Têm uma vida pacata ou uma agenda preenchida que gerem com perícia e tudo lhes corre de feição até que, um dia, inesperadamente, de um momento para o outro, são invadidos por uma sensação de pavor, como se a morte estivesse já ali, a seu lado. Inserido nas perturbações de ansiedade, o pânico afeta cerca de três por cento da população europeia, na sua maioria mulheres, no fim da adolescência ou início da idade adulta.

Originadas por um episódio de stresse ou sem razão aparente, as crises de pânico podem ter repercussões no dia-a-dia da pessoa, que receia sofrer réplicas. Além da ansiedade, o pânico pode traduzir-se em agorafobia, o medo de espaços em que a saída ou auxílio em caso de aflição pareça difícil.

Embora seja considerada uma das perturbações de ansiedade com a maior taxa de sucesso em tratamento, quer farmacológico quer psicoterapêutico, as crises de pânico são também uma das menos conhecidas. Esta é a história de três mulheres que desconheciam o terror que isso representa, até que um dia o terrorista lhes bateu à porta.

«Achei que ia ter um ataque cardíaco»

«A primeira coisa que senti foi o coração a bater desenfreadamente. Tremia dos pés à cabeça e não havia forma de controlar-me. Achei que ia ter um ataque cardíaco e que ia morrer. Parecia ter seis anos outra vez… Só queria a minha mãe ao pé de mim», relata Isabel, 38 anos. Tudo aconteceu no local de trabalho, cerca de oito meses após o fim súbito de um casamento de três anos.

«Tinha por perto várias pessoas que me tentaram ajudar, acalmar-me e desvalorizar o terrível medo. A crise ainda durou uma ou duas horas. Uma colega deu-me um calmante e resolvi ir ter com a minha mãe. Meti-me num táxi e fui sempre a falar ao telemóvel com ela. Lembro-me de ter tentado não deixá-la em pânico também. O taxista é que deve ter ficado com a sensação de ter uma louca dentro do carro», recorda.

«Acabei por viver uma felicidade artificial»

Três horas depois, Isabel já estava no consultório a contar o sucedido. O diagnóstico era uma crise de pânico. Nesse instante tudo se tornou mais claro. «Atribuí o problema ao facto de ter tentado lidar com a separação como se nada fosse. A ruptura foi demasiado súbita, no prazo de um mês ele decidiu terminar o casamento, sem motivo aparente. Achei que ia continuar a vida normalmente», diz.

«Não sou pessimista por natureza e, nas situações difíceis, a minha defesa é tornar-me forte. Tão forte ao ponto de fingir que estava bem e que não precisava de chorar e de admitir o quanto aquilo mexeu comigo», acrescenta. Seguida por um psiquiatra, iniciou um tratamento que viria a durar um ano e meio mas que, desde cedo, mostrou resultados. «Dois ou três meses depois comecei a sentir melhorias», afirma.

«E acabei por viver aquela felicidade artificial que os medicamentos provocam», revela ainda. A par com os fármacos, surgiram novos hábitos na rotina de Isabel. «Evitava estar sozinha. Lembro-me de ter sempre a preocupação de ter o telemóvel com bateria suficiente para poder ligar a alguém em caso de SOS», recorda ainda.

Veja na página seguinte: A doença como uma sombra

«A primeira crise afetou a minha vida até hoje»

Preocupados com o estado de Isabel os amigos fizeram tudo para a animar. «Foram incansáveis. Não me deixavam sozinha um minuto. Foi a altura da minha vida em que mais convites recebi para sair. No fundo, acabou por ser uma festa!», comenta. Gradualmente, aprendeu lidar o problema mas confessa que ainda hoje sente o perigo à espreita. «Tenho a nítida sensação que posso ter uma crise a qualquer momento, sobretudo nas situações que fogem ao meu controlo», explica.

A primeira crise ficou registada na memória. «Não vou esquecê-la nunca. Por um lado, é bom porque posso evitar outra tão forte. Tenho consciência de que o primeiro pensamento é a morte e que ninguém morre de uma crise de ansiedade», explica Isabel. «A primeira crise afetou a minha vida até hoje», assegura.

«Tornei-me mais insegura e perante situações complicadas, sinto-me desprotegida. E criei algumas paranóias. Por exemplo, tenho um medo terrível de perder alguém que amo, por achar que vou ter uma crise de pânico e que não vou conseguir lidar com a situação. De resto, continuo a ser uma pessoa de bem com a vida», afiança Isabel.

«Tinha medo, transpirava e tinha vómitos»

«A primeira crise, agora sei dizê-lo, foi há dois anos, numa viagem curta de avião. Tinha medo, transpirava, tinha vómitos e enxaqueca mas, como passou mal aterrei, não falei disto a um médico», conta Patrícia, 32 anos. Pouco tempo depois a história repetiu-se. «Estava na cama, à noite, e senti imensas dificuldades em respirar. Disse ao meu companheiro que não conseguia respirar fundo», relembra.

«Tinha essa sensação há uns dias mas nessa noite foi mais grave. Senti um medo indescritível. Estava convencida de que iria morrer sufocada. Passei cerca de uma hora a tentar respirar. Abri a janela e até me pus de fora a tentar respirar o ar húmido», sublinha. Apreensivo, o companheiro levou-a para o hospital. O diagnóstico foi ansiedade generalizada associada a crises de pânico.

