Sobreviver ou escapar de uma relação tóxica e abusiva pode, muitas vezes, ser apenas um passo para parte da recuperação. Pois, para muitas vítimas, a maior dificuldade será recuperar do abuso, do dano causado na sua autoestima, bem como lidar com os sentimentos de raiva e traição.

A norte-americana Stephanie Sarkis, especialista em comportamento abusivo, abuso narcisista e distúrbios de personalidade, escreveu o livro Liberte-se de Relações Tóxicas (Casa das Letras), manual que pretende ajudar as vítimas destas situações a superá-las e a viver em pleno de forma saudável e feliz. Obra que procura não só uma ajuda na recuperação, mas também na compreensão dos fundamentos do comportamento tóxico e para como encontrar paz.

De Liberte-se de Relações Tóxicas publicamos o excerto abaixo:

Quando a sua mãe bebia, Jane sentia que não havia nada que ela pudesse fazer para lhe agradar. Por vezes, a mãe de Jane enfurecia‑se e dizia aos filhos que eles lhe haviam dado cabo da vida e que desejava que nunca tivessem nascido. Parecia sentir um desprezo particular por Jane: pregava‑lhe rasteiras ou batia‑lhe e, quando ela caía no chão, dava‑lhe pontapés. A mãe de Jane chegou ao ponto de ordenar à irmã de Jane que também a pontapeasse.

Quando isto acontecia, o pai de Jane saía de casa ou ia para uma outra divisão da casa e fechava a porta. “Tenta apenas não aborrecer a tua mãe”, dizia ele a Jane. Agora que é adulta, Jane encontra no caos alguma normalidade, e até algum conforto. Um relacionamento saudável parece‑lhe aborrecido. Sobressalta‑se muito facilmente e, quando alguém levanta a voz ou grita, ela abstrai‑se e entra num estado dissociativo. Jane compensa a sua sensação de desequilíbrio trabalhando desalmadamente. Alguns dos seus amigos dizem‑lhe que é viciada no trabalho. Recentemente, perdeu o emprego e entrou numa espiral descendente.

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Quando Hasim foi contratado, o seu empregador disse‑lhe que ele iria trabalhar com uma equipa unida. “Somos uma espécie de família”, garantiu‑lhe o seu novo chefe. Hasim não tardou a aperceber‑se de que eles eram realmente uma espécie de família, mas uma família disfuncional. Sal, um colega de trabalho, ficou com os louros do trabalho de Hasim, inclusive por um projeto que este demorara seis meses a desenvolver. Sal dirigia insultos raciais a Hasim, mas num tom de voz que apenas ele conseguia ouvir. Hasim acabou por perguntar aos seus outros colegas se já haviam tido problemas com Sal. “O Sal costuma encontrar um alvo no grupo”, disse Sarah, uma colega de equipa, enquanto os outros assentiam com a cabeça. “Eu limito‑me a ignorá‑lo… mas acho que é mais fácil quando não sou a vítima escolhida”.

Um dia, Sal criticou abertamente Hasim durante uma reunião. “Não trabalhas o suficiente, Hasim”, disse‑lhe Sal. “Mas isso não me surpreende. És tão preguiçoso como todos esperávamos”. Hasim não aguentou mais. “Estás a fazer‑me bullying, Sal”, disse ele, claramente. “E não é só a mim. Tens intimidado outras pessoas que trabalham aqui”. Mas, quando Hasim olhou à sua volta, em busca de apoio, os colegas permaneceram em silêncio. Mais tarde, um colega confidenciou que não iria dizer nada, porque não queria voltar a ser uma vítima de Sal. Hasim foi ter co o seu chefe e levou documentos sobre os comportamentos de Sal, mas este disse que Sal era um “funcionário exemplar” e que nunca chegara ao seu conhecimento de que alguém tivesse problemas com ele. Atualmente, Hasim sente medo quando acorda de manhã. Sal afirma agora que Hasim lhe fez bullying. Hasim anda à procura de um outro emprego.

Quando Ken e Sabrina se conheceram no liceu, uma das coisas que os unia era terem ambos famílias “desequilibradas”; todas as noites, os seus pais discutiam, aos gritos. Sem se aperceberem disso, seguiram o exemplo dos pais, e o seu próprio relacionamento era muito emotivo e conflituoso. Por vezes, as suas discussões escalavam ao ponto de se empurrarem um ao outro. Mas acabavam sempre por fazer as pazes e parecia que o seu relacionamento se tornava mais forte… forte ao ponto de o manterem à distância quando cada um fosse para a respetiva faculdade. Ambos acreditavam que chegavam a certos extremos por estarem tão apaixonados. Isto aconteceu até ingressarem na faculdade e Sabrina se aperceber de que se sentia muito mais tranquila quando Ken não estava por perto. Ken teve a sensação de que Sabrina estava a afastar‑se, pelo que lhe telefonava e lhe enviava mensagens, exigindo saber onde e com quem é que ela estava. Além disso, publicava nas redes sociais fotografias de si próprio em festas, com outras raparigas, como se estivesse a divertir‑se à grande. Sabrina ficou cheia de ciúmes e começou a dormir mal. Sentia que estava constantemente a ver as páginas dele nas redes sociais e as suas notas começaram a baixar. Decidiu que chegara a altura de terminar o relacionamento e enviou‑lhe uma mensagem: “Não consigo continuar com isto”. Bloqueou não só o número de telemóvel de Ken, mas também o seu email e as suas contas nas redes sociais. Nessa noite, Ken apareceu diante do apartamento dela. Sabrina começou por sentir‑se algo lisonjeada, pensando que ele devia amá‑la muito para fazer aquilo. Mas foi então que ele começou a gritar no parque estacionamento, dirigindo‑lhe insultos terríveis. Ela manteve as luzes apagadas e não reagiu. Agora, de vez em quando, Ken envia mensagens a Sabrina, de um número desconhecido, comportando‑se como se estivesse apenas a “marcar presença”. Sabrina fica sempre maldisposta com estas mensagens e não sabe se algum dia conseguirá realmente voltar a descontrair.

