A cumprir estágio no Hospital de Santarém, fazendo neste momento parte da equipa das urgências, Tiago Cardoso lançou-se também agora carreira no mundo da música. O videoclipe do primeiro tema, 'Tiro ao Lado', ficou disponível no YouTube no Dia dos Namorados, 14 de fevereiro, esperando agora chegar ao ouvido e ao coração dos portugueses.

Em entrevista ao Notícias ao Minuto, o jovem artista destacou a importância que o lugar onde nasceu tem na sua vida. “Faz muito parte de mim. A tranquilidade, lidar com animais, apanhar fruta diretamente da fonte. Não preciso de muito para ser feliz e agora finalmente começo a ver que se calhar é possível ter aquilo que realmente me faz sentir especial, que é a música. Há dez anos nunca acreditaria que poderia estar aqui hoje”, diz.

Por enquanto, estes dois mundos são conciliáveis, porém, garante, se não conseguir mantê-los “não tem nenhum problema em tomar uma decisão”.

Como é que nasceu o gosto pela música?

Acho que sofreu várias influências. Simplesmente comecei por gostar de ouvir música. Há muitas pessoas que começam a cantar aos cinco ou seis anos, e até fazem programas de televisão, mas não foi o meu caso. Aliás, acho que na altura se calhar nem ia conseguir lidar com tanta pressão. Comecei aos 10 anos, o que também não é tarde, mas foi muito local. Em Cinfães, na escola, e foi num concurso de karaoke no Natal. Inicialmente não sabia para o que é que ia porque era tudo novo, estava no 5.º ano. Deixe-me levar e acabei a cantar para centenas de pessoas. Foi uma experiência muito interessante porque acabei por ganhar e a partir daí as coisas foram evoluindo. O meu pai também sempre soube aproveitar o que eu ia fazendo e comprou-me uma guitarra, pôs-me a ter aulas. A pouco e pouco as coisas foram-se orientando, até que comecei a compor, e desde aí que tenho tido muitas músicas que espero que venham a sair um dia.

Tem alguém na família que também é artista ou é o primeiro?

Fui o primeiro. Mesmo a nível de concelho, nós temos muitos músicos, mas com projeção nacional tivemos um fadista, o António Laranjeira, mas pouco mais. Apesar de ser uma terra de músicos, é difícil da periferia chegar ao centro do país. É mesmo complicado e é uma honra se conseguir.

O que poderia mudar essa realidade?

A indústria musical em Portugal, creio que podia estar mais desenvolvida em alguns aspetos e isso poderia ajudar. No entanto, aquilo que também me apercebo é que as pessoas acabam por arranjar alternativas. Há pessoas que tocam em bandas locais e são extremamente felizes, e no fundo é isso que interessa - e às vezes conseguem ter um retorno muito interessante disso, mesmo não tendo aquela projeção nacional ou internacional. No fim, é isso que importa, as pessoas estarem satisfeitas porque a vida é curta. Não vale a pena a gente frustrar-se e andar eternamente atrás de algo que é realmente muito complicado, conseguir uma projeção maior.

Já tinha alguma ligação com algum artista? Como é que começou esta aventura?

A aventura mais “lisboeta” – porque em Lisboa é que estão concentrados alguns dos grandes estúdios – começou com o C4 Pedro. Foi uma sorte que tive. Ele viu um cover que eu fiz de uma música dele, ‘Tu És a Mulher’, que estava a badalar imenso em todo o lado, ele estava a ter muito sucesso. Lembro-me que nessa altura a música tinha 20 milhões de visualizações. E para músicas cantadas em língua portuguesa é difícil passar um certo patamar. Na altura em que fiz o cover, aquilo que pensei foi que como haviam poucos covers, podia ser que o C4 Pedro - que eu adoro - reparasse em mim de alguma maneira. E isso aconteceu, mas demorou muito porque ele viu e só passados dois anos é que entrou em contacto comigo. A partir daí, fomos trabalhando e, mais tarde, fiquei com a agência que estou atualmente, que é a KlassziK, que é a agência com quem queria trabalhar.

E a paixão pela medicina? Como é que surgiu?

