O SAPO Lifestyle falou com a autora sobre o seu novo livro, os projetos em que tem estado a trabalhar e a luta contra o cyberbullying, elogiando a discussão lançada por Cristina Ferreira a propósito deste tema no livro 'Pra Cima de Puta' e a petição que pretende levar até à Assembleia da República.

Conheça melhor esta criadora de conteúdos que faz revelações inéditas e que prentede inspirar todos os jovens a seguir os seus sonhos.

Agora que lançou o primeiro livro, acha que vai seguir a carreira de escritora ou vai manter-se como youtuber/digital influencer?

Bom, na verdade, isso depende muito da receção do público ao meu livro, se for um sucesso e as pessoas quiserem ler mais... Eu adoro escrever e gostava muito de ter a oportunidade de voltar a lançar outra obra, no entanto vai depender completamente do feedback do pessoal.

Criatividade e dedicação. Foram estas as ferramentas que usou para o seu sucesso?

Sim, no mundo do digital influencing existe muito aquela pré-conceção que é um trabalho fácil ou uma profissão fácil, mas eu devo dizer que, por exemplo, há duas semanas que não tenho fins de semana. Feriados não existem e ontem passei o dia inteiro a trabalhar. Por isso, é um trabalho completamente diferente, que tem os seus aspetos positivos mas também tem esta parte que para alguém que faz questão de ter estes dias “off” e um trabalho dito normal, eles não existem. Eu costumo dizer que trabalhamos 24 horas, então é importante os jovens saberem que este é um trabalho como todos os outros, que exige dedicação e que tem os seus prós e contras, como é evidente.

O bullying marcou a sua adolescência. Foi difícil arranjar forças para sair daquela situação?

Como abordo no livro, acho que é muito importante falarmos com os nossos pais e professores. O bullying faz-nos sentir muito isolados e sozinhos e a mim ajudou-me falar com os meus pais, que me deram conselhos e fizeram-me ver que é tudo temporário. No fundo não podemos agradar a toda a gente e as pessoas que fazem bullying, neste caso os bullies, espelham as próprias inseguranças. E quando estamos a crescer isto é muito difícil de compreender porque queremos ser amigos de toda a gente e agradar a toda a gente. No entanto, acho que o mais importante é sentir que não estamos sozinhos e falarmos com adultos e pessoas responsáveis.

Sendo a música uma das suas paixões, alguma vez pensou em tornar-se cantora?

Sim, eu tenho vindo a pensar cada vez mais nesse percurso e estou a trabalhar nesse sentido. Estou a ter formação e aulas de canto. Sou muito perfecionista e prefiro fazer tudo estando consciente da minha voz. Também gostava muito de trabalhar na área de dobragens. Este ano aproveitei para trabalhar nesse sentido e conhecer melhor a minha voz.

Eu gosto verdadeiramente de comunicar

Ainda pensa em terminar o curso de Direito?

Quem é Owhana?

Ana Catarina Ribeiro, mais conhecida como Owhana, é natural do Porto, tem 24 anos e é uma das maiores criadoras de conteúdo em Portugal. Tem mais de 500 mil subscritores no canal de Youtube e mais de 450 mil seguidores no Instagram.

Eu acho que ainda não. Na altura tive um grande debate interno sobre o que deveria fazer: se devia acabar o curso e realmente terminar o meu percurso académico ou se devia enveredar pelo Youtube. Acho honestamente que o Youtube e as redes sociais são algo tão efémero que, enquanto as pessoas me quiserem ouvir, tiverem curiosidade em saber a minha história e interesse em mim, acho que vou continuar a comunicar, porque gosto verdadeiramente de comunicar. Um dia que não faça sentido para mim continuar a ter esta profissão, porque não voltar a estudar. Não ponho de todo de parte essa opção, até porque tinha colegas no meu curso que eram mais velhos que tinham as suas profissões, estavam na casa dos 40 e que decidiram voltar a estudar. Isso foi um grande exemplo para mim e deu-me algum alento de que nunca é tarde demais para voltar a aprender.

Desde que começou o seu canal de youtube, em 2016, a sua vida mudou radicalmente. Sente-se realizada com esta escolha?

Sim. Para mim começar o canal foi quase como um escape ao meu curso. Apesar de ser algo que eu queria muito, vi que era muito teórico. Como sempre tive esta parte mais criativa e comunicadora, quando criei o meu canal fiz tudo o que eu queria. Comecei a fazer aquilo que fazia com os meus amigos -que era imitar as vozes de desenhos animados - só que agora gravava e colocava na Internet e foi o melhor escape. Ainda me divirto muito, mas realmente naquela altura era tão ingénuo e tão maravilhoso para mim ver tudo a acontecer que não pensava que estava a fazer do Youtube a minha profissão. Ainda bem que correu tudo bem.

