Importante e imponente museu vivo, mandado construir pelo morgado José Jácome Correia, o jardim e o palácio de Sant’Ana situam-se na cidade de Ponta Delgada, acolhendo atualmente a sede da Presidência do Governo da Região Autónoma dos Açores. O conjunto constitui um dos exemplos mais paradigmáticos da arte paisagista do século XIX, quer no espaço nacional quer internacional, devendo ser considerado, no âmbito da Carta de Florença do ICOMOS-IFLA, International Committee for Historic Gardens, um jardim histórico de elevado valor patrimonial.

A evolução e a alteração de funções do jardim, a inevitável deterioração causada pelo passar do tempo, associadas à consciência de que se trata de um elemento patrimonial único que merece estar disponível para o público, estiveram na base da decisão por parte do Presidência do Governo dos Açores, através da área de coordenação dos palácios do órgão, em avançar com um projeto de recuperação, o qual foi desenvolvido pelo atelier Topiaris.

O palácio e o respetivo jardim, que estão apenas abertos nos meses de verão, têm sido utilizados para atividades e eventos inerentes à presidência da região, recebendo, simultaneamente, a visita de residentes e turistas. Entre as atrações que justificam a visita, destacam-se a existência de paisagens belas, exemplares botânicos notáveis pela raridade e porte e, ainda, uma vastíssima coleção de cameleiras.

Como tudo começou

O jardim e o palácio de Sant’Ana foram construídos a partir de 1845 por iniciativa de José Jácome Correia (1816-1886), o primeiro marquês de Jácome Correia, segundo as correntes da arte paisagista internacional de meados do século XIX. Os jardins apresentam características de inovação, erudição e riqueza, ocupando 3,2 hectares. O programa para o jardim, a quinta e o palácio era ambicioso e inovador, tendo sido concretizado quase na sua totalidade.

É difícil encontrar no contexto nacional e internacional um programa paisagístico completo e tão característico do século XIX, uma vez que o Jardim de Sant’Ana evidencia no seu conjunto influências da escola inglesa e romântica, assim como os novos elementos característicos do séc. XIX, nomeadamente em termos de diversidade de cor, de formalismo simétrico e de linhas retas, em diálogo com a sinuosidade da vegetação, e colecionismo botânico. É composto por quatro zonas distintas:

- O jardim frontal e os jardins laterais estabelecem o enquadramento do palácio, permitindo a existência de contextos paisagísticos dominados pela estética do séc. XIX.

- A horta ordenada e isolada do palácio como ditavam os cânones da época.

- O jardim intimista, afastado do palácio e destinado ao recreio da família e convidados.

- A quinta de quartéis, limitados por sebes constituídas por um número elevado de variedades de cameleiras que protegiam as áreas de cultivo.

A fragilidade deste jardim é alta, pois o seu desenho é determinado por coleções de plantas de difícil conservação e por extensas áreas de herbáceas anuais. Não obstante, o jardim manteve, apesar da inevitável deterioração, as suas características. Para este facto contribuiu a conservação da propriedade de forma contínua na posse da família Jácome Correia, assim como a manutenção cuidadosa após a aquisição pela Região Autónoma dos Açores.


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O projeto e a obra de recuperação

O projeto de recuperação teve por objetivo devolver ao jardim a identidade e qualidade paisagística que tinham vindo a diminuir devido ao aumento da carga de utilização e à passagem do tempo que foi deteriorando a vegetação e as estruturas construídas. O desenvolvimento do projeto seguiu as convenções nacionais e legislação vigente, garantindo o registo, diagnóstico de patologias e a salvaguarda da sua integridade e significância cultural.

Destacam-se as intervenções ao nível da recuperação da coleção botânica, das infraestruturas de drenagem originais, dos elementos decorativos de água e da implementação de um sistema automatizado de rega, o qual permite uma gestão equilibrada e sustentável do recurso água. Um novo sistema de iluminação permite aumentar o período de utilização e a fruição de extraordinárias paisagens noturnas.

O acompanhamento da obra por parte da equipa projetista e do cliente, sob uma atitude empenhada da equipa de fiscalização, e com a resposta entusiástica e competente das empresas que executaram, permitiram que os trabalhos fossem decorrendo de modo ponderado, evitando passos que pudessem comprometer a integridade do valioso património que se tinha em mão, conduzindo com sucesso à conclusão dos trabalhos de restauro e reconstrução em 2008.

Testemunho de um outro tempo

Atualmente, os jardins são mantidos por uma equipa de jardineiros, e respetiva coordenação, trabalho levado a cabo pelos Serviços de Conservação e Manutenção de Jardins, sob a gestão adequada e criativa da entidade responsável, a área de coordenação dos palácios da presidência. O conjunto do Jardim de Sant’Ana encontra-se aberto e é visitado pelo público local e por turistas de diversas partes do mundo.

Na verdade, o conjunto dos jardins de São Miguel constitui um valioso património merecedor de estratégias de salvaguarda que promovam a sua fruição pelo público, turismo e gerações vindouras, constituindo a recuperação do Jardim de Sant’Ana um exemplo notável. «É um testemunho do seu tempo, elemento importante na história da arte dos jardins, que deve ser defendido para benefício das próximas gerações», pode ler-se mesmo no site do Governo dos Açores.

Texto: Luís Paulo Ribeiro (arquiteto paisagista)