Todos sabemos como os ingleses gostam de jardins. Há que dizer que o famoso clima britânico, com a precipitação que tanto abunda por aqueles lados, ao longo de todo o ano, ajuda a mantê-los frescos e bonitos. Costumam ser menos simétricos e ordenados que os tradicionais e geométricos jardins franceses e ter uma profusão de flores, mas não deixam de ser, ainda assim, jardins.

Tendencialmente costumam ser espaços de diversidade limitada, com grande repetição de espécies, muitas vezes exóticas ao local, cuja fraca adaptabilidade climática obriga a um maior investimento de tempo e de recursos para a sua manutenção, para já não falar das áreas relvadas cujo custo ambiental é enorme.

Este ano, no passado mês de maio, no mais famoso concurso de jardins da Grã-Bretanha - o RHS Chelsea Flower Show - a medalha de ouro Building for the Future foi atribuída ao trabalho A Rewilding Britain Landscape, uma fantástica versão reduzida de uma paisagem natural típica do sudoeste de Inglaterra, moldada pelo incansável trabalho dos castores, reintroduzidos em 2020, no Rio Otter, em Devon, de onde foram trazidos todos os materiais com que a Urquhart & Hunt construiu o jardim.

O jardim, se assim o podemos designar, é uma delícia de irregularidade e espontaneidade, apresentando uma profusão de verdes e de flores silvestres, apontamentos de pedra rústica, um pequeno curso de água e a reprodução de uma represa feita por castores. Pessoalmente, acho que demonstra uma excecional compreensão da paisagem natural e uma enorme sensibilidade, ao conseguir reproduzir a imensa biodiversidade de uma paisagem silvestre num pequeno talhão de jardim.

Já em 2019, a colaboração entre dois premiados arquitetos paisagistas e Kate Middleton tinha produzido o trabalho Back to Nature, um jardim silvestre, desordenadamente organizado, também ele cheio de apontamentos de água e pedra, que permitia o usufruto de um ambiente muito natural.

Mais importante do que o prazer que nos dá contemplar estes extraordinários jardins, é a noção de que o rewilding está a ganhar uma visibilidade que ultrapassa os contextos científicos ou ambientalistas. O comum dos mortais que não acompanha normalmente os temas ambientais começa a olhar para estes pequenos pedaços de paraíso como o caminho a seguir para preservar a biodiversidade, não sacrificando o usufruto do seu espaço.

Transformar os tradicionais jardins através do rewilding permitiria formar rapidamente verdadeiros corredores verdes para os insetos, pássaros e uma miríade de outros pequenos seres que pululam pelo campo, diminuiria os elevados custos ambientais associados à sua manutenção e traria benefícios claros para a saúde física e mental de quem deles usufruísse.

Já o rewilding em ambiente natural e a reintrodução de espécies-chave como os castores, os lobos e outros animais com efeitos na cascata trófica, verdadeiros engenheiros ambientais que conseguem melhorias desproporcionais à sua abundância e porte, aumentando a complexidade, resiliência e diversidade dos ecossistemas em que estão integrados, implica um enorme e paciente trabalho de preparação das populações, em particular, das que dependem do trabalho da terra para sobreviver. Para a reintrodução de uma espécie como o castor, por exemplo, é igualmente necessária a remoção das estruturas obsoletas que infestam os rios, permitindo o restabelecimento do curso natural dos mesmos e a recuperação das suas populações, além da reposição da vegetação natural nas zonas ripícolas. Os castores tratam de restabelecer a necessária complexidade ao ecossistema.

O projeto Rewilding Britain tem cada vez mais adeptos e na Escócia, uma das zonas ecologicamente mais depauperadas da Europa, existe uma verdadeira corrida à renaturalização de vastas áreas de terra.

Moda ou tendência pouco importa, desde que seja verdadeiramente duradoura e abra caminho ao restauro generalizado da Natureza. Os resultados serão espetaculares e todos nós seremos beneficiados.

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