É engraçado porque apesar de ter levado sempre ambas ao lado uma da outra, a medicina e a música, tenho formas muito diferentes de me relacionar com estas duas paixões. Enquanto a música é uma paixão inata, na medicina eu aprendi a gostar. E neste momento, este ano, também estou a aprender a gostar porque só este ano é que comecei a trabalhar mais a sério. Apesar de no meu início ter sido extremamente stressante, comecei a gostar e a sentir que é extremamente útil. Além disso, percebes que é uma honra exercer aquele cargo porque também tenho noção que para eu estar ali houve alguém que era apaixonado por cuidar de pessoas que não pôde ficar com a “minha vaga”. Sinto-me lisonjeado em exercer essa profissão.

Como é que consegue gerir estes dois mundo?

Gosto muito de dormir, mas começo a ter menos tempo [risos]. No entanto, é preciso perceber que, se calhar, daqui a meio ano a conversa seria outra porque estou no início de ambas as profissões. Não sei dizer agora até que ponto é que elas são compatíveis, mas a realidade é que até agora têm sido. E, simplesmente, aquilo que acontece é que aqui na música, na KlassziK, tentamos flexibilizar o meu horário de forma a que ele encaixe no outro. À medida que as coisas vão intensificando do lado musical, vai ser mais complicado na medicina. Por exemplo, hoje [14 de fevereiro] tenho a apresentação do videoclipe, tenho [muitas coisas para fazer] e ontem [13 de fevereiro] estive a fazer banco 12 horas. É cansativo, mas pelo facto de estar no início, não chego a casa assim tão cansado porque sei que no dia seguinte vai haver mais coisas que, no fundo, são sempre boas. E também há algo que é muito gratificante que é sentir que também estou a evoluir na medicina. São dois lados paralelos e tento não misturar as coisas, acho que ajuda.

Mas acha que vais conseguir conciliar ou tem medo de chegar a um ponto em que vai ter de escolher uma das profissões?

Nunca tenho medo porque acredito que o que tiver de ser o destino vai encarregar-se de me ajudar a decidir - não vai decidir por mim porque isso somos sempre nós que decidimos. Eu adoraria conciliar porque consigo tirar coisas boas de cada uma das profissões. Mas caso não seja possível, também não me vou frustrar por isso e não tenho problemas em tomar uma decisão, até porque a vida apesar de ser curta, é longa o suficiente para conseguir fazer várias coisas. Aliás, até estou a pensar um dia – mas isso é hipotético – estudar outra área. Não sei se será possível ao longo da minha caminhada, mas vamos ver.

E qual a razão de lançar a carreira no Dia dos Namorados? Tem algum significado especial?

Na verdade acabou por ser assim. Aceitei esta data e acho que faz sentido. Pelo facto de ser um cantor romântico, acho que faz todo o sentido. Ao longo da minha caminhada enquanto compositor, que já leva bastantes anos, escrevo quase sempre sobre músicas que são românticas e muitas delas são histórias pelas quais passei, nem sempre são. Às vezes são e eu altero para criar outra história que tenha semelhança, mas com algumas alterações para ficar mais comercial.

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Então já há muitas ideias para mostrar…

Temos mesmo muitas. Esta música é das mais recentes. No início era para ser outra, mas ainda bem que repensámos e escolhemos esta música porque penso que vai ficar no ouvido.

E será este o registo que vai manter ou tenciona explorar outros estilos?

Acho que esta música me descreve enquanto artista, a minha ‘baseline’. No entanto, gosto imenso de diversificar aquilo que vou fazendo e também pretendo fazer parcerias que provavelmente seriam inesperadas. Tentar juntar várias culturas, vários povos, e felizmente a KlassziK permite-me isso porque temos pessoas de todos os países. Quero muito trazer essa culturalidade para o panorama português. À medida que for evoluindo vou tentar apanhar outras vertentes. Acho que é importante o artista lançar algo inesperado mas que é tão bom como as músicas que ele lançou no início. Às vezes também se torna cansativo, monótono, se estiver sempre com o mesmo registo.

Quais as maiores inspirações na música?

