O mito da madrasta má da Branca de Neve já está mais do que ultrapassado. Agora as histórias são outras. E também têm finais felizes.

A ciência tem vindo a demonstrar que a separação dos pais não é, obrigatoriamente, traumatizante para a criança.

 

Oitenta por cento dos filhos de pais divorciados não tem problemas comportamentais. Os meus pais
divorciaram-se quando era pequena. Tal como eu, muitos dos meus amigos são filhos de pais divorciados e familiarizam-se desde cedo com as palavras padrasto, madrasta, fins de semana alternados e por aí fora...

Hoje em dia, é cada vez mais comum uma criança ter quatro avós e quatro avôs, meios-irmãos e tios, tias, primos e primas em duplicado. E, se é verdade que o divórcio dos pais é uma realidade difícil de aceitar e que pode ter repercussões negativas para os filhos, cada caso é um caso e cada vez mais estudos salientam o outro lado da questão, focando-se nos benefícios destas novas famílias para as crianças.

Gerir o divórcio

Contrariando uma velha crença que associava o divórcio dos pais a uma criança e futuro adulto com problemas psicológicos, os especialistas têm vindo a concluir que os filhos de pais divorciados têm um desenvolvimento perfeitamente normal e saudável, tornando-se, na generalidade, adultos mais flexíveis e com um espírito aberto.

Na verdade, o que parece comprometer a estabilidade emocional das crianças reside, em muito, no modo como os pais gerem o divórcio, a forma como explicam a situação às crianças e, principalmente, se ficam resíduos de conflitos por resolver, que se podem traduzir em agressões verbais ou falta de comunicação entre os progenitores.

Utilizar as crianças como intermediárias em questões monetárias ou escolares, chantageá-las emocionalmente, obrigá-las a tomar partido ou a assumir preferências (perguntando-lhes se gostam mais da mãe ou do pai, por exemplo) ou dizer mal do ex parceiro são erros muito comuns que devem ser, a todo o custo, evitados.

O terceiro elemento

E eis que a mãe, o pai ou ambos iniciam um novo relacionamento e voltam a casar.

Este é outro dos períodos considerados críticos e os pais devem assegurar a redução, ao máximo, das fontes de stress que advêm da mudança de rotinas (as quais desempenham um papel de extrema importância para a criança) na fase posterior ao divórcio ou quando existe um segundo casamento.

Um estudo realizado por Mavis Hetherington junto de famílias pós-divórcio e publicado no Journal of Family Psychology revelou que os dois primeiros anos de convivência são a grande prova de fogo para os mais pequenos quando os pais voltam a casar ou a coabitar com alguém.

A interação entre todos os membros (onde se podem incluir eventualmente outras crianças) e a adaptação e a criação de laços afetivos implica um período de adaptação que nem sempre é fácil. No entanto e segundo esta pesquisa, decorridos cinco anos, estas novas famílias revelam-se mais estáveis e harmoniosas, com relações sólidas e assentes na compreensão e aceitação mútua.

«Oitenta por cento das crianças cujos pais se divorciaram e voltaram a casar não apresenta problemas comportamentais quando comparada com noventa por cento das crianças cujos pais estão juntos. Não existe nenhum tipo de maldição sobre os filhos de pais divorciados!», remata Mavis Hetherington.

Texto: Teresa d'Ornellas