A conversa de Daniel Oliveira com Diogo Valssasina começou com a temática das gravações da novela 'Terra Brava', que desde março têm sido feitas em condições especiais por causa da pandemia de Covid-19.

"Aconteceu tudo e mais alguma coisa e depois da quarentena... Para começar, voltou tudo cheio de saudades, o que é bom. Voltou tudo com uma energia e uma pica desgraçada para gravar. Depois toda a gente queria dar abraços, mas não podia. Estávamos todos sem saber o que é que havíamos de fazer e como é que nos havíamos de nos comportar", começou por descrever, admitindo, no entanto que "de todas as novelas" que fez até hoje "a 'Terra Brava', tendo em conta as coisas que aconteceram, foi a que correu de uma forma mais pacífica e mais tranquila".

O ator mostrou-se ainda preocupado com todas as pessoas que estão à sua volta, como a mãe e as avós, que espera que não fiquem infetados com o novo coronavírus. "Deixei de estar tantas vezes com a minha mãe também por causa disso. Claro que a via, mas ia para o pátio para falar com ela, que estava no primeiro andar. Tem de ser", referiu.

A preocupação com os entes queridos esteve sempre presente na vida de Diogo, mas intensificou-se recentemente, depois da morte do pai. "Às vezes, isso era deixado meio de lado porque havia quem tomasse conta deles e se preocupasse com eles, que era o meu pai. A partir do momento em que ele já não está cá, esse peso torna-se muito maior", desabafou, referindo que já não vive com a mãe há 15 anos.

De seguida, teceu rasgados elogios à mãe. "É uma mulher especial, das pessoas com mais força que conheço. Se já o sabia antes, depois de tudo isto, foi a prova provada que aquela mulher tem uma força... Preocupada, carinhosa, e foi sempre uma pessoa que me incentivou a seguir aquilo que eu queria fazer", destacou, realçando o apoio e mimo que recebeu da progenitora.

A fase em que esteve "esquecido"

O período em que esteve seis anos sem trabalhar em televisão também foi destacado durante a entrevista. Daniel Oliveira perguntou ao ator como é que geriu essa fase, e este respondeu: "Tentava ser uma pessoa muito positiva, o que era difícil. Depois chegou a uma altura em que pensei que não podia estar à espera. Os meus pais sabiam o que se estava a passar. Quando precisava de dinheiro pedia-lhes emprestado... Já vivia com a Ana Guiomar e nisso ela foi um apoio inacreditável. Não sei se existem muitas pessoas que conseguiriam aguentar o que ela aguentou", partilhou.

Na altura, depois de estar tanto tempo sem surgirem oportunidades no pequeno ecrã, Diogo chegou a ponderar ser assistente de bordo. Mas após não ser chamado, ficou a trabalhar em produção nos programas 'Ídolos' e 'Got Talent', através da produtora Fremantle.

Sobre o que possa ter levado a ter ficado tanto tempo sem trabalho, o ator disse: "Esqueceram-se. Estive três anos no 'Curto Circuito', e durante esses três anos nunca consegui fazer nada de ficção. Quando o 'Curto Circuito' acabou, eu pelos vistos acabei. Não é que me ache o melhor profissional de sempre e a pessoa mais incrível, principalmente naquela altura em que tinha 22 anos, era outra pessoa do que sou agora. Não era péssimo, acho eu. Quando tu sentes essa coisa de parece que se esqueceram, isso custa muito", confessou.

"Tentei sempre não ser amargo, mas depois chega a um ponto em que é quase impossível. Custava-me muito quando ligava a televisão e via outros a trabalhar, a fazer coisas que poderia ser eu a fazer, e perguntava 'porque é que não sou eu?'. E principalmente com outra pessoa em casa, que é atriz e que nunca parou, felizmente, e por mérito próprio. Claro que me custava porque a via a evoluir, e via os outros a crescer e eu estava naquelas areias movediças", lembrou, recordando ainda que se deitava à noite a pensar que "um dia iria ter uma nova oportunidade".

