Nos últimos anos, Portugal tem sido palco de uma degradação política sem precedentes. A instabilidade governativa tornou-se regra, e a constante sucessão de crises institucionais atirou o país para um cenário de incerteza permanente. Em menos de três anos, vivemos dissoluções parlamentares, escândalos, demissões e agora assistimos, mais uma vez, à ameaça de queda do Governo.

Esta situação não é apenas um espetáculo deprimente da política nacional; é um reflexo de um país que se afunda em instabilidade enquanto o resto da Europa avança. Enquanto as nações vizinhas reformam as suas economias, melhoram a qualidade de vida dos seus cidadãos e investem em políticas estruturais, Portugal continua preso a disputas partidárias, jogos de poder e um sistema político que se degrada a cada nova polémica.

Mas o que significa esta crise constante para o cidadão comum? O que acontece às pessoas que dependem de medidas governamentais para melhorar as suas condições de vida? E, mais importante, quem paga o preço desta instabilidade?

O Atraso de Portugal Face à Europa

Se olharmos para o panorama europeu, a diferença entre Portugal e os seus parceiros da União Europeia torna-se gritante. Países como a Alemanha, os Países Baixos, a Suécia e até a Polónia souberam enfrentar desafios políticos sem comprometer o seu desenvolvimento. Mesmo com mudanças de governo e crises internas, a máquina estatal manteve-se eficiente, garantindo estabilidade económica e social.

Em Portugal, pelo contrário, a cada crise política, todo o país parece parar. Os investimentos são adiados, os projetos estruturais ficam em suspenso e as reformas necessárias nunca avançam. Perdemos décadas em hesitações e retrocessos.

Basta olhar para setores fundamentais como a saúde, a educação e a inclusão social para percebermos como esta instabilidade afeta a vida de milhões de portugueses. No caso específico das pessoas com deficiência auditiva, a situação é ainda mais alarmante.

As Pessoas com Deficiência Auditiva e os Projetos Esquecidos

Pela primeira vez, estava em curso na Assembleia da República um projeto de resolução focado nas necessidades das pessoas com deficiência auditiva que utilizam tecnologias de reabilitação para ouvir. O objetivo era garantir apoios eficazes para aquisição e manutenção de próteses auditivas, implantes cocleares e outras tecnologias que permitem a integração plena destas pessoas na sociedade.

Mas agora, com a possibilidade da queda do Governo, esse avanço pode simplesmente desaparecer. Num país onde já existe um histórico de abandono de políticas sociais devido a crises políticas, a perspetiva de ver mais um projeto ser engavetado não é apenas frustrante – é uma traição aos cidadãos que esperam, há anos, por mudanças reais.

Enquanto outros países europeus criam políticas sólidas de apoio às pessoas com deficiência, Portugal continua a ignorar as necessidades desta população. Se não conseguimos sequer assegurar a continuidade de um projeto essencial como este, como podemos esperar que o país evolua?

Política Surda às Necessidades da Sociedade

Em Portugal, a deficiência auditiva continua a ser um tema negligenciado. As políticas públicas pouco têm feito para garantir uma verdadeira inclusão das pessoas surdas ou com perda auditiva que dependem de implantes cocleares, próteses auditivas e outras tecnologias. Apesar dos avanços científicos e da existência de soluções eficazes, muitos ainda enfrentam barreiras diárias no acesso à educação, ao trabalho e aos serviços de saúde.

O projeto de resolução que estava em curso representava um passo histórico. Pela primeira vez, a Assembleia da República discutia medidas concretas para apoiar esta comunidade, desde o financiamento e manutenção dos dispositivos auditivos até à criação de estratégias para inclusão no mercado de trabalho. No entanto, se o Governo cair, todo este trabalho pode ser descartado, empurrado para as gavetas do esquecimento político.

Os Riscos de um País Sem Rumo e Sem Voz

Se o Governo cair e a resolução não avançar, o impacto será sentido diretamente por milhares de portugueses. As pessoas com deficiência auditiva continuarão a enfrentar:

Dificuldades no acesso a tecnologias auditivas: Atualmente, o apoio estatal para próteses e implantes ainda é insuficiente, e os custos para manutenção são elevados.