Vivia uma fase difícil e, segundo Patrícia, a crise deveu-se ao «descontrolo e frustração que sentia em relação à vida, tanto profissional como pessoal». A psiquiatra indicou-lhe o tratamento e «após ter sido medicada, fiquei calma ou melhor insensível, como se estivesse afastada de mim própria», afirma.

«Ainda revejo aquela noite»

Embora as crises sejam menos frequentes, o medo permanece. «Ao deitar-me revejo aquela noite e receio que possa acontecer outra vez. Quando tenho o nariz tapado, por exemplo, entro logo em stresse. Mas só à noite, no silêncio, na escuridão», desabafa. Espaços fechados, provocam-lhe desconforto e se, por exemplo, vai a um concerto verifica logo onde está a saída. A sua vida mudou, as reações também, mas o apoio de quem gostava manteve-se.

«Compreendiam que estava mal, porque a minha personalidade ficou alterada, mas sinto que é impossível que compreendam o terror que vivi, até que passem pelo mesmo. Nas crises de pânico não temos para onde fugir. A ameaça somos nós próprios. E essa sensação é muito difícil de viver», afirma ainda.

O seu maior receio é que, sem a medicação, tudo recomece, apesar de tudo, Patrícia sente-se bem. «Sempre me achei uma pessoa forte e, mesmo nas situações difíceis, consegui reagir. Até que aos 30 anos isto me aconteceu. Refleti muito na minha vida, acho que estou mais tranquila, que convivo melhor comigo própria», acrescenta ainda.

Veja na página seguinte: O dia em que Helena achou que ia morrer

«Achei que ia morrer»

«Era setembro, as férias quase a terminar, e eu ia de carro quando, de repente, comecei a sentir-me mal. Angustiada, com o coração a bater muito rápido, tonturas e o corpo, sobretudo as pernas, a tremer. Sinceramente, achei que ia morrer, ou de ataque de coração ou de falta de ar», conta Helena, 32 anos. «Parei junto a um café, entrei e comecei a sentir-me ainda pior», recorda.

«As pessoas que me acompanhavam ficaram preocupadas, mas mantiveram o sangue frio. A minha mãe tentou acalmar-me com palavras e gestos carinhosos, sem resultado. Lembro-me de que até no chão rebolei», assume. Tinha 21 anos e acabava de viver a sua primeira crise de pânico.

«Uma angústia profunda, um medo inexplicável, aterrador foi o que senti na altura. Recorri a um psiquiatra, que me diagnosticou crises de ansiedade e de pânico. Lembro-me de lhe dizer que já sabia que não ia morrer mas que precisava de ajuda para me controlar quando o medo regressasse», recorda.

«Passei anos assim»

Foi o início de uma vida radicalmente diferente. «Deixei de ir à praia e as viagens de carro eram uma autêntica tortura», refere. Durante o dia, no trabalho sentia-se bem mas, à noite, o receio voltava. «Se estivesse sozinha não conseguia dormir. Passei noites em claro, com crises que duravam horas. Ir a qualquer lado era um problema, tinha um medo imenso de me sentir mal. Vivia infeliz porque não me reconhecia», diz.

«Durante um período tomei anti-depressivos e ansiolíticos mas a verdade é que as recaídas voltavam quando interrompia a medicação», relata Helena. «Passei anos assim. Umas fases melhor, outras péssima. A minha vida nunca mais foi a mesma. Andava chateada comigo própria não só porque não me sentia bem mas também porque tinha a noção de que mentia aos outros», refere.

«Arranjava as desculpas mais mirabolantes»

A solidão era um dos medos que mais temia. «Arranjava as desculpas mais mirabolantes só para não ficar sozinha», revela ainda. Tudo mudou quando Helena iniciou aquilo a que chama o processo de cura, a psicoterapia. Primeiro com consultas semanais e, depois, com terapia de grupo. Através de técnicas de relaxamento e respiração e da simulação de situações de ansiedade, Helena aprendeu a enfrentar o medo.

Mas nem sempre foi fácil. «Não foram raras as vezes em que saí da consulta sentindo-me ainda pior. Tinha receio de que não funcionasse comigo. Depois, aprendi a dominar o corpo, a deixar as emoções fluir, a falar dos meus medos mais profundos e, lentamente, comecei a sentir-me melhor», explica. Seis meses depois, «já conseguia ficar sozinha em casa», refere.

Veja na página seguinte: O momento em que a vida de Helena ganhou um novo sentido

«Aprendi a gostar mais de mim»

O passar dos anos trouxe-lhe alguma serenidade, autocontrolo e autoconfiança. «Se me sentia ansiosa, dominava o corpo com a respiração abdominal e técnicas de relaxamento», conta Helena, sublinhando que «a vida ganhou um novo sentido. Voltei viajar, a ir à praia. De vez em quando, ainda sinto um nervoso miudinho quando sei que vou enfrentar certas situações, mas agora consigo controlar a cabeça e o corpo», diz.

Helena não atribui uma razão ao sucedido mas admite que está diferente. «É evidente que as crises me marcaram muito pela negativa, mas hoje também penso que por ter passado por isso aprendi a conhecer-me melhor, a gostar mais de mim. Acho que dou outro valor ao que consigo fazer precisamente por ter julgado durante anos que nunca mais voltaria a desfrutar de coisas tão simples como estar calmamente deitada numa praia», assegura.

Texto: Manuela Vasconcelos

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