Depois de ter estado ao lado de Júlia Pinheiro, Luís Maia é agora um dos homens que se mantém junto de Cristina Ferreira no programa que ocupa as manhãs da SIC. É o repórter que anda atrás dos "bandidos", tendo já muitas histórias para contar.

Em conversa com o Notícias ao Minuto, Luís Maia não só partilhou alguns dos episódios que viveu ao longo destes anos nesta área, como também falou sobre outra paixão: a escrita.

Com dois livros a solo lançados, e participação em muitos outros, Luís garante que não quer ficar por aqui e que ainda há mais obras para escrever.

Uma conversa onde aborda também a pandemia da Covid-19, que tem marcado o ano 2020. Inicialmente, depois d'O Programa da Cristina' ter estado parado durante uma semana, parte da equipa voltou para a redação, incluindo Luís Maia. Depois regressaram as saídas à rua para fazer as reportagens, continuando com todos os cuidados de proteção contra o novo coronavírus.

De referir que Luís Maia é casado com Susana, com quem tem um filho em comum, o pequeno Afonso. A mulher do repórter e jornalista é ainda mãe de Lia, fruto de uma relação anterior.

É atualmente o repórter d'O Programa da Cristina', fazendo parte da rubrica criminal do formato. Manteve-se no ativo e já voltou para a rua há alguns dias para fazer reportagens... Como tem sido esta nova experiência de trabalhar com todas as condicionantes que esta pandemia exige?

Tem sido uma fase de adaptação e de tentativa de perceber como é que vamos lidar com esta nova realidade, ou seja, saímos com máscaras, com luvas, tentamos não nos aproximar demasiado das pessoas... O trabalho de um repórter que está na rua é um trabalho de proximidade, de falar com pessoas. Obviamente que quando não nos aproximamos demasiado delas, quando mantemos as regras de distanciamento, mantemos uma atitude prudente e responsável, tudo muda um bocado. [Recentemente] fui gravar uma reportagem que em circunstâncias normais teria gravado dentro de casa da pessoa, mas por via da pandemia acabei por gravar na rua.

A vida não para, acredito que o meu trabalho e o dos meus colegas é um trabalho essencial, tem de ser feito

Durante uma semana o programa esteve mesmo 'parado' e só depois é que voltaram aos estúdios. Teve algum receio quando teve de regressar?

Obviamente que há sempre receio quando estamos a atravessar uma pandemia e sabemos que o vírus anda aí, e vamos ter de viver com ele durante mais algum tempo. Mas depois é preciso vencer esse receio. A vida não para, acredito que o meu trabalho e o dos meus colegas é um trabalho essencial, tem de ser feito. Por muito receio que tenhamos - tendo em conta que a vida não para e que o nosso trabalho é essencial -, algum dia temos de sair de casa para realizar esse trabalho, para que este não pare e para que as pessoas tenham nas suas casas a emissão do 'Programa da Cristina' com segmentos de entretenimento, mas também alguns de cariz mais informativo... E que possam também ajudar as pessoas a estarem o mais bem informadas possível e a atravessar esta pandemia da melhor maneira, até porque no que diz respeito à informação, não há nada pior do que a informação pouco credível, que vem de correntes de redes sociais e que não tem fundo de verdade, que confunde mais as pessoas, as deixa mais ansiosas, leva-as até para caminhos errados e que pode pô-las em perigo.

O que o levou a querer andar atrás dos 'bandidos'?

Estes assuntos acabaram por me surgir no caminho quase por acaso. O meu primeiro trabalho em televisão foi num programa que dava na RTP1, que já tinha a ver com assuntos criminais. Mas estive lá pouco tempo. Depois disso, fui trabalhar para um programa social, cor de rosa, que era emitido na TVI. Fui feliz a fazer esse programa, mas depois comecei a fazer day-time, primeiro no 'Você na TV' e passado algum tempo comecei a trabalhar com o Hernâni Carvalho em assuntos criminais. Acabou por acontecer porque tinha de acontecer, não há uma explicação, não houve propriamente uma escolha, um desejo de há muitos anos. O que é certo é que comecei a fazê-lo e gosto imenso, gosto de fazer reportagens acerca destes assuntos.

Já várias vezes me ameaçaram e intimidaram, já me apontaram com uma caçadeira, já me ameaçaram com facadas, tentaram apedrejar, já me atiraram garrafas, já me tentaram atropelar, já me quiseram bater... por sorte, nunca me acertaram

E já foi alguma vez ameaçado na rua?

