Tenho uma licenciatura, um mestrado, algumas experiências no estrangeiro e, pela primeira vez, tive de abdicar do valor mais importante do mundo: a liberdade de escolha. Simplesmente porque não sei quando é que vou voltar a trabalhar, nem quando vou ter condições financeiras para pagar a renda do quarto alugado em que vivia em Lisboa.

Custou-me e custa-me admitir a verdade: quero controlar a vida mas é ela que, no fim de contas, me controla a mim, aos meus sonhos e aos meus objetivos. O pior não é detestar ser controlada, nem saber que as coisas, de uma maneira geral, me têm corrido melhor quando tenho liberdade e autonomia de escolha, mas sim o suspense do “e agora?”.

Respira-se fundo, aceitam-se as lágrimas que insistem em sair e os gritos mudos. Gera-se revolta com os cientistas, com as farmacêuticas, com o governo. Não era uma vacina que queria – era a minha vida de volta.

Sinto-me frustrada e aterrorizada porque quando olho para o meu CV, para o mercado de trabalho e para todos os projetos em que estive envolvida, paralelamente aos meus trabalhos na área do turismo, tem tudo um sabor ‘agridoce’.

Debato-me com as minhas escolhas, com as competências que ganhei e tenho a estranha sensação de que tudo isto saberá a pouco a qualquer recrutador de outra área que olhe para o meu CV. Desespero porque fechei a porta à vida e aos sonhos que tinha em Lisboa, ainda que tenha aberto de novo a porta da casa dos meus pais, em Leiria, que felizmente nunca se fechou. Olho para ela e vejo o que sempre vi, cada vez que os vinha visitar: transição. Questiono a duração dessa transição. Será temporária ou permanente?

Apesar do impacto positivo no ambiente e no clima, as pessoas, no entanto, vão ficar mais pobres e a minha geração - “a mais bem preparada de sempre” - terá como objetivo reinventar e revolucionar o mercado. Isto perante mais uma crise, que os especialistas dizem ser a maior recessão dos últimos 100 anos.

Há quem diga que a minha geração vai viver como a dos meus avós (a maioria, mal) e quem diga que vai viver ainda pior que eles (muito, muito mal). Duas realidades que me parecem difíceis e duras.

O importante vai ser o meio ambiente, encontrar uma vacina e meter a economia a funcionar. Mas não será igualmente importante construir uma economia ‘verde’, assente não no medo, mas sim na responsabilidade e na consciência social?

O vírus, como disse anteriormente, até pode ter matado muitos dos meus objetivos e sonhos, mas a verdade é que também mudou a sociedade global de uma forma nunca antes vista.  Esta mudança é - e será - fundamental para que todos nós possamos pensar mais além e perceber se queremos ou não continuar a viver no planeta, de uma forma digna, sustentável e sem medo.

Tal como eu – uma profissional da área de turismo que fez “o luto do quarto de Lisboa” e que não tem a mínima ideia para “onde vai” - há milhares de pessoas pelo mundo à espera que “uma estrela brilhe”.

Com mais ou menos dinheiro, europeus ou asiáticos, muçulmanos ou católicos, no fim do dia somos todos seres humanos, com a vida e com os sonhos em suspenso.

Um artigo de opinião de Sara Reis, profissional da área de turismo, um dos setores mais afetados pela pandemia de COVID-19.

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