É uma doença que reside na mente, mas é no corpo que ela mais se reflete. Carla Baptista chegou a pesar 37 quilos e acreditava que nunca seria magra demais. A sua determinação, o apoio de uma equipa multidisciplinar, da família e dos amigos conduziram-na à cura. «Antes de sofrer de anorexia, a minha relação com a comida era normal», revela hoje [2016] a secretária de direcção de 39 anos.

«Em pequena, sempre fui gordinha, com algum peso a mais, mas esse facto, até à minha adolescência, nunca me preocupou. Não era algo em que pensasse. Comia o que me apetecia e nas quantidades que queria. Olhando para trás, acredito que comia bastante mais do que precisava e não tinha uma alimentação muito saudável», diz.

«Comia sopa e vegetais porque os meus pais a isso me obrigavam, mas preferia um bife com batatas fritas e uma boa mousse de chocolate. Nunca tive uma boa relação com o desporto. Fazia as aulas de educação física porque eram obrigatórias na escola, mas não por prazer. Quando cheguei à adolescência, por volta dos 16 ou 17 anos, comecei a preocupar-me mais com a minha imagem», admite.

A ditadura da imagem

As imagens que via na televisão e nas revistas femininas começaram a influenciá-la. «O estereótipo de mulher bonita e magra que os media vendiam causava-me alguma inveja, mas parecia-me, ao mesmo tempo, inatingível. Não era de todo obesa. Vestia um 40 de roupa, mas sentia-me gorda», desabafa a secretária de direção.

«Com o tempo, a ideia de que seria mais feliz se fosse mais magra foi-se desenvolvendo no meu inconsciente e foi, provavelmente, o gatilho que mais tarde espoletou o problema. Além disso, querer causar uma boa impressão junto do sexo masculino era uma preocupação e, de certa forma, parecia que nenhuma roupa me ficava bem.  A partir dessa altura, estar acima do peso era o problema», conta.

A primeira dieta

Pouco depois, começou a cortar na comida. «Na altura que decidi perder peso e começar a fazer dieta, pesava cerca de 65 kg. Sendo que media 1,65 metros, o meu índice de massa corporal (IMC) estava dentro do normal. O auge da doença coincidiu com uma grande mudança na minha vida. A ida para a faculdade!», confessa Carla Baptista.

«No meu caso, implicou sair de casa e mudar de cidade, aliando inseguranças e pressão emocional ao problema preexistente. Durante a fase mais aguda da doença, deixei de fazer refeições e de manhã só bebia um café. Sem açúcar, claro. Mais tarde, comia uma maçã e uma Coca-Cola diet. Ao longo do dia, só comia fruta e, quando muito, uma sopa. Comer o menos possível era uma vitória», reconhece.

A (má) relação com a comida

No início, o processo de transição foi tranquilo. «Quando comecei a dieta, a minha relação com a comida era igual à de alguém que quer perder algum peso.  Com o tempo, diminuir as quantidades ingeridas começou a tornar-se uma obsessão. Passava muito do ato simples de contar calorias», refere a secretária de direção.

«O importante era comer o menos possível», desabafa. «Passado algum tempo, não tinha qualquer vontade de comer, já não precisava de contrariar a fome. As horas da refeição tornaram-se verdadeiros pesadelos, porque sabia que os outros me observavam para ver o quanto comia», conta ainda.

«Comecei por esconder a comida uma por baixo de outra, dentro de guardanapos e até a pôr no lixo, às escondidas. Ter ido para outra cidade viver, longe da família, facilitou muito ter este comportamento. Já não precisava esconder. Era só não comer. No auge da doença, o autocontrolo que eu exercia sobre mim e sobre a fome era a minha motivação diária», relata.

Veja na página seguinte: A espiral descendente que quase conduziu Carla Baptista à morte

A autoimagem distorcida

Seguiu-se uma espiral descendente. «Na fase mais aguda, estava muito magra. Cheguei a pesar 37 kg. Mas quando olhava para o espelho, via o meu corpo com as mesmas formas que ele tinha antes da doença. Não conseguia ver que estava magra demais. Na verdade, nunca seria magra demais», sublinha.

«O peso diminuía na balança, mas nunca era de menos. Nem o facto de estar a vestir um 32 era suficiente», refere. «Dizerem-me que estava demasiado magra era, para mim, motivo de regozijo e não de preocupação. No meu caso, a obsessão pela perda de peso era mais importante do que a imagem», admite.

«No auge da doença, evitava ver-me ao espelho, porque o que eu via não correspondia ao que todos à minha volta me diziam. Perder peso era o mais importante e não o facto de estar ou não bonita», acrescenta ainda Carla Baptista.

