Acaba de receber o Galardão da Inclusão na categoria Cultura, Desporto e Lazer, de forma a distinguir o trabalho realizado ao longo da sua carreira. A “II Gala da Inclusão” foi uma vez mais organizada pelo Instituto Politécnico de Leiria, com o intuito de Comemorar o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. Paula Teixeira é conhecida do público como cantora e há muitos anos que tem desenvolvido um trabalho como intérprete de língua gestual.

O que significou para si receber o Galardão da Inclusão?
Foi uma agradável surpresa. Não sabia que existia este tipo de galardão nem nunca trabalhei para receber prémios, mas foi bom saber que fui escolhida por um júri nacional que reconheceu o meu trabalho com os surdos e com a deficiência. A luta pela inclusão é a grande motivação da minha vida.

Continua a percorrer o país com o espetáculo Som e Silêncio?
É verdade. Tenho um espetáculo que é basicamente um concerto lúdico-pedagógico com sensibilização à diferença. Vou às escolas de crianças ouvintes com uma guitarra e uma percussão e explico-lhes de uma forma lúdica que existe outra forma de comunicar, dando um novo sentido à palavra comunicação e faço-lhes ver que existem meninos diferentes, meninos surdos, e de uma forma divertida e pedagógica, ensino gestos básicos, músicas em língua gestual, e dessa forma sensibilizo e alerto para a diferença e para a língua gestual.

As crianças aderem bem a essa iniciativa?
Muito bem. As crianças são esponjas, sedentas de aprender, e ficam desde muito cedo a ter noção do que é outra realidade e, no futuro, quando estiverem em contacto uma criança surda ou um adulto surdo já vão ter outra perspetiva. Depois disto, todos querem ter um amigo surdo para pôr em prática o que aprendem durante o espetáculo.

É uma sensibilização oportuna…
E muito divertida mas que acaba por fazer todo o sentido tanto para os professores como para os pais e educadores que aprendem ali uma nova forma de comunicar e de sensibilizar para a diferença não só para as crianças

Tem noção do número de escolas em que já atuou?
Já estive em muitas, sobretudo na região de Lisboa e no Norte do País, já fui à Madeira, mas ainda me falta os Açores e o Algarve. Este Som e Silêncio é moldável a qualquer idade, maioritariamente faço mais escolas de instrução primária mas também vou a escolas até ao ensino superior. Até já estive em lares de idosos e instituições de pessoas com deficiência, apenas mudo algumas músicas e o tipo de vocabulário. Ou seja, mediante a idade e o tipo de público, adapto o espetáculo.

Continua a cantar para os surdos?
E não só, a grande diferença é que nos meus espetáculos os surdos sentem-se integrados. O meu espetáculo é basicamente inclusivo porque qualquer pessoa que vá ver consegue perceber tudo o que se está a passar ali, ou seja, toda a gente desfruta.

Mas já tem cantado só para surdos?
Sim, ainda no final do Verão estive a cantar o hino nacional nos Surdolímpicos, que reuniu surdos de 27 países, cada um com a sua língua, e conseguimos comunicar todos. Foi uma experiência fantástica.

Continua a estudar?
Estou a tirar o curso de professora de Língua Gestual Portuguesa (LGP). Treze anos depois volto à faculdade. Fiz o curso de intérprete de língua gestual na Associação Portuguesa de Surdos e agora estou na Escola Superior de Educação de Setúbal a tirar o curso de professora de LGP.

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Ainda está na TVI?
Já lá vão 12 anos. Faço o Você na TV, da TVI, e coisas esporádicas, como as missas ou algum programa especial em que um jornalista pede uma peça traduzida, por exemplo.

Há alguma razão especial por se ter sensibilizado pelos surdos?
Sempre estive muito atenta à área da deficiência em si. Não escolhi a parte da língua gestual ou dos surdos por nenhuma razão especial, nem sequer tenho ninguém surdo na minha família, mas como inicialmente estava na faculdade a tirar o curso de educadora de infância especial, surgiu a oportunidade de entrar no curso só para experimentar.

E isso fascinou-a?
Completamente. De repente, a minha vida deu um clique, desisti de tudo e fui estudar língua gestual, numa altura em que aquilo nem sequer era uma profissão.

Ainda acompanha os surdos aos tribunais?
Quando trabalhava na Associação Portuguesa de Surdos fazia mais esse trabalho. Acompanhava-os ao médico, ao tribunal e a todo o tipo de situações que precisasse de uma ponte de comunicação, até a casar. Já traduzi mais de uma dezena de casamentos. Neste momento estou mais na TVI.

O seu disco está a correr bem?
Muito bem. Chama-se “Simplesmente eu” e saiu no ano passado. Foi um disco que me deu muito gozo porque foi muito trabalhoso. Estive sete anos à espera de editar porque não queria pôr cá fora uma coisa qualquer e por isso resolvi esperar e ainda bem que o fiz porque hoje olho para o meu disco e digo: Isto é mesmo Paula Teixeira! E tenho tesouros no meu disco como o António Feio e o Ruy de Carvalho.

Casou-se no ano passado?
É verdade. Agora o passo seguinte é um bebé. Aliás, estou a planear aumentar a família em breve, para além dos gatos, da cabra, dos pássaros, das tartarugas e dos cães.

Qual é o seu maior sonho?
Tenho um sonho que é uma vez mais um projeto inclusivo relacionado com as crianças, e apesar de ser muito ambicioso, acredito que se possa concretizar muito rapidamente.

Nestes momentos houve alguma história especial?
Num dos Som e Silêncio havia uma criança que tinha os pais surdos e era gozada na escola. A determinada altura reparei que aquela menina sabia os gestos e quando me dirigi a ela, os outros começaram a gozar. Resolvi chamá-la para junto de mim e disse-lhe que ela ia ser a minha ajudante e ela é que ensinou os colegas. E, de repente, passou a ser a heroína da escola, ou seja, a perspetiva daquelas crianças mudou radicalmente.

Valeu a pena ter ido àquela escola?
 Nem que tenha sido só para mudar a vida daquela criança!

Que mensagem gostaria de deixar?
Acredito que o melhor está para vir independentemente de não se avizinhar tempos fáceis, e podemos colorir o mundo das nossas crianças e o som e silêncio é uma cor essencial. Para ter acesso ao espetáculo Som e Silêncio, consulte: paulateixeirainfo@gmail.com, e peça todas as informações.

Texto: Palmira Correia
 

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