Pretende continuar a ser youtuber/digital influencer para sempre ou vê-se a seguir outra carreira daqui a 10 anos?

Eu não sou uma pessoa que planeia a cinco ou a dez anos. Se as pessoas ainda me quiserem ouvir daqui a dez anos, vou ficar muito contente. Por enquanto, vivo muito no presente e acho que é assim que tem de ser nesta profissão.

O meu canal não é moda e beleza, não é lifestyle, é entretenimento em geral

Transparência e honestidade, considera que estas são duas características essenciais para ser uma influencer de sucesso?

Eu acho que sim. É preciso ter noção de que a nossa voz e contributo vai ser diferente e que é preciso destacarmo-nos também. Quando comecei, fiz um conteúdo diferente do que era expectável para uma mulher que, normalmente, começa por fazer moda e beleza e eu de início quis demarcar-me pela diferença. Comecei a falar sobre jogos, sobre séries (que ainda faço hoje em dia) e deu-me este fator de diferenciação das minhas colegas. Eu também sou uma mulher normal [que fala sobre moda e beleza], no entanto acho que é importante mostrarmos que somos multifacetadas e abordar vários temas, por isso é que nem sequer consigo categorizar o meu canal. O meu canal não é moda e beleza, não é lifestyle, é entretenimento em geral.

Com este livro mostra como ser uma influencer de sucesso. Esta é uma das perguntas que mais recebe dos seus fãs?

É uma das perguntas que mais recebo, sem dúvida. Perguntam-me constantemente “Como é que eu começo?”, “Como é que faço com que a minha página tenha acesso e visualizações?” No fundo, com o meu livro, quis criar um guia prático a que as pessoas conseguissem aceder quando tivessem uma dúvida. Falo de aspetos muito específicos mas acho que são importantes, como é o CPM (que significa Custo Por Mil e que é o valor que cada youtuber recebe por mil visualizações monetizadas).

Eu acho que se quiserem começar uma carreira no digital é importante terem essas luzes, essas noções. Eu sou completamente autodidata, aprendi tudo sozinha. Na altura, se eu tivesse tido a oportunidade de ter um guia prático, acho que me tinha dado jeito.

No Youtube propriamente dito é preciso trabalhar mesmo muito para ter um salário

Segunda a sua experiência não é muito fácil fazer dinheiro com as redes sociais como as pessoas pensam. Porquê?

Aho que as pessoas olham para o Youtube como algo fácil e de dinheiro fácil, no entanto, é difícil porque estamos a promover-nos a nós próprios. O Youtube não é uma plataforma que cá pague assim tão bem. Nos Estados Unidos e lá fora sim, vemos muitos casos de sucesso e há vídeos sobre isso. No entanto, cá, a fonte de rendimento que permite aos criadores de conteúdos ter uma vida são os patrocínios das marcas. No Youtube propriamente dito é preciso trabalhar mesmo muito para ter um salário e conseguir pagar as contas, requer muita dedicação.

Não fazia sentido para mim não falar sobre ele [Wuant] no meu livro

Foi importante para si passar a mensagem certa sobre o fim da relação com o Paulo Borges/Wuant? Sentiu que tinha que esclarecer o vídeo que fizeram juntos?

Eu senti que devia falar da relação e do que ela significou para mim. Falo sobre como o conheci, como é que foi a nossa relação e evidentemente tenho um capítulo que fala sobre “como curar um coração partido”. Nós vivemos momentos muito bonitos, ele foi o meu primeiro namorado e eu queria que ficasse marcado e registado para a posteridade - neste livro - a importância que ele teve na minha vida. No entanto é um capítulo que fica encerrado e foi uma fase da minha vida em que aprendi e cresci muito. Queria realmente que as pessoas vissem que há respeito por esta pessoa que foi importante, então não fazia sentido para mim não falar sobre ele no meu livro, sendo que fez parte da minha vida por cinco anos.

O livro foi o meu diário, a minha companhia e uma espécie de terapia

Chegou a falar com ele sobre o capítulo em que fala da vossa relação no livro?

Na verdade não. Não falei com ninguém. Escrevi este livro todo sozinha no meu apartamento com os meus cães durante o isolamento social. O livro foi o meu diário, a minha companhia. Nem com os meus pais quase falei, eles não sabiam o que ia fazer parte do livro e só estão a saber agora com o lançamento. Realmente eu fui mesmo um túmulo, não contei a ninguém e foi uma espécie de terapia para mim escrever o livro.

Owhana FNAC

O capítulo “como curar um coração partido” pretende ajudar quem passa por este tipo de situação?