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Se está a ler este livro, é provável que consiga identificar‑se com Jane, Hasim e Sabrina. Qualquer relacionamento, seja ele amoroso, familiar, de amizade ou de trabalho, dá que fazer. Mesmo os relacionamentos mais estreitos terão os seus altos e baixos. Mas, quando há competição, conflito, ciúme, ressentimento, hostilidade, abusos e comportamentos controladores, é sinal de que um relacionamento se tornou tóxico. Talvez o leitor tenha terminado recentemente uma relação tóxica, ou talvez esteja a pensar em pôr um ponto final em alguma. A vida após um relacionamento tóxico pode ser muito difícil. Poderá ter saído do relacionamento com o coração e a autoestima feridos. Poderá estar a sentir raiva e traição. Poderá também ser muito cruel consigo, censurando‑se por coisas que não são culpa sua. Poderá sentir‑se num beco sem saída e sem saber como seguir em frente. Talvez esteja a avaliar as suas opções, mas ainda não está preparado para colocar definitivamente um ponto final num relacionamento tóxico, ou talvez ainda não possa sair dele devido a questões logísticas ou financeiras.

Talvez não esteja a ler este livro para si. Poderá ser um profissional de saúde que trabalha com clientes que foram vítimas de violência doméstica ou infligida por um parceiro ou que pertencem a famílias disfuncionais. Poderá estar a lê‑lo porque alguém de quem gosta ou que ama passou por um relacionamento tóxico. Embora não possa substituir‑se a essa pessoa para resolver a situação, este livro pode sugerir‑lhe como ajudá‑la e apoiá‑la.

Sejam quais forem as circunstâncias, quero que saiba que o modo como se sente é perfeitamente normal… e que faz parte da sua capacidade de se libertar. Pode recuperar e sentir‑se‑á melhor.

Como cheguei a este tema

Sou psicóloga clínica e exerço no setor privado. Sou especialista no tratamento do défice de atenção e hiperatividade, da ansiedade e do abuso narcisista. As pessoas tóxicas tendem a ter como alvos indivíduos com este tipo de vulnerabilidades, pelo que costumo ver mais vítimas de relações tóxicas e de abusos do que outros terapeutas. Sou mediadora familiar certificada pelo Supremo Tribunal da Florida e vi ao vivo como os relacionamentos tóxicos podem revelar‑se no sistema judicial, principalmente em processos de guarda parental. As pessoas tóxicas também tendem a prolongar conflitos legais, em vez de tentar resolvê‑los. Os juízes e advogados mais experientes costumam identificar imediatamente esses sinais. No entanto, certas pessoas tóxicas são tão hábeis a manipular que até alguns profissionais de saúde mental não se apercebem disso.

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Por mais que tenha visto os danos que uma situação tóxica pode causar, vi também certos padrões no comportamento de pessoas tóxicas, particularmente o ciclo de “idealização, desvalorização e descarte”, o abuso emocional e a manipulação psicológica. O meu último livro, Gaslighting: Recognize Manipulative and Emotionally Abusive People… and Break Free, explica todas as formas de manipulação psicológica, para que os leitores possam identificar relacionamentos prejudiciais e sair deles. Em vinte anos de clínica privada, vi aumentar o número de clientes que relatam comportamentos de manipulação psicológica nos seus companheiros, familiares, empregadores e colegas de trabalho. Os padrões de comportamento que experienciaram são do tipo “atração‑rejeição”: as pessoas tóxicas atraem o outro, cativam‑no e, depois, rejeitam‑no abruptamente. Muitos clientes irão à primeira consulta de terapia com a dúvida de se eram eles o elemento tóxico no relacionamento, quando, na verdade, o comportamento da outra pessoa pode ser descrito como inadequado e até perigoso. Quando “manipulação psicológica” se tornou um termo comum, um maior número de clientes começou a revelar as suas experiências nas sessões de terapia. Em alguns casos, os clientes encontravam‑se num relacionamento tóxico há muitos anos, tentando sair dele, mas sendo depois “sugados” de volta. Só após limitarem ou bloquearem o contacto com uma pessoa tóxica é que os meus clientes conseguiram realmente reconstruir a sua vida. Por terem um nome para designar o comportamento do qual haviam sido vítimas, foram capazes de identificá‑lo e, por fim, libertar‑se dele.

O meu livro Gaslighting explica essencialmente como podemos identificar relacionamentos prejudiciais e libertar‑nos deles. Este livro é a continuação do anterior, destinando‑se a analisar as consequências deste tipo de comportamento e a aconselhar o leitor sobre o que pode fazer no futuro para se proteger de relações tóxicas, recuperar delas e evitá‑las.

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