Sob o mote 'O que fazes durante a quarentena?', Eduardo Madeira aceitou o desafio da Disney+ para ser uma das figuras públicas a dar a cara pela mais recente novidade da plataforma de streaming. Foi lançado na passada terça-feira o separador Star, onde estão reunidos conteúdos diversos, desde séries a filmes, pensados para os mais velhos.

Em conversa com o Notícias Ao Minuto, o comediante contou-nos qual a série que o 'agarrou' à plataforma, mas não ficou por aqui. Este foi apenas o ponto de partida para uma conversa intimista, na qual o humor ficou de lado e as emoções falaram mais alto.

Como está a viver este período atípico, a gravidez de Joana Machado Madeira, o seu olhar sobre o panorama político e, revelado em primeira mão, o gesto solidário que se compromete em realizar caso o Sporting seja campeão foram alguns dos temas que marcaram a conversa.

Como é um dia de quarentena normal na vida de Eduardo Madeira?

Acordamos e tomamos o pequeno-almoço, a minha filha vai para as aulas por volta das 9 horas. Depois aproveito para trabalhar, leio, tomo notas, leio a imprensa. Como não tenho hipótese de fazer os desportos que mais gosto porque são no mar, de dois em dois dias faço uma corridinha. Depois almoço e vejo algumas coisas na televisão. Tem sido um período muito atípico na minha vida, sou uma pessoa extremamente ativa, passava a vida fora de casa - espetáculos à noite e gravações durante o dia. Tinha uma digressão marcada que está adiada, nem sei bem para quando.

Vou começar alguns projetos na televisão. Curiosamente, terminei as gravações da ‘Patrulha da Noite’, da RTP, em fevereiro. Agora, com os projetos que vão começar em março, terei de ir mais à rua, mas vou à rua muito pouco.

Tenho sofrido imenso com isto. Porquê? Porque amo a liberdade e a vida ao ar livre, tudo o que é fora de portas. Mas teve de ser, isto não é uma escolha: ‘Ah, agora não vou ligar a isto da pandemia’. Não dá para fazer isso, temos de ser responsáveis

E como se sente com o confinamento? É apologista deste ‘apertar do cerco’?

Acho que é importante que se consiga pôr um travão à evolução da pandemia. Não sou, por natureza, um hipocondríaco, pelo contrário, sou muito facilitador, mas aqui, por motivos que são óbvios, tive de tomar cuidados. Tenho sofrido imenso com isto. Porquê? Porque amo a liberdade e a vida ao ar livre, tudo o que é fora de portas. Mas teve de ser, isto não é uma escolha: ‘Ah, agora não vou ligar a isto da pandemia’. Não dá para fazer isso, temos de ser responsáveis. Tive de ceder à responsabilidade. Tenho sofrido imenso porque não há pior coisa para mim do que estar fechado em casa. Creio que terá um impacto, que só será estudado daqui a uns anos, na saúde mental. Há muita gente que não vai aguentar isto. Confesso que, não sendo nada dado a depressões e ansiedade, isto tem-me afetado um bocado.

Vamos acreditar que estamos a caminhar para o fim.

Creio que sim, sou muito otimista. Já percebemos que por motivos naturais, a coisa abranda imenso no verão e, juntamente com isso, estamos a ser vacinados. Acredito que no verão estaremos numa situação totalmente diferente da que estamos agora. E que no final do verão, segundo as previsões do Governo e dos especialistas, estaremos muito próximos da imunidade de grupo e do fim do pesadelo. Fala-se de umas novas variantes, mas pelo que me parece, pelo que tenho lido, é normal que todos os vírus tenham várias variantes.

Estando agora associado a uma plataforma de streaming, não posso deixar de perguntar quais as séries/filmes preferidos no Disney+.

‘The Mandalorian’ foi… Confesso que quando vi o final da segunda temporada ia desmaiando, está brutal. Mas como é óbvio, tendo uma filha com sete anos, vejo tudo. Vejo muitos filmes e curtas com a Leonor. A criatividade de certas curtas é incrível. Gosto de National Geographic, está lá. Gosto do universo da Marvel, também está lá. E agora com o ‘Star’, acho que vai ser o canal mais visto. 90% da nossa atenção vai estar no Disney+.

Atualmente, que programas o têm prendido à televisão?

Sou o claro exemplo de ‘em casa de ferreiro, espeto de pau’. Não vejo muita televisão, vejo mais séries e filmes, coisas específicas que vou à procura. Tenho várias coisas em aberto, é como com os livros. Normalmente tenho quatro livros em cima da mesa de cabeceira e há um que já estou a ler há três anos.

