As portas dos teatros estão fechadas, os projetos, tantos deles, estão sem rumo. Em casa de muitos artistas, vivem-se dias de profundo desânimo e angústia. Numa altura em que a classe artística se desfaz em apelos para combater o impacto da pandemia na Cultura, conversámos com a atriz Gabriela Barros sobre a atual conjuntura.

Além da luta para o setor conquistar 1% do Orçamento do Estado, para muitos artistas o grande desafio imposto pela pandemia é superar este período sem ter de abandonar a profissão.

Em Portugal, diz a atriz, poder escolher os projetos "é um luxo". Consciente da crise que o setor em que trabalha atravessa, a paixão pelos palcos e o frenesim causado pelas câmaras permanecem, contudo, inabaláveis.

Como tem sido vivido este segundo confinamento? O que tem sido mais duro?

A falta de contacto humano com os amigos e a família, a falta de festas, de liberdade, causa ansiedade a todos. Essa é a maior dificuldade.

A classe artística tem-se manifestado intensamente. O que é que ainda não foi dito?

Dificilmente vou conseguir dizer alguma coisa que ainda não foi dita. Somos um povo muito brando e tem sido aos poucos que as pessoas se têm manifestado. Agora cada vez mais, porque a situação está a chegar a um extremo. Estarmos a reclamar por 1% é absurdo, chega a um limite em que não podemos ficar mais calados.

Apesar das dificuldades, prevalece uma grande união entre artistas. Tem conversado com colegas sobre a atual situação?

Usamos o Facetime como nunca. Fazemos encontros à noite, jantaradas. Há colegas meus em situações muito diferentes: uns a trabalhar, outros que não têm trabalho desde março, há pessoas que neste momento não têm o que comer nem o que dar de comer aos filhos. No mundo inteiro, as vidas estão paradas.

Teve contacto com alguma situação que a tenha sensibilizado particularmente?

Sim, tenho gente que está com dificuldades reais, de ter mesmo de pedir dinheiro. O máximo que posso fazer é ajudar nesse sentido, e tenho tentado aliar-me e saber de causas.

Este é também um tempo de grande generosidade.

Este momento serve sobretudo para haver uma grande união entre as pessoas, pelo menos que seja isso que retiremos.

Essa união foi também evidente recentemente, com o movimento #vermelhoembelém, que contou com o apoio de personalidades do espetáculo. O que achou do desfecho das eleições presidenciais?

Ficámos a unha negra do pior movimento em Portugal acontecer, de ver uma extrema direita a dar os primeiros passos de uma forma tão forte e tão presente. Acho que estamos numa fase de viragem e se não estivermos muito atentos pode-nos acontecer o nosso pior pesadelo. A classe artística fez um forte apelo a isso nas redes sociais, para alertar. Há gente que ouve os artistas que gosta. Eu não faço muito esse tipo de movimentos nas redes sociais, mas é uma opção minha. Mas acho que foi importante agora para vermos que estamos numa fase de viragem, a polarizar para todos os lados.

Neste momento de desespero tão grande, as pessoas estão à procura de respostas rápidas para problemas que são endémicos, que estão numa camada muito mais profunda do que estas soluções pop-up que estes governos de extrema direita estão a querer dar. São soluções fast food que obviamente aliciam muito a quem as ouve, por isso é que houve esta resposta bizarra de terem tantos votos. Neste momento de pandemia, no meio de um caos deste, bem ou mal, foi um bom resultado o Marcelo ter continuado.

Apesar da conjuntura, mantém-se ativa, nomeadamente no programa ‘Cá Por Casa’, da RTP. Como é a preparação para as imitações?

É muito de instinto. O Herman liga-me de volta e meia e pergunta-me se consigo fazer este ou aquele sotaque, e eu atiro-me de cabeça e digo que consigo - depois não sei se consigo, mas lá tento. Quando são imitações, é tentar ver o máximo de vídeos para chegar ao tom de voz como à fisicalidade. A Melania Trump foi uma personagem difícil porque como ela tem pouca expressão, de repente estar a fazer um sketch inteiro e mandar ‘punchlines’ com a cara parada é difícil.

Como é trabalhar diretamente com o Herman José?