No entanto, não deixou de passar por uma fase em que questionou o seu trabalho, talento e até o corpo. "Será que tem haver com a forma como eu sou? Com o meu corpo, porque as pessoas acham que sou magro e como sou magro não posso fazer isto ou aquilo? Essas questões claro que ficam na tua cabeça. E o problema é quando elas entram e tu não consegues despachar logo", continuou.

O grande apoio da noiva, Ana Guiomar

Nesta fase, Ana Guiomar foi um apoio fundamental. Além de namorada, foi uma grande amiga. "Era a pessoa que melhor percebia porque trabalha no meio, sabe como é que as coisas funcionam. Sabia perfeitamente que eu não estava bem e que merecia mais. Isto pode parecer uma coisa muito ridícula, mas a verdade é que eu também achava que merecia um bocadinho mais. Não preciso de passadeiras vermelhas, não tenho aspirações de ser o protagonista de uma novela, acima de tudo, quero trabalhar em coisas que me deem prazer, que evolua com elas. E na altura nem evolui enquanto profissional, nem enquanto pessoa", lembrou.

"As palavras de amor, incentivo e de compreensão", é o que não se esquece no que diz respeito à noiva nessa fase mais crítica. "Ela percebia como é que me sentia intimamente como mais ninguém me percebia, nem os meus pais".

Desses dias, recorda "os momentos em que acordava - depois de ter dormido se for preciso 14 horas - sem força, sem energia, sem nada". "Levantava-me da cama, sentava-me do sofá e ficava perdido na minha cabeça, nas minhas inseguranças, nos meus problemas e chorava. Ficava só eu e o cão a olhar para mim", contou, lembrando os momentos de "profunda solidão".

A difícil morte do pai

Foi no ano passado, em julho, que Diogo Valsassina perdeu o pai de forma inesperada. "Sou um homem diferente do que era há um ano. Sinto uma tristeza às vezes gigante. Não sou um homem triste, mas se há um ano não me deixava afetar por tristezas e coisas más, hoje em dia deixo-as entrar de uma forma calma e controlada porque as coisas más fazem parte da vida, porque nós temos de aprender a lidar com elas e não vale a pena chutar para canto uma coisa que é má. Deixar as coisas más fazerem parte da minha vida sem me afetarem ao ponto de não conseguir fazer nada", disse.

"É a dor mais terrível que senti até hoje e eu perdi pessoas relativamente cedo. Perdi o meu melhor amigo aos 18 anos - e foi um choque terrível para mim e para toda a gente deste país - que era o Francisco Adam. Foi o meu primeiro contacto com a morte de uma forma próxima, depois perdi os meus avôs, mas isto... Ninguém te prepara para isto. É muito difícil", admitiu, falando da partida do pai.

"Houve uma parte de mim que morreu quando o meu pai morreu, garantidamente. O Diogo infantil, sempre bem disposto, que estava sempre tudo bem, acabou, desapareceu. Esse Diogo eventualmente teria de desaparecer, mas não precisava de ser desta forma. Faço um esforço para nunca me lembrar das coisas más. Cada vez que penso no meu pai, penso em memórias boas. Claro que ao estar a pensar no meu pai, tenho sentimentos que não são bons, mesmo estando a pensar em coisas boas. Isto é tudo uma contradição. Mas faço um esforço", acrescentou.

De seguida, o ator recordou uma das cenas que gravou depois da morte do pai e que o marcou. "Uma cena em que chego com a Sara [Matos] num carro descapotável - não me lembro qual era a marca, mas era um carro fixe - e eu quando saí das gravações, o meu primeiro impulso foi ligar ao meu pai para lhe falar do carro. E quando te apercebes que não podes fazer isso, é tramado", partilhou.

"O que ficou por dizer é o quanto gostava dele e o quanto ele foi e é para mim. Não dizemos isso às pessoas vezes suficientes em vida, e depois quando elas já não estão ficas com esse sentimento de culpa. Porque é que eu não disse mais vezes, porque é que não fui mais vezes a casa? Porque às vezes somos parvos e damos as coisas como garantidas. E a verdade é que não são", realçou.