Ui! Por onde quer que comece? [risos]. Faz parte. Muitas vezes quando chegamos ao terreno, encontramos situações de tensão. Já várias vezes me ameaçaram e intimidaram, já me apontaram com uma caçadeira, já me ameaçaram com facadas, tentaram apedrejar, já me atiraram garrafas, já me tentaram atropelar, já me quiseram bater... por sorte, nunca me acertaram. Por exemplo, uma vez fomos confrontar uma família que era acusada de brutalizar um idoso e fomos bater à porta dos senhores, sabendo o que nos podia esperar, obviamente. E depois de tentar perceber se íamos obter alguma reação da senhora, ela a determinada altura entra em casa e sai para a rua com uma caçadeira apontada a nós. De repente, a senhora vira-se para nós e disse qualquer coisa do género sobre a nossa sorte era sermos dois e ela só ter um cartucho.

E de todas as histórias com que já se deparou ao longo destes anos, qual a que não esquece por alguma razão especial?

É muito difícil responder a isso. Diria que não há uma história que eu me lembre mais, há umas quantas que me vou lembrando... Uma história que me ficou, por exemplo, há uns anos a de um homem que matou o filho, que tinha menos de um ano. Na altura, o meu filho Afonso tinha pouco mais de um ano... Quando vou para o terreno, como qualquer repórter, queremos ter sempre o máximo de informação possível... Pedi a um colega meu de redação, que é o que faz a filtragem da informação para mim antes de ir para o local, e perguntei-lhe se ele tinha alguma fotografia. Ele mostra-me o recorte de um jornal onde estava a fotografia do pai e do filho. A fotografia era o pai com o filho ao colo e era uma selfie, e era isso que eu naquela altura fazia todos os dias com o Afonso para mandar à minha mulher. Quando olhei para aquilo... depois quando chego ao local e percebo as circunstâncias e que o homem ainda fez um vídeo que mandou para a mãe da criança a dizer o que ia fazer e o que ia acontecer à criança... Foi um nó na garganta. Foi o direto que mais me custou na vida...

'O Programa da Cristina' é, na minha modesta opinião, o melhor programa da televisão portuguesa. É muito bem feito, trouxe uma lufada de ar fresco

Não esconde o lado familiar, que é muitas vezes destacado no seu blogue, 'Histórias de Bebés e Bandidos by Luís Maia', e nas redes sociais. Aliás, diz: "durante o dia ando atrás de bandidos. À noite dedico-me à família e às coisas boas da vida". Não tem medo por trabalhar com temas tão sensíveis e de ao mesmo tempo ser tão transparente no que diz respeito aos seus entes queridos?

Já tive mais. Inicialmente, e não era só por trabalhar com matérias sensíveis. Não sou propriamente daquelas pessoas que faz publicações todos os dias nas redes sociais. Ao início tinha mais receio disso porque às vezes fazemos reportagens comprometedoras, algumas delas não terão sido nada simpáticas para pessoas que depois acabaram por ser presas... Já me fizeram surpresas em televisão em que levaram lá a minha família. Quem trabalha no day-time sabe que mais dia, menos dia, esse tipo de coisas pode acabar por acontecer porque o lado mais pessoal, mais familiar, está um bocado mais presente. E acho que foi a partir do momento em que isso aconteceu pela primeira vez, há uns anos, que para mim passou a ser uma coisa muito mais simples e sem problemas.

Não vivo atormentado com isso. Tento viver com essa possibilidade da mesma maneira que vivo com os outros riscos que a vida impõe.

Já há mais de um ano que está ao lado de Cristina Ferreira, na sua nova casa. O que destaca desta caminhada?

Uma dinâmica de vitória. As manhãs da SIC e a SIC passaram finalmente a ser vencedoras. 'O Programa da Cristina' é, na minha modesta opinião, o melhor programa da televisão portuguesa. É muito bem feito, trouxe uma lufada de ar fresco. Ali prima-se por tentar fazer um bocado melhor e diferente.

Privação de sono? Acho que os pais têm tendência a aceitar esta realidade como se fosse uma coisa inevitável

Sente que é um formato diferente daqueles em que já trabalhou até aqui?