Não sou muito de ter ídolos, mas em Portugal, se calhar, é o Rui Veloso. Dentro de tudo aquilo que já existiu, ele é especial, destaca-se. Se for num panorama internacional, talvez já vá buscar influências mais pop, apesar de também gostar muito de John Mayer. A minha questão é que gosto um bocadinho de tudo, e vamos ver se isso é bom ao longo prazo ou não. Porque posso dizer que gosto de Chuck Berry, gosto de Justin Bieber… São completamente opostos, mas são ambos, para mim, ótimos. E aqui gosto desde Amália Rodrigues e também gosto de Sam The Kid. Não tenho um gosto definido e pode ser que isso jogue a meu favor, ou não. Depende do público.

E qual foi o maior ‘Tiro ao Lado’ que já deu na vida?

Acho que não dei nenhum que me arrependesse. Todos falhamos, já errei muito, mas não há nada, olhando para trás, que me faça dizer: se pudesse mudava aquilo.

Falando um bocadinho da medicina, como tem sido estagiar em plena pandemia?

Tenho muita sorte porque o nosso hospital defende-nos ao máximo. Há outros sítios em que os internos (que é a dominação que temos para o primeiro ano em que exercemos funções) estão 'a ser atirados aos lobos'. Ali não, estamos a seguir o protocolo. Cada um está na área que deve, ou seja, comecei pela cirurgia e vou acabar na pediatria em dezembro. Poderia estar [na ala] da Covid-19 e não iria aprender tanto, se calhar, ia estar mais numa de infecciosas e não era enriquecedor porque precisamos de passar pela cirurgia, pela medicina interna, pela medicina familiar, e isso depois no ano seguinte - que é o primeiro ano de especialidade - é super útil. Temos que ter conhecimentos em todo o lado. No entanto, é complicado porque apesar de estarmos afastados da Covid-19, nunca sabemos se realmente estamos. A qualquer momento pode entrar pela urgência um doente que esteja infetado e tu não fazes ideia. É um bocado lotaria, mas estamos sempre protegidos.

Destes momentos na medicina, qual foi até aqui a experiência mais dura e a mais gratificante?

Houve uma experiência que me marcou um pouco, mas acabou por ser positiva no sentido em que tu aprendes a ser humilde. Foi quando tivemos medicina legal, as autópsias. Realmente, tu percebes que nós não temos grande importância, que somos frágeis. As pessoas vão lá parar e às vezes, se calhar, nem têm um familiar para as ir reconhecer. Custa um bocado, mas também aprendes. Em relação à melhor parte, diria que é a alegria das pessoas quando elas têm alta. Isso reconforta-me.

Que valores das suas raízes é que guarda?

Não poderia inventar que passei dificuldades porque nunca passei. Os meus pais sempre nos deram tudo, a mim e à minha irmã, mas complementaram a nossa educação com o trabalho no campo. E acho que faz toda a diferença porque tu percebes que, por exemplo se fores ao supermercado, aquilo que está lá é fruto do trabalho de outras pessoas. Percebes como é que se cultivam cebolas, pepinos, tomates… e aquilo dá realmente muito trabalho. Tu podes ter conforto, mas nunca te deves perder. Não podes achar que está tudo garantido. É uma questão de manteres sempre os pés no chão e perceberes que a qualquer momento ‘podes ir desta para melhor’. A realidade é esta e enquanto médico tenho ainda mais essa noção que tudo no nosso corpo pode correr mal a qualquer momento. E depois é sabermos que tudo o que temos ao nosso redor é fruto do trabalho de alguém.

Onde é que se imagina daqui a dez anos?

Em termos de sonho, independentemente do resto, não vou dizer mais nada para além de que gostava de ter uma carreira musical cimentada. Pelo menos cinco músicas que têm batido os cinco milhões de visualizações e ser reconhecido por isso. Gostava que ao perguntarem por mim dissessem que sou bom e que tenho qualidade. Por outro lado, gostava de manter a minha família com saúde e o meu melhor amigo que teve sempre lá para mim e faz parte do meu dia a dia. O resto que seja o que o destino quiser.

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