Gritar, para não guardar silêncios

Vamos assumir, como certa, por um momento, esta premissa: “Grite. Não guarde silêncios.”

A xerostomia, termo médico para boca seca, caracteriza-se pela deficiência na produção de saliva para manter a boca húmida e hidratada. As causas são variadas.

A nossa comunidade ensina-nos a não gritar. Falar alto é sinal de falta de educação. Outras manifestações emocionais não podem, também, acontecer, pois chorar é sinal de fraqueza, rir é prova de tontice, zanga é a manifestação da intolerância e a tristeza é típico dos ingratos. Estas são as mensagens que, de forma cultural, e muitas vezes sem ser dita, nos são passados. Pouco a pouco, estas regras toldam a nossa forma de pensar, a nossa forma de agir e, em consequência, a forma como demonstramos as nossas emoções e nos permitimos emocionar.

O que é certo é que demonstrar, de forma clara e real, as nossas emoções, torna-nos mais humanos, mais pessoas e possibilita uma maior adaptação do nosso sistema emocional, potenciando o nosso bem-estar. Assim, contrariar as nossas emoções, esconder o que sentimos, pode ser uma segurança ou defesa em certo momento, mas não o será a longo prazo.

Voltemos à premissa inicial.

Porquê gritar em vez de guardar silêncios?

Se guardarmos silêncios quando queríamos gritar, estamos a negligenciar o que sentimos e acabámos por manifestar o contrário do que queríamos expressar. As nossas emoções sentir-se-ão negligenciadas, perdendo a sua importância no alcance do nosso bem-estar. Assim, é importante gritar quando quisermos gritar, é preciso rir quando a situação o pedir e é preciso chorar que quando o sentirmos. Acompanhar as nossas emoções e permitir que estas comandem, de forma adequada, o nosso comportamento, é permitir que a nossa atenção connosco próprios seja maior e mais verdadeira.

Devemos saber porque estamos a gritar.

Não se deve gritar sem haver razão, ou porque nos dizem, ou porque gritamos numa direção que não é a mais correta. Devemos, sempre, gritar quando é adequado e com quem é adequado. Seja na alegria ou na tristeza, na zanga ou no rir, as emoções devem ser dirigidas para a sua causa e não para outras situações onde estas emoções não sejam adequadas e, por isso, não façam sentido, para nós próprios e para quem as recebe. Por exemplo, quando estamos zangados com alguém, ir transmitindo essa zanga ao longo do dia com várias pessoas quando apenas estamos zangados com uma. Então, porque não é essa pessoa o alvo da nossa zanga? Porque havemos de gritar com outras? Devemos transmitir o que sentimos – mais verdade é isto quanto for a gravidade da situação – às pessoas e situações em causa, fontes das nossas emoções.

Ir gritando para não berrar.

Outra regra da nossa comunidade é a conservação pessoal. A manifestação emocional é vista como passível de ser controlável e leva as pessoas a guardarem para si o que sentem. No entanto, o que ocorre ao fim de um tempo, é que acabamos por manifestar um excesso de determinada emoção. Ou porque não chorámos quando queríamos e, depois, por algo mais pequeno, choramos em demasia, ou porque quando queríamos rir com vontade estávamos reprimidos, ou porque quando nos zangámos não o quisemos manifestar e, depois, por algo mais pequeno, manifestámos demasiada zanga, desmedida e não proporcional. Esta manifestação funciona como um balão. Vamos enchendo o balão, enchendo, enchendo e, às tantas, o balão rebenta. No entanto, se formos esvaziando o balão ao longo do tempo, este não rebenta. Isto é, se formos gritando quando devemos, em vez de guardar silêncios porque não gritámos, não iremos chegar ao momento em que vamos berrar por algo de menor importância.

Dar atenção às nossas emoções, aos nossos gritos, é da máxima importância para o nosso bem-estar, pois se as nossas emoções estiverem reguladas e equilibradas, com um papel fulcral na nossa acção, nós estaremos, por certo, bem com elas, connosco e com os outros.

Tiago A. G. Fonseca

Psicólogo Clínico

Psinove – Inovamos a Psicologia

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