Como gestora e formadora contacto diariamente com imensa gente que já experimentou o fracasso. Pessoas que, como eu, arriscaram algures sair da sua zona de conforto acreditando nos seus sonhos.

Às vezes somos bem sucedidos, outras não. Eu conto nas estatísticas nacionais como alguém que já criou negócios que não funcionaram.

Negócios que nasceram antes do próprio mercado estar preparado para eles. Ideias criativas que representavam apenas os meus sonhos e não os sonhos de muitos outros que os desejariam comprar. E não se tratou de falta de estratégia ou de planos de negócio. Como a nossa vida pessoal, a profissional também apresenta este hiato entre o que desejamos e o que acontece de facto. É o preço a pagar para saltar para o vazio acreditando que os nossos sonhos se podem efetivamente realizar.

Para isso, temos de acreditar nalguma coisa que é desconhecida, em algo que, por muitos estudos, equações ou conjeturas que façamos, não sabemos se irá dar certo. A vida não é uma certeza e isso é a única certeza com a qual podemos contar ao longo da nossa existência. Se nada existe como certo, aquilo que podemos fazer é gerir a imponderabilidade de não sabermos como será o amanhã.

Podemos escolher, mas isso apenas nos oferece a hipótese de, na incerteza entre uma opção e outra, garantirmos a melhor escolha face às possibilidades. Existencialmente, a angústia gerada pela obrigatoriedade de termos de escolher apenas consegue ultrapassar-se aceitando a incerteza. Aceitando que a maioria das circunstâncias da nossa vida estão fora do nosso controlo. Assumindo que a escolha que fizemos não foi a mais adequada.
Arcando com a responsabilidade do fracasso, encarando-o como uma oportunidade de fazermos melhor.

Neste processo, aquilo em que precisamos de acreditar, para começar, é em nós mesmos. Acreditar em nós deve ser a nossa escolha primordial e inicial. A partir daqui é mais simples acreditar que todos os saltos no desconhecido que demos contribuem para o nosso crescimento e realização. Só tendo fé em nós mesmos ficamos disponíveis para absorver e criar todas as possibilidades, ao invés de nos colocarmos do lado das limitações.

A nível empresarial, sempre me agradou a forma como os norte-americanos (entre outros exemplos) gerem o fracasso: profissionais das mais diferentes áreas, cujas carreiras e projetos fracassaram, são pagos para contar as suas experiências de insucesso, para ensinar as lições fantásticas que aprenderam com os falhanços. Por cá, passa-se o oposto: quem falha é muitas vezes considerado um fraco, é-lhe conferida uma etiqueta de «incapaz».

A nossa cultura do fracasso e do obstáculo faz com que nos foquemos nos nossos pontos fracos mais do que nos nossos trunfos. Como tal, aquilo que realmente temos de positivo é camuflado por aquilo que julgamos não possuir. No entanto, os acontecimentos menos bons poderão servir, simplesmente, para aprendermos algo com a situação. Não é de facto «a coisa», como diria Martin Heidegger, que determina a forma como nos sentimos.


Ao contrário, a forma como nos sentimos com as coisas que nos acontecem é o resultado daquilo que pensamos. Assim, a pergunta que tem de fazer a si própria, não é se consegue sair da sua zona de
conforto em segurança, sem fracassar. A grande questão que tem de colocar é se efetivamente acredita em si, na sua resistência e na sua capacidade infinita de
recomeçar.

Texto: Teresa Marta (mestre em relação de ajuda e consultora de bem-estar)

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