Afeta 20% dos portugueses com mais de 40 anos, segundo dados da Associação Portuguesa de Urologia. No entanto, apenas 10% procura ajuda médica. «A incontinência urinária é uma patologia subdiagnosticada e subtratada devido a medos, tabus e desconhecimento das terapêuticas, apesar de haver formas de tratamento cada vez mais eficazes que já curam ou melhoram mais de 80 por cento dos casos», garante o urologista Paulo Temido. Mas porque não há apenas um tipo de incontinência, o primeiro passo é fazer um diagnóstico preciso. De seguida apresentamos-lhe algumas das manifestações mais comuns para que possa identificar a situação que mais se aproxima do seu perfil:

«Acontece quando tusso, espirro ou rio»

Perder urina nestas situações é um sintoma clássico da incontinência urinária de esforço. Na mulher, é a causa mais comum de incontinência crónica (75% do casos) e está muito associada à gravidez, ao parto e à menopausa, mas também pode ser motivada por «obesidade, tosse crónica ou cirurgias pélvicas», acrescenta o urologista Paulo Temido. Na gravidez, esta forma de incontinência ocorre porque a combinação de alterações hormonais, a pressão sobre a bexiga exercida pelo útero e o esforço do próprio parto contribuem para enfraquecer os músculos pélvicos que não resistem ao aumento da pressão intra-abdominal que ocorre quando tossimos, espirramos ou rimos.

Na menopausa, é a diminuição de estrogénios que provoca a atrofia vaginal e da uretra, o que contribui para a incontinência. No homem, «surge quase sempre ligada a problemas da próstata, nomeadamente cirurgias que podem causar lesão nos esfíncteres urinários», explica o médico. No que se refere a possíveis soluções para este problema, estas são as preconizadas por Paulo Temido:

-Exercícios do pavimento pélvico

Técnicas de fisioterapia para exercitar os músculos que suportam e mantêm a bexiga, o útero e os intestinos na cavidade pélvica. Além de fortalecerem estes músculos e de melhorarem os sintomas em 70% dos casos, evitam o descaimento da bexiga que ocorre em idades avançadas.  Os mais conhecidos são os exercícios de Kegel ou de reeducação períneo esfincteriana.

-Aplicação local de estrogénio

Este gesto alivia os sintomas em mulheres na menopausa.

-Cirurgia

É outra das soluções. «É o tratamento mais eficaz e duradouro. Pode ser feita em regime ambulatório, tem taxas baixas de complicações e uma taxa de sucesso superior a 90%», defende o especialista. Consiste na colocação de uma fita sintética sob a uretra, aumentando o apoio em situações de esforço. «Pode ser associada a outras cirurgias de reforço do pavimento pélvico quando coexistem prolapsos (descaimento) dos órgãos pélvicos. Em alguns casos, é eficaz a injeção de substâncias à volta da uretra. Nos homens, além de cirurgias pouco invasivas equivalentes que se aplicam nos problemas mais ligeiros, a solução passa por colocar um esfíncter urinário artificial», refere Paulo Temido.

Veja na página seguinte: Quando não se consegue chegar a tempo à casa de banho

«Não consigo chegar a tempo à casa de banho»

A sensação de necessidade urgente e frequente de ir à casa de banho, não conseguindo por vezes chegar a tempo, embora a bexiga não esteja cheia, é o principal sintoma da chamada incontinência por imperiosidade ou urgência. «Ocorre na maioria das vezes por hiperatividade da bexiga (contrações involuntárias da bexiga), uma situação que se torna mais prevalente com a idade». Também pode ocorrer devido a perturbações neurológicas como um acidente vascular cerebral (AVC), a demência, a doença de Parkinson ou de Alzheimer, patologias capazes de gerar danos ou interferências nas terminações nervosas que asseguram a comunicação entre o cérebro e a bexiga.

No que se refere a possíveis soluções para este problema, estas são as preconizadas por Paulo Temido:

- Treino vesical

Consiste em treinar a bexiga para aguentar uma maior quantidade de urina, durante mais tempo, diminuindo o número de idas à casa de banho. Os resultados são melhores quando é associado a medicamentos. Funciona em cerca de metade dos casos.

- Reeducação períneo-esfincteriana

Consiste em estimular aqueles músculos com vista ao fortalecimento do tónus na zona pélvica, através dos exercícios de Kegel.