Sim! Apesar de haver conteúdos fora da caixa sempre que possível, os espectadores já estão mais habituados ao que é 'O Programa da Cristina'. Agora, numa fase inicial, acho que isso se notou bastante porque quem olhava para o programa, mesmo sem som, olhando só para a imagem, o próprio cenário, dava para perceber que havia ali alguma coisa diferente. É muito mais dinâmico, muito menos estático, muito menos aquele "Portugal sentado" em que entra um convidado no estúdio e diz uma coisa... Ali qualquer coisa pode acontecer em qualquer sítio.

Antes de se mudar para a SIC esteve na TVI... E com alguns colegas da estação a mudarem-se para Queluz de Baixo... Se lhe fosse feita uma proposta pensava duas vezes, tendo em conta o patamar onde se encontra atualmente?

Todos os profissionais de televisão, de alguma maneira, têm de estar por um lado comprometidos com o que estão a fazer, mas ao mesmo tempo no mercado. Quando se recebe uma proposta para ir para algum lado ou fazer o que quer que seja, tem de se pensar sempre duas, três, cinco vezes, porque é a nossa vida que está em jogo.

Além do percurso em televisão, tem também um caminho na escrita, já com dois livros a solo lançados - 'Perder Um Rosto Ganhar Uma Vida' (de 2012) e 'O Meu Filho Não Dorme - Diário de Um Pai Desesperado' (de 2018). Sobre este último, como é que conseguiu vencer a privação de sono?

Com muito esforço. Acho que os pais têm tendência a aceitar esta realidade como se fosse uma coisa inevitável. Aqui em casa consultámos um terapeuta do sono, lemos livros de outros terapeutas para tentar aplicar algumas regras, algumas rotinas que pudessem funcionar e ajudar o Afonso a dormir. Implementámos rotinas muito mais rígidas no que diz respeito a horários, ou seja, tentar deitar a criança sempre à mesmo hora, tentar dar banho sempre à mesma hora, tentar dar o jantar sempre à mesma hora... Nem sempre é fácil. Houve alturas em que as coisas funcionaram melhor e outras alturas em que funcionaram menos bem.

Porque é que eu escrevi este livro? Obviamente não sou terapeuta de sono, não sou especialista nem em alguma altura tentei que o livro fosse para ser visto dessa forma. O meu livro é sobretudo a experiência de um pai, de uma família que teve de aplicar essas regras à nossa vida e aquilo é a aplicação prática do que um terapeuta de sono sugeriria. E com o máximo de humor possível, é tudo menos uma choradeira. É uma narração bem disposta e com o relato da aplicação de preceitos científicos. É a forma como uma família conseguiu ultrapassar aquilo.

Um tipo com sotaque irlandês aparece no meio do nada, a saber quem nós éramos, o que andávamos a fazer e aparecer em vários sítios dali para a frente é no mínimo insólito

Também assinou outras obras entre as quais Maddie 129, em coautoria com Hernâni Carvalho. Hoje, como é que resume toda a história da pequena Maddie?

Há uma história muito curiosa... Eu e o Hernâni passámos algum tempo [no local] por conta própria, a investigar algumas coisas, na altura do desaparecimento da Maddie... Há um dia em que nós estamos os dois no Algarve, a investigar uma pista que nos tinham passado, e, de repente, aparece-nos no meio do nada, no meio do mato, um tipo que dizia, e aparentava pelo sotaque, que era irlandês e que estava ali a caminhar. Mas é tão curioso... ele sabia o nosso nome - ele gostava de televisão portuguesa e já nos tinha visto em televisão, tudo bem. Mas sabia o que nós andávamos a fazer, qual era a nossa posição relativamente e convicções em relação ao caso, e apareceu-nos a primeira vez num sítio, apareceu-nos a segunda vez noutro sítio, depois noutro e, na brincadeira, mas a sério, eu e o Hernâni decidimos separarmo-nos e ir cada um para o seu lado e o rapaz ficou mesmo atrapalhado. Há episódios tão incríveis que quase parecem piada, e este é um deles. Um tipo com sotaque irlandês aparece no meio do nada, a saber quem nós éramos, o que andávamos a fazer e aparecer em vários sítios dali para a frente é no mínimo insólito.

Esta é uma área que pretende continuar a seguir?

Sim, não tenho a mínima dúvida. Gosto imenso de escrever e tenho pena que os livros venham a perder alguma importância no quotidiano das pessoas. Eu próprio não tenho muito tempo para ler, mas a cultura digital está a matar os livros e acho que eles desempenham um papel que não é facilmente substituível por formatos digitais e por vídeos... Um livro é um livro.

Já está a pensar numa nova obra?

