Numa encosta do Funchal, a Quinta do Bom Sucesso é a guardiã de numerosas coleções vegetais sem paralelo. O Jardim Botânico da Madeira é um autêntico museu ao ar livre onde se desenvolvem projectos de investigação e recuperação de espécies em vias de extinção. «Viagem à floresta laurisilva em 90 minutos». Podia ser este o título do guia que se recebe à entrada do Jardim Botânico da Madeira.

É um dos espaços verdes mais visitados do país e alberga mais de 100 espécies autóctones e exclusivas do arquipélago e da floresta laurisilva, muitas delas raras nos bosques da ilha. Embora apelativo, o título pode pecar por defeito. Na realidade, mais de duas mil plantas exóticas oriundas dos quatro cantos do Mundo dão vida a este pulmão verde que oferece paisagens inesquecíveis.

A panorâmica sobre o terraço principal é disso um bom exemplo. Um tabuleiro rectangular decorado com formas geométricas multicolores, desenhadas com a mestria da arte topiária, com a cidade do Funchal e o Oceano Atlântico como pando de fundo, é a imagem de marca do jardim. O Jardim Botânico está instalado num monte com 300 metros de altura. É constituído por seis áreas principais.

As muitas espécies botânicas que se podem ver

Além da de arboreto, há a das espécies indígenas, a das suculentas, a da agricultura, a das aromáticas e medicinais e a das palmeiras. Ginkgos, magnólias, cedros, araucárias, dombeias, choupos, jacarandás, tipuanas, ficus e muitas outras espécies crescem na zona de arboreto e revelam-se em formas harmoniosas e cores contrastantes. A área dedicada às plantas indígenas é da autoria de Rui Vieira, o primeiro diretor do jardim.

Está representada por cerca de 100 espécies da flora macaronésica da Madeira, Açores, Canárias e Cabo Verde. Os buxos-da-rocha (Chamaeleles coriácea e Maytenus umbellata), o zimbro (Junoperus phoenicia) e a cenoura-da-rocha (Monizia edulis) são os protagonistas deste espaço pelo estatuto de raridade que conservam. Também o dragoeiro (Dracaena draco) ganha destaque nesta zona, já que é uma planta pouco comum no habitat natural.

Assim como, o til (Ocotea foetens) e o vinhático (Persea indica), as árvores dominantes na laurisilva. Quando se atravessa a área das suculentas, por sua vez, é possível apreciar as colecções de catos, alões, agaves, eufóbias, iucas, ensaiões, crassulas, entre outras plantas oriundas das regiões áridas dos continentes africano, asiático e americano. Citrinos e abacateiros dão cor à zona dedicada às plantas agro-industriais.

O imponente porte das árvores sub-tropicais

Essas variedades botânicas não são, contudo, as únicas. Também há mangueiros, anoneiras, pitangueiras, papaieiras, bananeiras, bacacos, pachiras, macadamias e dezenas de outras árvores sub-tropicais, que dão cor a este enorme e diversificado pomar dedicado às culturas mais emblemáticas da ilha. A flora medicinal da Madeira é extremamente rica. Ao todo são 259 espécies com milhares de utilizações terapêuticas.

Grande parte pode ser apreciada na área do jardim consagrada às aromáticas e medicinais. Entre as plantas mais comuns na flora endémica da região destacam-se Acanthus mollis, Aeonium glandulosum, Bidens pilosa, Borago officinalis e Laurus azorica. Por último, na zona das palmeiras, salta à vista mais desatenta a Raphia farinifera. Entre as palmeiras, é a que apresenta a maior folha conhecida e pode alcançar 18 metros de altura.

Veja na página seguinte: O que tem vindo a ser feito para rentabilizar este espaço

A aposta na investigação científica

Paredes-meias com o Jardim Botânico da Madeira, o Loiro Parque é mais uma atração do jardim e acolhe cerca de três centenas de aves exóticas e raras, na sua maioria tropicais, como catatuas e loricos das ilhas tropicais asiáticas, piriquitos australianos e papagaios anões. Este parque verde conheceu a luz do dia em dia em 1960, quando o Governo Regional da Madeira adquiriu a Quinta do Bom Sucesso.

Ainda hoje é tutelado pelo executivo. Em 2017, Luísa Gouveia é a diretora, sucedendo a nomes como Roberto Jardim, à frente do espaço durante grande parte da década de 2000. O biólogo é autor de vários livros sobre a flora endémica do arquipélago. Talvez por isso, tenha apostado em projetos de investigação e conservação, que acompanhou, falando deles com rasgados sorrisos e uma ponta de orgulho.

O banco de sementes da Macaronésica representa uma das suas conquistas, alcançada em parceria com a Associação IberoMacaronésica de Jardins Botânicos. Mais de 95% das espécies endémicas da ilha estão armazenadas no banco de sementes. O objetivo é nobre. Utilizá-las em prol de projectos de reflorestação e programas de recuperação de espécies raras ou em vias de extinção.

A riqueza e raridade das coleções que o jardim alberga

Aumentar a área da pequena estufa onde se desenvolvem as plantas que se adaptam menos bem nos terrenos ao ar livre foi outra das ambições do diretor do jardim. A meta seguinte, como revelou em entrevista à Jardins em meados da década de 2000, era franquear as portas da estufa ao público. Melhorar as etiquetas de identificação das plantas era outra das pretensões do especialista. A grande maioria exibe uma nomenclatura.

Criar mais acessos à zona das escarpas e melhorar as instalações cientificas são outros dos projetos em carteira. O jardim recebe mais de 300.000 visitas por ano, sobretudo turistas e estudantes, o que lhe faz valer o estatuto de figurar entre os jardins nacionais mais procurados. A riqueza e raridade das coleções que alberga, assim como o próprio traçado e paisagem envolvente são um postal convincente para aguçar os cinco sentidos.

O Jardim Botânico da Madeira, um dos espaços do país mais ricos em biodiversidade, está situado no Caminho do Meio, no Bom Sucesso, no Funchal. Ocupa uma área de oito hectares e está localizado a uma altura que oscila entre os 250 e os 350 metros. Está aberto todos os dias, encerrando apenas a 25 de dezembro, dia de Natal. É possível fazer visitas guiadas mediante marcação prévia.

Texto: Rita Gonçalves e Luis Batista Gonçalves (edição digital)

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