- Medicamentos

O recurso a medicamentos é outra das alternativas. «Há fármacos orais que estabilizam as contrações involuntárias da bexiga, como os anticolinérgicos. Recentemente surgiu um novo, Mirabegron, igualmente eficaz e com menos efeitos secundários», explica Paulo Temido.

- Cirurgia

Também nesta situação, pode ser um recurso a considerar. «Nos casos mais difíceis, pode recorrer-se à injeção de toxina botulínica intravesical (na parede da bexiga), à neuromodulação sagrada (aplicação de um neuroestimulador da bexiga aplicado nas raízes nervosas da espinal medula), bem como outras cirurgias de maior complexidade», ilustra o urologista.

Veja na página seguinte: Como lidar com pequenas perdas ao longo do dia

«Tenho pequenas perdas ao longo do dia»

Se notar uma fuga incontrolada de pequenas quantidades de urina sem estar associada a movimentos ou à tosse e riso, pode ter incontinência por extravasamento, que ocorre quando a bexiga está permanentemente cheia e insensível devido à retenção crónica da urina. Se isto acontece, a pressão na bexiga aumenta e perde gotas de urina. «Trata-se, em bom rigor, de uma falsa incontinência pois o doente encontra-se em retenção urinária crónica», explica o especialista Paulo Temido. A principal causa «é a existência de um obstáculo à saída da urina da bexiga, situação mais frequente nos homens, habitualmente por patologia da próstata», diz.

«Mas outros problemas que diminuem a capacidade de contração da bexiga podem resultar no mesmo quadro, como o uso crónico de alguns medicamentos, traumatismos da espinal medula e lesões nervosas provocadas por esclerose múltipla ou diabetes», acrescenta ainda o especialista. No que se refere a possíveis soluções para este problema, estas são as preconizadas por Paulo Temido:

- Cirurgia

Quando a causa é uma obstrução, o tratamento passa pela eliminação cirúrgica desse obstáculo. Se o problema é a contractilidade da bexiga, «na maioria dos casos a solução é a algaliação, seja com recurso a sondas vesicais permanentes ou através de um autocateterismo vesical intermitente, uma sonda que se coloca para vazar a bexiga e que se retira após cada esvaziamento. São procedimentos comuns por falta de melhores alternativas mas que, obviamente, têm impacto na qualidade de vida», afirma o médico.

- Ginástica pélvica

Criados por Hans Kegel em 1948, estes exercícios ajudam a fortalecer os músculos do pavimento pélvico. Para os executar, o primeiro passo passa por descobrir os músculos que precisa de exercitar. Quando for à casa de banho, tente parar o fluxo de urina. São esses! O segundo passo passa por contrair esses músculos sem contrair as nádegas ou as pernas (contrair o ânus pode ajudar).

Por fim, no terceiro passo, faça estas contrações, primeiro contraindo um ou dois segundos e depois chegando até aos dez segundos de contração. Repita em séries de 30 ou 40 contrações, várias vezes por dia.

Veja na página seguinte: Outras formas de prevenção e controlo

Outras formas de prevenção e controlo

Pequenos cuidados que fazem muito pela saúde da sua bexiga:

- Urinar a cada duas ou três horas para manter a bexiga relativamente vazia.

- Evitar consumir alimentos picantes, café, álcool e bebidas com gás.

- Beber seis a oito copos de água por dia, para impedir que a urina se concentre em demasia.

- Regularizar a função intestinal.

- Controlar o peso, de forma a diminuir a pressão nos músculos abdominais e pélvicos.

- Evitar roupa difícil de abrir, sobretudo no caso da incontinência de imperiosidade.

- Usar métodos de contenção como os pensos diários próprios (de absorção mais rápida do que os pensos diários da menstruação) e roupa interior absorvente, indicada para perdas maiores de urina.

Os efeitos secundários dos medicamentos

Existem medicamentos que podem comprometer a função urinária. É o caso de alguns sedativos e hipnóticos (Diazepam), dos diuréticos de alça (Furosemida), de fármacos para a hipertensão (como os bloqueadores dos recetores alfa-adrenérgicos ou bloqueadores de canal de cálcio) e, ainda, alguns antidepressivos, antiparkinsonianos, antiespasmódicos e opiáceos. Geralmente, a situação melhora com a suspensão ou mudança da medicação.

Texto: Bárbara Bettencourt

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