“Imagine que mergulha a mão num tacho de água que começa a aquecer. A temperatura da água sobe gradualmente e, provavelmente, aguentará até aos 40 ºC. Agora, mude o cenário. Insira a mão em água já a 40 ºC. Se colocar a mão de imediato nessa temperatura vai tirá-la com uma expressão de dor. O mesmo se está a passar com o aquecimento global. É gradual, não o sentimos de súbito e não reagimos como deveríamos reagir”.

Estas são palavras de Francisco Ferreira, ambientalista e presidente da Zero - Associação Sistema Terrestre Sustentável que, em Lisboa, a 6 de abril, trouxe aos presentes na conferência “Alterações climáticas: Prioridades de ação global e individual”, uma mensagem de alerta para os efeitos, já hoje, da subida generalizada da temperatura no sistema fechado que é o planeta Terra.

No encontro promovido pela Soroptimist International - União de Portugal, Francisco Ferreira, trouxe aos presentes o tema “Sustentabilidade, Alterações Climáticas e o Papel da Água - Pelas Mãos da Mulher”. Neste contexto, o docente e investigador recordou um evento extremo recente, o ciclone tropical Idai que afetou a província da Beira, em Moçambique.

“Este ciclone mostra-nos as diferenças entre aquilo que é um evento provável, como os que vão acontecendo em outras latitudes, e as características que nos indicam que as alterações climáticas estão a agravar estas eventos climáticos”.

“O Idai foi particularmente devastador”, sublinhou Francisco Ferreira, acrescentando que, “a velocidade da tempestade foi superior ao expetável. A temperatura da água no Oceano Índico é hoje mais elevada; logo a evaporação do elemento líquido, que alimenta a tempestade é muito superior. A precipitação aumentou, os ventos foram mais violentos”.

De acordo com o ativista ambiental nesta, como noutras catástrofes ambientais, “não são as alterações climática que provocam estes acontecimentos com impacto nas populações, elas potenciam-nos”.

Ambiente - “O aquecimento global é gradual, não o sentimos de súbito, e não reagimos como deveríamos de reagir”

A este propósito, o presidente da Zero recordou a “onda de calor em Portugal, em agosto de 2018. Dezasseis estações do IPMA registaram temperaturas diurnas acima dos 45 ºC à sombra. Os modelos apontam para que em 2100, a temperatura se situe 3 a 4 ºC acima do que temos atualmente”.

Francisco Ferreira elencou uma sucessão de eventos extremos associados a tempestades, inundações, temperaturas extremas e secas.

“Neste âmbito, há casos dramáticos como o do Bangladesh, país asiático, onde um terço do território ficou inundado durante a Monção, em 2017. Na mesma altura, o sudoeste asiático sofreu inundações devastadoras. Entretanto, no Vietname e na Síria, acentuou-se a seca, o que no último caso coopera negativamente com a cenário de guerra naquele país”.

Para além do aumento da temperatura global, Francisco Ferreira recordou o degelo das calotas polares e, para isso, apresentou dois exemplos marcantes, a Gronelândia e a Antártida. Cenários paradigmáticos com “consequências no aumento do nível do mar. Este, associado ao aquecimento global e expansão térmica dos oceanos traz-nos um cenário, para Portugal, em 2010, que aponta para um aumento do nível da água do mar em 110 cm [cenário extremo]”. No caso dos Países Baixos, no norte da Europa, “esta subida terá consequências dramáticas”.

Num mundo atualmente com mais de sete mil milhões de seres humanos, os impactos de situações climáticas extremas tenderão a afetar um número crescente de populações. No que respeita à “saúde humana, assistiremos ao alargamento da zona afetada pela Malária, isto em ambos os hemisférios. O vírus Zika, transmitido por uma espécie de mosquito, propiciará com as temperaturas mais elevadas. O tempo do ciclo de vida do inseto aumenta, o que lhe permite uma maior disseminação da doença”, conclui o docente.

Perante o problema, há que encontrar as soluções. “Estas passam pela redução das emissões de gases com efeito de estufa”. Francisco Ferreira trouxe à Conferência, o exemplo português: “Portugal apresentou recordes na utilização de energias alternativas. Em 2016, em maio, tivemos quatro dias integralmente com recurso ao consumo de energias renováveis. Em 2018, em março, todo o consumo energético proveio de fontes limpas, inclusivamente com capacidade de exportação”.

No elenco das boas práticas que cada um de nós pode seguir, o investigador apresentou alguns caminhos: “melhores isolamentos nas nossas casas, lavagem da roupa em água fria, uso do transporte público nas deslocações, assim como a partilha do automóvel”. Práticas a que se deve acrescer “o consumo de produtos locais, redução no consumo de carne, assim como na aquisição de produtos embalados”. As alternativas? “Adquirir em segunda mão, reciclar, compostar e reparar”, concluiu Francisco Ferreira.

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