Falta de acompanhamento especializado: A reabilitação auditiva exige um acompanhamento contínuo, algo que muitos não conseguem garantir devido às falhas no sistema de saúde.

Exclusão no mercado de trabalho: Sem medidas de incentivo à contratação e adaptação de espaços, muitas pessoas com deficiência auditiva veem-se excluídas de oportunidades profissionais.

Estes problemas não são abstratos. São dificuldades reais, vividas diariamente por milhares de portugueses (mais de um milhão e meio, substancialmente).

A Classe Política em Declínio

A crise atual não é apenas um reflexo da instabilidade política; é um sintoma de um problema mais profundo: a degradação da classe política portuguesa.

Durante anos, assistimos ao afastamento progressivo dos governantes em relação às reais necessidades da população. Os debates políticos tornaram-se batalhas ideológicas vazias, onde o interesse nacional é frequentemente sacrificado em nome de agendas partidárias.

O resultado? Um país sem rumo, sem estratégia e sem capacidade de planeamento a longo prazo. Governos que caem antes de concretizar reformas, oposições que bloqueiam avanços por mera conveniência eleitoral, e uma população que, desiludida, se afasta cada vez mais da política.

Enquanto isso, os grandes desafios do país permanecem sem resposta:

Um sistema de saúde em colapso, onde a falta de médicos e equipamentos obriga milhares de portugueses a esperas intermináveis.

Uma crise habitacional sem precedentes, que torna impossível para os jovens e famílias de baixos rendimentos acederem a uma casa digna.

Um mercado de trabalho estagnado, onde os salários baixos e a precariedade continuam a afastar talento e a empurrar os jovens para a emigração.

Um sistema de apoios sociais ineficaz, onde pessoas com deficiência e outras populações vulneráveis continuam a ser esquecidas.

Perante este cenário, a pergunta impõe-se: quem está realmente a governar Portugal? E para quem?

O Preço da Instabilidade

Cada vez que um governo cai, Portugal perde tempo e dinheiro. Cada eleição antecipada custa milhões de euros aos contribuintes. Cada mês de instabilidade política representa projetos adiados, investimentos que não chegam, medidas que não são implementadas.

A população portuguesa está cansada de viver num país onde a mediocridade política impera. Num país onde a incapacidade de diálogo e compromisso leva à estagnação. Num país onde as prioridades nunca são as que realmente importam.

Se continuarmos neste caminho, o que será de Portugal dentro de cinco, dez ou vinte anos? Continuaremos a ser um dos países mais atrasados da Europa? Continuaremos a assistir, impotentes, à degradação das nossas instituições e ao empobrecimento geral da população?

Se há algo que esta crise nos deve ensinar, é que o país não pode continuar refém de uma classe política que coloca os seus interesses acima do bem comum. Chegou a hora de exigir mais. De exigir estabilidade, competência e visão de futuro.

Porque, no final do dia, não são os políticos que pagam o preço da sua incompetência – somos todos nós.

Quem Nos Representa?

Os políticos que agora se debatem pela sobrevivência do Governo são os mesmos que deveriam estar a lutar pela inclusão e pelo progresso social. No entanto, quando a instabilidade se instala, os problemas reais deixam de ser prioridade.

A comunidade de pessoas com deficiência auditiva precisa de respostas. Precisa de um Estado que olhe para a inclusão como um compromisso sério e não como uma promessa de campanha. A queda do Governo pode significar mais um retrocesso para uma população que já enfrenta desafios suficientes.

Se os nossos governantes estão surdos às necessidades dos cidadãos, então quem nos ouvirá?

Uma Reflexão Final

Portugal não pode continuar neste ciclo de autodestruição política. O país precisa de líderes capazes, comprometidos com o progresso e não com a sobrevivência partidária.

A estabilidade não é um luxo – é uma necessidade. E enquanto os nossos governantes não perceberem isso, Portugal continuará a ser um país condenado ao atraso.

Está na hora de perguntarmos a quem nos governa: para onde estão a levar Portugal? E mais importante ainda: até quando vamos aceitar isto?