Catarina Furtado apresentou, na passada sexta-feira, uma palestra na qual reuniu mais de 400 jovens para uma "partilha sobre a adolescência" baseada nos temas que dominam o livro 'Adolescer É Fácil #sóquenão', lançado em maio de 2019.

A propósito desta que é uma das grandes missões a que se propõe - a de 'embaixadora' de valores como a igualdade e respeito - a apresentadora conversou com o Fama Ao Minuto sobre a "fase incrível" que diz ser a juventude.

Oito meses depois do lançamento de 'Adolescer é Fácil #sóquenão' e das visitas a várias escolas, qual o maior impacto que nota nos jovens? Que temas geram mais controvérsia?

O que me fez aceitar este convite da Porto Editora foi exatamente a experiência acumulada que já tenho de andar há anos nas escolas a partilhar temas relacionados com os direitos humanos, a cidadania, os desafios da adolescência, a violência, a discriminação. Partilho o que tenho vivido ao longo de 20 anos enquanto Embaixadora do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), enquanto presidente da Associação e ONGD Corações Com Coroa (CCC) e autora dos documentários 'Príncipes do Nada' na RTP.

Sinto que os jovens precisam de ser ouvidos, orientados sem moralismos, inspirados para desenvolverem a empatia, para o bem, porque o seu potencial está todo lá. Temos a maior geração de jovens de sempre: 1,8 mil milhões, temos de a aproveitar para construir um mundo mais justo e igualitário e combater os ventos conservadores que alimentam o medo e afetam a integração. Fala-se muito de bullying, violência no namoro, desigualdade de género, homofobia, racismo. Eu trago-lhes o mundo em desenvolvimento e exemplos concretos de jovens como eles a quem tudo falta, como o caso dos refugiados que tenho entrevistado nos últimos meses (no Bangladesh, Líbano, Grécia, Colômbia e amanha parto para o Uganda).

Temos tendência em nos esquecermos que apesar do progresso tecnológico, as hormonas manifestam-se da mesma maneira independentemente da geração de que se está a falar

Refere que a adolescência é a "fase mais incrível" da vida. Temos tendência em pintar um cenário negro que não corresponde à realidade?

Acho que temos tendência em nos esquecermos que apesar do progresso tecnológico, as hormonas manifestam-se da mesma maneira independentemente da geração de que se está a falar. Acho que temos de perceber que só temos a ganhar se nos aproximarmos com talento e jogo de cintura. Eu tenho muita esperança nesta juventude, recebo milhares de mensagens nas minhas redes sociais com jovens a pedirem conselhos de toda a espécie e dicas de voluntariado.

No início faz um parêntesis à importância do 'obrigada'. Esquecemo-nos cada vez mais de ser gratos pelas pequenas coisas?

Sim. Há exercícios que temos mesmo de aprender a fazer, porque provam a sanidade mental, a tranquilidade e a real valorização do que é importante! Eu agradeço todos os dias. É dar e receber na vida.

O livro começa por abordar os temas nascimento e família, nomeadamente da aceitação daquilo que não são os padrões convencionais. As novas gerações mostram-se mais compreensivas com o que não é tradicional?

É um pau de dois bicos no sentido em que mutação do que era considerado 'normal' está a acontecer, nomeadamente nos formatos de famílias, mas ao mesmo tempo, nem sempre são processos pacíficos. Ainda existe muita discriminação em relação à orientação sexual, por exemplo, e ainda existem muitos maus exemplos de divórcios litigiosos em que os jovens ficam no meio de relações pouco saudáveis entre padrastos e madrastas.

Acredito que é exatamente a partilha intergeracional que pode residir a 'salvação' deste nosso mundo onde a angústia tem ainda muito espaço (em diferentes faixas etárias)Em todas as gerações há um grande contraste com os seus pais no que toca às tendências da atualidade.

Fez questão de mostrar que não há um lado correto ou errado, tem sim de existir um esforço de ambas as partes. É fácil para os pais compreenderem este ponto de vista?

Há valores que são intemporais e que acho que são a base para qualquer identidade. Que atravessam gerações e desses valores eu não abdico na educação que dou aos meus filhos e enteados e quando falo em palestras. Depois acho que é muito positiva e saudável a partilha intergeracional e acredito que é exatamente nesses encontros que pode residir a 'salvação' deste nosso mundo onde a angústia tem ainda muito espaço (em diferentes faixas etárias).

Sendo mãe, também sente essas dificuldades de comunicação?

Claro que sim. Mas tento não me esquecer de que tantas vezes o mais importante são as nossas ações e não tantos os discursos despejados.

Há um capítulo que chama particularmente a atenção. Relata o episódio de uma criança de nove anos que lhe perguntou com que idade podia tornar-se vegetariana. Sendo esta uma realidade cada vez mais frequente nas casas dos portugueses, é necessário mais debate e atenção sobre estas questões?

Acho que nas escolas têm de cruzar informação com professores e especialistas de várias matérias. Hoje os estímulos informativos (e às vezes contra-informativos e as fake news) são tantos e disparam em tantas direções, que a escola tem mesmo de se atualizar na abordagem transversal de currículo e na informação geral.

Eu não tenho medo de emoções e até choro e rio com grande facilidade mas acredito que a emoção deva ter uma consequência, uma mensagem transformadora

Os afetos são outro dos temas dominantes. Em Portugal falamos de emoções tanto quanto devíamos?

As emoções devem ser faladas mas ajudadas pelo intelecto para que não sejam gratuitas ou abusadas. Nos meios de comunicação muitas vezes o que se passa é que os protagonistas das emoções são utilizados, (os abutres a espremerem) mas depois a mensagem importante não fica, não passa. Mais uma vez, vem ao de cima a vítima. Eu não tenho medo de emoções e até choro e rio com grande facilidade mas acredito que a emoção deva ter uma consequência, uma mensagem transformadora.

Temas mais sensíveis como a morte, a saúde mental e as doenças sexualmente transmissíveis foram abordados de forma esclarecedora quanto aos termos e aos estados emocionais. Ainda existe um longo caminho para tornar estes temas menos tabu?

Muito longo mesmo. Mas não podemos desistir e temos de pegar nos extraordinários exemplos de mudança que os há, e continuar o caminho da resiliência!

Depois do universo dos adolescentes, há outras fases da vida que gostava de abordar em livro?

Para já, gostava de falar na dramática, vergonhosa e insustentável situação em que vivem 70,8 milhões de refugiados ( deslocados à força) no mundo inteiro!

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