No primeiro confinamento, houve uma espécie de ansiedade e vontade de celebrar a vida que me levou a grandes momentos gastronómicos e o peso aumentou um pouco. No segundo confinamento mudei o ‘chip’

Quais são os livros que estão agora na sua mesa de cabeceira?

Tenho o último livro da Elena Ferrante. Tenho o do Seinfield com as notas dele de stand-up comedy dos 30 anos de carreira. Estou a acabar de ler os ‘Cem Anos de Solidão’, que li para aí com 19 anos. Temos aquela ideia que quando lemos um livro, está lido. Mas tirando aquela frase inicial, tudo aquilo foi novo para mim. E ainda tenho um livro de contos do Eça de Queirós, sou um grande fã do Eça de Queirós. Sou completamente fã de Elena Ferrante, tenho imensa curiosidade em conhecer a pessoa. Não sou nada obcecado em conhecer as pessoas porque às vezes são uma desilusão, mas aquela doçura torna-me um grande fã dela.

O que é que aprendeu no primeiro confinamento e que não está a repetir neste?

Boa pergunta. Gosto muito de estar à mesa e de comer bem. No primeiro confinamento, houve uma espécie de ansiedade e vontade de celebrar a vida que me levou a grandes momentos gastronómicos e o peso aumentou um pouco. No segundo confinamento mudei o ‘chip’. Faço umas corridas e tenho uma alimentação mais saudável, tenho sido mais cuidadoso nesse aspeto.

Que dotes desconhecidos tem aproveitado para explorar?

Consigo continuar a trabalhar. Cometi a loucura de lançar um livro em 2020, o ‘O Infame Dicionário Cómico de Língua Portuguesa’, quando fecharam as lojas todas. Tenho aproveitado para escrever algumas coisas, como stand-up comedy. O disco que ando a adiar há não sei quantos anos, está quase pronto. Estou a trabalhar com o Tó Carvalho, produtor e músico. Isso vai ser uma grande novidade, que em princípio vai-se chamar 'Coletânea de Sucessos’ - um nome perfeitamente irónico.

As pessoas pensam que se ganha muito dinheiro na televisão, mas posso dizer que a minha principal fonte de rendimento são os espetáculos

Também está quase a ser pai pela terceira vez. Como descreve esta gravidez da Joana [Madeira, a companheira]?

Mais calma que isto é impossível. Ela não sai de casa, ainda tem mais cuidado do que eu. Tem sido uma coisa muito caseira, muito calma. Às vezes a Joana diz que se não fossem os pontapés nem se lembrava que estava grávida. Nem se tem sentido enjoada, uma maravilha. Não dá é para fazer aquele acompanhamento. Só consegui assistir a uma ecografia.

Acompanhar ainda mais de perto esta fase têm-no deixado ansioso ou maravilhado?

Não sofro muito de ansiedade. Preocupa-me um pouco não poder trabalhar tanto, no sentido de fazer espetáculos, que é uma coisa que gosto muito e é a minha principal fonte de rendimento. As pessoas pensam que se ganha muito dinheiro na televisão, mas posso dizer que a minha principal fonte de rendimento são os espetáculos. Tirando o facto de não poder trabalhar, a minha ansiedade é mínima. Tem sido muito bonita [a fase da gravidez], temo-nos divertido imenso.

A Leonor está entusiasmada com a chegada da irmã?

A Leonor está numa fase imparável. Já fizemos algumas compras, temos algumas coisas para a bebé, inclusive a banheira. Como tem bonecas, gosta de dar banho às bonecas na banheira da bebé.

O que faço nas redes sociais é pura e simplesmente com a intenção de entreter e divertir as pessoas, porque não sei viver sem isso

No papel de pai, este período é também um desafio, sobretudo com uma criança e um adolescente com idades tão distintas. O confinamento aproximou-o dos seus filhos?

Não. Não posso dizer isso porque o meu filho mais velho [tem 19 anos] está em casa da mãe. Não temos tido hipóteses de estar juntos. A última vez que estivemos fisicamente um com o outro foi no Natal e mesmo assim já foi correr riscos. Não tem sido fácil nesse sentido. É como com os meus pais, temos evitado ao máximo. Às vezes penso que a vida está a passar e já perdi um ano e tal de convívio, mas há coisas piores. Temos de relativizar sempre, rir e brincar.

Tem-se mantido ativo nas redes sociais. Sente que, mais do nunca, o seu humor tem sido um bom companheiro de quem o segue?

Acho que sim. O que faço nas redes sociais, tirando alguns compromissos de publicidade, é pura e simplesmente com a intenção de entreter e divertir as pessoas, porque eu não sei viver sem isso. Quero dar o meu contributo. Queria ajudar, ofereci-me para conduzir ambulâncias, voluntariado, dar sangue, não gosto de estar parado. Mas o que a maioria das pessoas me disse foi: ‘Olha, o que fazes de melhor é fazer rir e o que fazes nas redes sociais é já um grande contributo’.