É uma honra, antes de tudo. Mesmo morando em Bruxelas, até aos 19 anos, havia poucas pessoas que conhecia da esfera pública artística e o Herman era um deles. É um mestre, um génio do humor. Veio mudar o humor quando começou e continua atual dentro das novas gerações, continua a tocar os lugares que incomodam - o humor é muito isso, uma crítica à sociedade. Depois a forma como ele trabalha é fascinante.

Ele dá-lhe dicas?

Ele é incrível. Consegue estar atento a mil coisas ao mesmo tempo e isso é fascinante. Consegue estar atento ao posicionamento das câmaras, a fazer de Nelo e para para me dar uma dica ou outra que faz toda a diferença. E ainda improvisa pelo meio.

Já participou em peças de grande êxito, como a ‘Chicago’, ‘Avenida Q’ e mais recentemente ‘Ricardo III’. O Teatro será sempre privilegiado em relação à ficção?

Não, de todo. Tem acontecido estar meio lá meio cá. Nos últimos anos, tenho feito televisão, não as novelas, mas filmes e séries. Portanto, não tenho sentido esse afastamento da televisão. Não tenho é feito novelas e acho que as novelas em Portugal têm um peso tão forte que às vezes o próprio público esquece-se que há outro tipo de conteúdos. Há muito essa cobrança: ‘Então e novelas? Então e televisão?’. Até tenho feito, não tem é sido a novela da noite. Não dou mais valor a um do que a outro. Gosto muito de fazer ficção, televisão e cinema, e gosto muito de fazer Teatro. Acho que tem a ver com a qualidade do produto e do projeto.

São sensações diferentes ou representar desperta uma única sensação, seja em Teatro ou em ficção?

São sensações muito diferentes, mas já tive desilusões em Teatro como já tive felicidades enormes, e vice-versa. A grande diferença é a gratificação imediata que nos dá o Teatro. Mas gosto muito de trabalhar com câmara, todo o ritual com equipas, câmaras, gravar. A grande dificuldade do Teatro é continuares a tornar aquilo fresco quando já o fazes há meses.

É cada vez mais seletiva com os projetos em que se envolve?

Tenho tentado, sim. É claro que em Portugal é difícil dizermos que somos seletivos, é para poucos, porque isto não é Hollywood e os pagamentos não são os de Hollywood. É um trabalho mesmo, para pagar contas. Às vezes gostaríamos de ser mais seletivos e infelizmente há momentos na vida em que não conseguimos ser. Eu posso dizer que tenho tido a sorte de estar sempre a trabalhar. Às vezes, diria mesmo que é um luxo poder escolher, aqui em Portugal. Às vezes consigo ter esse luxo, outras vezes não, depende da fase.

Coleciona algum projeto do qual se tenha arrependido de participar?

Tenho, artisticamente falando. Mas depois tento sempre arranjar uma razão válida para o ter feito. Nem que seja, às vezes, porque temos de pagar as contas.

Internacionalizar a carreira é um objetivo?

É. Falando francês e inglês fluentemente, gostava muito de poder trabalhar em línguas diferentes, com equipas internacionais, conhecer atores de fora.

Há essa sede de trabalhar em indústrias mais sofisticadas?

Tem mais a ver com a possibilidade económica que outros países têm e que permite projetos mais megalómanos. Não acho que nós não sejamos capazes. Há equipas que vêm de fora e ficam fascinadas com a nossa pro-eficiência, acho que somos incríveis com o que conseguimos fazer. Isto tem mais a ver com o gostar de desbravar mundo.

Por estes dias, sobra espaço para sonhar com projetos futuros?

Sobra! Tenho tentado manter um pensamento positivo. Neste segundo confinamento fui-me bastante abaixo na primeira semana. Não estava à espera que fosse tão de repente e tão abrupto. Tive de fazer um ‘reset’ e voltar ao mesmo pensamento do primeiro confinamento: um dia de cada vez e assim vou conseguindo sobreviver. Faz parte sonhar. Já tenho uma coisa ou outra apalavrada, também não estou num deserto sem perspetiva de nada. Isso faz-me poder sonhar um bocadinho.

Qual a primeira coisa que vai fazer quando recuperar a liberdade que agora se vê ameaçada pela pandemia?

Vou dançar muito com os meus amigos e fazer jantaradas. Estou desejosa por isso. E ir a concertos, uma roda de samba, tenho muita saudade.

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