode ocorrer desde tenra idade. «Pomos lentes de contacto a crianças com algumas semanas de vida, quando são operadas a cataratas congénitas monolaterais, e óculos a partir dos quatro, cinco meses, sempre que é preciso», informa Jorge Breda.

Também aqui o papel dos pais é essencial. Para que a criança não encare o uso dos óculos como um sacrifício e comprometa o tratamento, os progenitores devem apoiá-la, permitir que ela participe na escolha da armação e elogiar o lado estético.

Situações preocupantes

Se detetar os seguintes sintomas no seu filho, recorra ao médico, para obter um diagnóstico:

- Olhos vermelhos
- Pupila branca ou sem reflexo
- Lacrimejo constante
- Olhos grandes, estrábicos, esbranquiçados
- Proximidade excessiva da televisão ou dos livros
- Pestanejar frequente, esfregar ou franzir os olhos quando está a fixar
- Inclinar a cabeça quando tenta ver melhor
- Desinteresse e deficiente aproveitamento escolar
- Dificuldades na aprendizagem, leitura ou escrita

Texto: Sandra Diogo com Jorge Breda (oftalmologista)

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