A última vez que falou presencialmente com o pai foi uma semana antes da sua morte, quando foi a casa da família. "A última vez que falamos foi por mensagem e foi horas antes. A última coisa que disse, escrita, ao meu pai foi: 'feita a transferência'. Não te passa pela cabeça o que vai acontecer, porque se não, nunca teria sido feita a transferência. Teria sido tudo isso que acabei de dizer: és importante, eu amo-te", desabafou.

Diogo recorda que o pai morreu em casa e que nesse momento estava a gravar um programa. "Por acaso levei o telemóvel. Começa a vibrar, vejo que é a minha mãe e não atendi. Entretanto houve uma pausa no programa e vi uma mensagem da minha mãe a dizer que o meu pai não se estava a sentir bem. Liguei logo à minha mãe, ela não atendeu, atendeu o meu irmão fora de si", lembrou.

O ator saiu rapidamente do estúdio e quando chegou a casa dos pais já lá estava o INEM. "Estava a minha mãe e o meu irmão com uma vizinha, e o meu pai estava a receber assistência. A última vez que vi o meu pai fisicamente foi aí, quando ele estava no chão com o INEM a tentar reanimá-lo. Quando a médica sai e diz que tentaram fazer tudo mas não conseguiram...", recorda.

"Às vezes penso que quando cheguei o meu pai já estava no chão e eles estavam a tentar reanimá-lo, mas a minha mãe e o meu irmão viram tudo. Como é que tu vês um pai, um marido, um amigo de uma vida inteira assim e tu sem conseguires fazer nada. Deve ser uma dor terrível", continuou.

"Estava com uma raiva terrível dentro de mim", acrescentou, partilhando que a mãe foi viver consigo nas semanas seguintes à morte do pai. "A Guiomar foi mais uma vez inacreditável", frisou, lembrando o sofrimento que viveu nas primeiras semanas.

O número do pai continua gravado no seu telemóvel e, garante, não vai apagá-lo.

Sucesso dos 'Morangos com Açúcar' e a morte de Francisco Adam

Diogo Valsassina recorda que não estava preparado para o sucesso da série da TVI, onde dava vida a Tojó. Além das muitas recordações que guarda desta fase, recorda que eram chamados para muitas festas.

A morte de Francisco Adam - que na série interpretava Dino -, em 2006, após um acidente de carro, foi também um momento marcante que Diogo partilhou durante a entrevista.

No dia em que o colega morreu, lembra, falou com ele. Na altura, Francisco tinha convidado Diogo para o acompanhar ao local onde iria marcar presença, num estabelecimento noturno, mas o ator recusou. Ainda assim, marcaram encontrarem-se em casa de Valsassina mais tarde. Diogo esteve em casa com alguns amigos, mas Francisco acabou por não chegar. No dia seguinte, o ator acordou com várias mensagens de colegas a perguntar se estava com Adam porque estavam a circular notícias da sua morte.

"Depois ligou a produtora da TVI a confirmar", contou, referindo que foi nesse momento que decidiu abrandar e deixar de ir a festas ou marcar presença em discotecas.

"O choque foi para toda a gente. Um puto de 22 anos que estava a explodir. Aquele gajo se fosse vivo hoje em dia, ninguém o segurava. Tenho a certeza disso", afirmou.

"O funeral foi terrível ao ponto de estarmos do outro lado do muro do cemitério, já lá dentro, a escolher quem é que podia entrar. Com a morte do Chico, morreu a vontade de continuar a fazer aquilo. Já estava a fazer os 'Morangos' há um ano e meio e, de repente, todas as cenas que eram dele passaram para mim. Estava a gravar que nem um doido, cenas dele com a Diana Chaves, aquilo já não fazia sentido. Tenho memórias inacreditáveis que vou guardar para sempre", disse ainda.

Leia Também: Diogo Valsassina diverte seguidores com 'tesourinho' da sua adolescência

Um bocadinho de gossip por dia, nem sabe o bem que lhe fazia.

Subscreva a newsletter do SAPO Lifestyle.

Os temas mais inspiradores e atuais!

Ative as notificações do SAPO Lifestyle.

Não perca as últimas tendências!

Siga o SAPO nas redes sociais. Use a #SAPOlifestyle nas suas publicações.