A vida (não) social

A patologia toldou-lhe os dias. «A doença trouxe consigo uma apatia e profundas transformações da minha personalidade. Aquela rapariga extrovertida, faladora e sorridente transformou-se numa pessoa calada, de olhar triste e desinteressada do mundo. Afastei-me dos amigos antigos porque eles, chocados com a situação e na ânsia de me ajudarem, tentavam convencer-me que algo estava mal», conta.

«Tive a sorte de ter grandes amigos que compreenderam a situação e tiveram a paciência de esperar que ultrapassasse esta fase difícil. Em relação aos novos amigos da faculdade, na verdade, já me conheceram doente. Nunca almoçava com eles, evitava festas e encontros», recorda Carla Baptista.

«Provavelmente achavam que eu era mesmo assim, calada e apática. Com o passar do tempo, também eles se aperceberam de que algo não estava bem, mesmo que talvez não tivessem noção da dimensão do problema. Mas também eles foram muito importantes durante a minha recuperação ao apoiarem-me no processo», reconhece.

O ponto de viragem

Assumir a doença foi um processo moroso. «Não me apercebi que estava a ter uma relação negativa com a comida até começar as sessões terapêuticas. O que me levou a aceitar ajuda não foi ter tomado consciência da doença. Foi a constatação de que todos à minha volta me diziam que eu tinha um problema», diz Carla Baptista.

«Seria possível que todos estivessem errados e eu certa? Resolvi aceitar a sugestão da minha tia e consultar um endocrinologista. Do início da suposta dieta até à minha primeira consulta, passaram-se 10 meses. Até aí, negava ter um problema. Na minha cabeça, a médica constataria que eu estava bem. Claro que não foi o que aconteceu», afirma.

«A endocrinologista identificou logo o problema e foi peremptória. Se eu não fizesse algo para parar este processo, poderia acabar por morrer», relembra. De repente, pensou «Como é que da intenção de ser mais magra acabei aqui?», diz. «Não sabia, mas sabia que nunca tinha tido a intenção de morrer. Por isso, custasse o que custasse, tinha de lutar contra a doença. Tudo se torna mais fácil quando conhecemos o verdadeiro inimigo», conta.

Veja na página seguinte: O apoio especializado a que Carla Baptista teve de recorrer

O apoio especializado a que teve de recorrer

Os meses que se seguiram não foram fáceis. «Não é possível sair da anorexia nervosa sem ajuda especializada. É fundamental ter uma abordagem multidisciplinar ao problema. No meu caso, tive apoio de uma endocrinologista, de uma nutricionista e de um psiquiatra especializado neste tipo de problemas», explica.

«Não fui internada porque me deram um voto de confiança e hoje acredito que isso foi muito importante, porque tive o apoio de todos à minha volta, ao invés de estar num lugar estranho. Consegui continuar na faculdade e terminar o ano. O apoio psicológico é fundamental. Sem ele, estaremos a tentar curar o corpo de uma doença que, na verdade, habita na mente», diz Carla Baptista.

«Foi ele que me ajudou a entender e a aceitar quem sou e que a minha felicidade depende do meu bem-estar e não da minha imagem ou de uma qualquer relação patológica com a comida. Mas também a família teve um papel importante. Aos meus pais e aos meus tios, devo o facto de ter recuperado por completo e de ter tido alta do tratamento ao fim de dois anos. Foram o meu pilar durante essa época tão difícil que superei», agradece.

6 passos para a reconciliação com a comida

Para Carla Baptista, «não existem ex-anoréticos, mas anoréticos não praticantes». Por isso, ainda hoje adota estratégias para que a sua relação com a comida seja saudável:

1. Manter o peso próximo do ideal.

2. Comer mais fruta, vegetais, iogurtes e cereais.

3. Fazer as refeições de acordo com o apetite, não comendo em demasia.

4. Moderar o consumo de doces e fritos.

5. Ter uma boa relação com o espelho.

6. Deixar de ter a balança como a melhor amiga (não se pesa todos os dias).

O apoio da família

99% do tratamento «depende somente do anorético. Mas a família e os amigos também desempenham um papel muito importante», revela Carla Baptista:

- Informe-se sobre a doença.

- Perceba que a recuperação, a decisão de aceitar o tratamento e o sucesso do mesmo dependem do doente.

- Dê apoio e carinho.

- Demonstre disponibilidade.

- Esteja vigilante.

- Não faça pressão.

- Não insista para que coma.

Veja na página seguinte: Como calcular o seu Índice de massa corporal (IMC)

Como calcular o Índice de Massa Corporal (IMC)

O IMC relaciona a massa corporal com a altura de um adulto e permite apurar o seu estado de nutrição. Um resultado entre 18,5 e 24,9 indica um peso saudável. Abaixo de 18,5 significa baixo peso. Entre 25 e 29,9 considera-se um estado de pré-obesidade e, a partir de 30, é indicador de obesidade (com vários graus). Existem várias aplicações móveis e sites que o calculam. Para saber qual é o seu, clique aqui.

Texto: Catarina Caldeira Baguinho

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