Somos artistas, precisamos de mexer com alguém. Ninguém trabalha para o seu próprio umbigo

Isso é um grande elogio.

É, e eu pensei que essa talvez seja a minha função no meio disto tudo. Às vezes, tomo quase como uma obrigação minha fornecer conteúdos, ter ideias, pôr coisas giras. Somos artistas, precisamos de mexer com alguém. Ninguém trabalha para o seu próprio umbigo.

Tem acompanhado o campeonato de futebol?

Tenho, sou do Sporting. Estou a viver muito isto e estou a evitar ao máximo entrar em euforia. Já avisei a Joana que se formos campeões eu andarei três dias em festejos.

Vou contar isto pela primeira vez: Vou comprar do meu bolso 150 equipamentos oficiais do Sporting para crianças e se o Sporting for campeão vou distribuir por crianças necessitadas. Mas vou reservar 50 e vou levá-los ao país onde nasci, a Guiné-Bissau

Há alguma loucura que se comprometa a fazer se o Sporting for campeão?

Já cometi duas loucuras com apostas: uma foi com a Seleção Nacional, que acabei no Marquês de Pombal sem roupa; a outra foi atravessar o Tejo a nado se ganhássemos a Eurovisão. Há muita gente a pedir-me que faça uma aposta com o Sporting. Eu não vou fazer uma aposta, mas sim uma promessa. Vou contar isto pela primeira vez: Vou comprar do meu bolso 150 equipamentos oficiais do Sporting para crianças e se o Sporting for campeão vou distribuir por crianças necessitadas. Mas vou reservar 50 e vou levá-los ao país onde nasci, a Guiné-Bissau, onde as pessoas vivem o futebol como se vivessem cá. Essa dimensão dos clubes portugueses que têm fãs em países com relações históricas com Portugal é muito comovente. É o que posso fazer, se fosse milionário não seriam só 150 equipamentos.

É um gesto muito especial.

Vi uma fotografia de meninos da Guiné com equipamentos do Sporting e aquilo mexeu comigo.

Espero que o meu trabalho fale sempre mais alto do que as minhas opiniões. No dia em que as minhas opiniões forem mais importantes que o meu trabalho é porque alguma coisa está mal comigo

Da política ao futebol, não se inibe de falar e satirizar os mais diversos temas. Lida bem com as críticas?

Somos sempre criticados. Se vamos paralisar por ter haters, não vamos andar para a frente. O Cristiano Ronaldo tem milhões de pessoas que o acham um ídolo, mas também quem o odeia. Ele não vai deixar de ser o melhor e de ter aquela força indomável para marcar golos. As redes sociais expõem as críticas violentas, mas eu, por princípio, sigo em frente. Faz parte do jogo, é importante que os que gostam sejam mais e isso, no meu caso, felizmente tem acontecido.

Em termos de política, nos últimos tem havido um extremar de posições. Quando surge um partido de extrema direita, é normal que à esquerda também se extremem posições. E às vezes ouvimos as coisas de um lado e do outro, e pensamos onde é que isto vai parar. O ideal é manter a cabeça no lugar. Os extremismos, seja na política seja na religião, nunca conduziram a nada de bom. A discussão em democracia é sempre importante, mas não acredito que o caminho passe por aí e preocupa-me. É aquele chavão: a democracia é o pior dos sistemas à exceção de todos os outros. Não tem sido bom o caminho, tem havido muita coisa má, como a corrupção, mas qualquer coisa é pior do que democracia. Ninguém tem a habilidade de pensar que vai resolver de outra maneira. Temos de exigir mais decência aos políticos, mas é dentro da democracia.

Eu imitava o Trump, mas se havia pessoa que me irritava na política era ele com aquela arrogância. Fiz uma festa [quando perdeu as eleições] e escrevi que finalmente ia deixar de fazer aquele boneco. Apareceram-me pessoas pró-Trump irritadíssimas comigo. As pessoas cegam. Acha que vou deixar de ter as minhas opiniões por causa disso? Não vou. Espero que o meu trabalho fale sempre mais alto do que as minhas opiniões. No dia em que as minhas opiniões forem mais importantes que o meu trabalho é porque alguma coisa está mal comigo.

Onde o vamos poder encontrar quando tudo isto terminar?

A primeira coisa que vou fazer é ir para o mar. A outra é fazer espetáculos, está a causar-me uma ressaca imensa. Vou estar onde sempre estive, com amigos. Sou muito de convívios, gosto muito da amizade e tenho muitos amigos. Vou estar no palco a pôr um sorriso na cara das pessoas. Isso é a minha vida.

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