Tal e qual. Acho que é algo transversal, pois todas as pessoas passam por um desgosto amoroso. O primeiro namorado raramente é a pessoa com quem se acaba por casar, é muito idílico. Eu queria realmente mostrar, com a minha experiência, como é possível reerguermo-nos. Eu recebia muitas mensagens de meninas a perguntar como é que estava a lidar com a situação, como é que eu fiz e eu pensei que poderia ajudar as pessoas que mandavam mensagens acerca deste tópico e mostrar-lhes que existem ferramentas como o journaling e o autocuidado que realmente ajudam e tudo passa.

A Cristina está a abrir uma discussão sobre os comentários intrusivos e o porquê deles

Como reage a comentários maldosos? Porque é que acha que as pessoas o fazem no meio digital?

Essa é uma questão que até foi levantada pela Cristina Ferreira na nova obra dela e eu tenho vindo a falar sobre isso com os meus pais, porque genuinamente não entendo o que leva alguém a fazer um comentário destrutivo. Relembrei os tempos da escola em que tive aulas de Ética e de como escrever na Internet. Por exemplo, não escrever frases em maiúsculas porque dá intenção de que estamos a gritar; não escrever um documento a vermelho ou um e-mail. Eu sinto que se perderam essas regras de como comunicar online.

Eu não me importo, de todo, de receber um comentário construtivo, no sentido em que a pessoa esteja a acrescentar algo ao meu trabalho. Agora um comentário destrutivo feito a alguém que tem a saúde mental fragilizada, que não consiga lidar com a crítica ou que não tenha uma boa estrutura emocional, é extremamente destrutivo.

A Cristina está a abrir uma discussão muito pertinente com a obra dela, e que eu também tentei abordar no meu livro, sobre os comentários intrusivos e o porquê deles. Realmente não há uma justificação. Eu nunca fiz um comentário desses na vida e não sei o que leva uma pessoa a comentar esse tipo de coisas. O Youtube e o Instagram têm algumas ferramentas, podemos bloquear a pessoa, eliminar o comentário, no entanto, o comentário ainda chega até nós, ainda temos de o ler para o apagar ou bloquear e acho que é isso que está a lesar os criadores de conteúdos e as figuras públicas como a Cristina: o facto deles chegarem até nós de qualquer forma.

Existe o cyberbulling e acho que é importante termos uma boa estrutura e falarmos com os nossos pais, avós e tios para percebermos que aquilo não é real e as pessoas que fazem esses comentários geralmente não nos conhecem de todo e que isso não reflete a pessoa que nós somos. São pessoas anónimas que fazem julgamentos de valor sobre situações que provavelmente não conhecem, então é importante saber que elas não definem o nosso valor. Era o que os meus pais me diziam sempre: essas pessoas não te conhecem, não definem o teu valor e quem define o teu valor és tu e as pessoas que estão próximas de ti.

“Influenciar positivamente” devia ser, na sua opinião, o grande objetivo de um digital influencer?

Cada criador de conteúdo tem lugar e espaço para fazer da plataforma que gere aquilo que bem desejar. No meu caso, eu tenho muito aquele síndrome de irmã mais velha, porque sou irmã mais velha, e sinto muito essa responsabilidade de passar uma boa mensagem e bons valores. Eu tenho essa visão, mas há quem não tenha.

Durante a quarentena refere que esteve apenas com os seus dois grandes amigos patudos, a Sissy e o Wobe, e que estes inspiraram-na a criar outro projeto para além do livro. Pode falar um pouco sobre isso?

Entretanto lancei o meu merchandising. Eu já tinha tido alguns pedidos para o fazer ao longo dos anos e agora aliei-me a uma empresa e fizemos acontecer.

Acho que fazia sentido ter a carinha deles e ter a minha imagem porque eles são parte essencial da minha vida. Aaliás o meu livro é dedicado aos dois. Eu sou mesmo essa pessoa que adora os seus amigos de quatro patas.

Tenho muita sorte em fazer o que faço e sinto-me muito grata todos os dias

Quais serão, a partir daqui, os novos passos para a Owhana?

Na verdade eu vou um bocado para onde o vento me leva, como se costuma dizer. Eu planeio diariamente. Neste momento estou a fazer conteúdo diário durante o mês de dezembro, por isso estou a trabalhar arduamente para lançar vídeos todos os dias no meu canal de Youtube. Também estou a trabalhar na parte musical, mas isso demora mais tempo. Tenho muita sorte em fazer o que faço e sinto-me muito grata todos os dias, porque adoro o que faço… mesmo.

Como é que os seus fãs têm reagido ao livro?

Eu tenho recebido mensagens supercalorosas sobre o meu livro. Ontem recebi uma mensagem de uma menina chamada Inês, que até me comoveu, a dizer: “Ana, não te consigo agradecer o suficiente porque me sinto uma pessoa nova depois de ler o teu livro. Sinto-me revigorada e com força para perseguir os meus sonhos.” Eu guardo e respondo sempre e, quando leio essas mensagens, fico mesmo contente por ter tocado uma pessoa e de a ter inspirado. Para mim, é incrível.

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