A menos que pelo caminho apareça um desafio qualquer, acho que a próxima obra vai ser ficção. Já há muito tempo que ando a pensar nisto, todos os livros que escrevi até agora foram de não ficção. Provavelmente será uma ficção com alguma coisa que tenha a ver com uma investigação policial, com alguns pedaços de história que fui apanhando daqui e dali na minha vida profissional e construir o meu imaginário nesse campo.

Tratar de crianças e jogar poker ao mesmo tempo não é compatível

No seu blogue diz ser um "baterista reformado" e um "ex-futuro jogador de poker". Porque é que se reformou tão cedo da música e o que não o deixou ser jogador de poker?

Falta de talento [risos]. Tive bandas de garagem com alguns amigos meus, mas o tipo de música que fazíamos era uma música pesada, miúdos da Margem Sul que gostavam de abanar o capacete. E ainda hoje, muita da música que ouço ainda tem a ver com essas raízes, do rock mais duro, do metal... Para mim, que levei aquilo como uma coisa de que gostava muito, andava na faculdade e pensava que queria ser jornalista, mas gostava de tocar. Na verdade nunca investi na música o tempo e a dedicação que deveria ter investido se quisesse eventualmente ter sido músico profissional. O meio não é fácil, mas na altura mais complicado era... se não nos dedicarmos não temos músico, que foi o que aconteceu comigo.

Em relação ao poker, gosto muito de jogar. Acabei por deixar um bocado de lado na altura em que nasceu o meu filho e porque tornou-se mais difícil. Tratar de crianças e jogar poker ao mesmo tempo não é compatível. Ainda houve uma altura em que tentei voltar a jogar, mas percebi que não só já não tinha a mesma disponibilidade mental, como também já tinha ficado um bocado para trás porque não estou minimamente atualizado.

Recentemente perdeu uma prima, vítima de cancro. Uma perda da qual falou publicamente. Nesse momento de dor não conseguiu abraçar os entes queridos por causa da pandemia. Como é que geriu todas essas emoções?

É semelhante à maneira como se tem de gerir todos os momentos que são muito difíceis na nossa vida. Este foi diferente porque perdi uma pessoa da minha família, uma pessoa de que gostava. Tenho mais proximidade com o irmão da Sónia [prima que faleceu] do que com a Sónia. Obviamente, ela era uma pessoa de quem gostava muito e depois não é só ela, são as minhas tias, os outros primos... É tudo, não é só a pessoa que perdemos, são também os outros que cá ficam completamente destroçados.

Depois, além disso, no dia em que ela morreu, estive quase para não ir ter com eles por um motivo muito simples: estamos a atravessar uma pandemia, as minhas tias, algumas delas, têm problemas de saúde. Uma das minhas tias, dois dias depois da morte da minha prima, foi operada ao coração. Mas estava a custar-me imenso estar aqui em casa e não poder dar-lhes um abraço ou dizer que estava com eles. Acabei por ir ter com eles de máscara e de luvas, foi a primeira vez que o fiz. Mal entrei lá em casa, em condições normais, a primeira coisa que fazia seria abraçar-me a eles e dizer que gostava muito deles e que estava com eles... mas não, a primeira coisa que disse foi que estava com eles, mas que não os ia conseguir abraçar. Estava cada um para o seu canto... e isso só acrescenta mais peso.

Gostaria de ter um programa semanal em que tratasse deste tipo de assuntos, mas sem deixar de fazer o que estou a fazer. Conciliar seria o melhor de dois mundos

Quem é a sua maior inspiração e qual o patamar que gostava de atingir?

Na minha vida pessoal, quem me dá motivação para me levantar todos os dias e querer chegar a casa ao fim do dia o mais bem disposto possível, a minha maior inspiração é a minha família. Sou casado, tenho dois filhos, e aquilo que mais me move todos os dias para sair de casa e voltar a entrar é a minha família. Agora, se for do ponto de vista individual, para o trabalho não preciso de muitos mais motivos do que ter todos os dias de fazer o melhor possível porque gosto de trabalhar, porque retiro prazer do meu trabalho, porque tenho orgulho no meu trabalho e porque quero fazer cada vez melhor, quero crescer.

Nesta área dos assuntos mais virados para a atualidade criminal e para questões sociais - porque muitas vezes misturam-se - gostaria de ter um programa semanal em que tratasse deste tipo de assuntos, mas sem deixar de fazer o que estou a fazer. Conciliar seria o melhor de dois mundos.

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