As doenças mentais tornaram-se, ao longo dos anos, um verdadeiro problema de Saúde Pública. Com incidência crescente e sem previsões de melhoria, fomos pedir ajuda ao psiquiatra Medeiros Paiva para delinear o cenário do país e aconselhar os portugueses a identificar os sintomas que podem justificar a procura de ajuda e de tratamento adequado. 

Portugal é dos países da Europa aquele que apresenta as maiores taxas de prevalência de doenças mentais. “No último e único estudo epidemiológico efetuado em Portugal da responsabilidade do ex-coordenador da Saúde Mental, Prof. Doutor Caldas de Almeida, e do qual apenas temos acesso a alguns dados fornecidos pelo mesmo aquando de uma conferência de imprensa e de algumas apresentações avulso em reuniões científicas, ficamos a saber que a prevalência de doenças mentais em Portugal era de cerca de 22,9 por cento. Esta incidência está muito próxima da dos EUA, o país que apresenta uma das maiores taxa de doenças mentais do mundo: 26,4 por cento”, refere ao Jornal do Centro de Saúde, o Dr. Medeiros Paiva, psiquiatra e vogal Norte na Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental.

As perturbações psiquiátricas mais frequentes na população portuguesa são as perturbações de ansiedade (16,5 por cento) e a depressão (7,9 por cento), segundo os primeiros resultados desse estudo.

O que fazer?

Nas consultas do psiquiatra, as queixas mais frequentes passam por “sensação de angústia, medo indefinido, medo do futuro, tristeza e dores, dores generalizadas, sem explicação, não compreensíveis (que levam frequentemente a consultas médicas em excesso com pedido de análises e exames radiológicos desnecessários) ”.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera, no que diz respeito especificamente à depressão, que esta doença será, em 2020, a segunda causa de incapacidade no mundo (mesmo, no considerado terceiro mundo) e prevê que passados mais 10 anos, em 2030, ultrapassará no ranking das doenças, as cardiovasculares, passando para primeiro lugar.

“Há que fazer algo muito rapidamente. Não compete, porém, à Medicina o principal papel de estancar este contínuo aumento da prevalência das depressões quando a principal causa assenta num estilo de vida e numa hierarquia de valores que aniquila o lado humano do animal com o cérebro mais desenvolvido de todos (cem mil milhões de neurónios – a sua célula principal) ”, adianta Medeiros Paiva. 

Para o psiquiatra, é essencial “obrigar os partidos a governar em nome de valores e não de mercados para que a prevalência das doentes mentais deixem de subir. Queixarem-se do aumento exponencial do uso de antidepressivos, salientando apenas o lado economicista, é de uma menoridade intelectual e de uma ignorância confrangedora. Os mecanismos geradores do mal-estar da civilização são reconhecíveis por quem estiver atento à realidade e não seguir acriticamente os paladinos do mercado e do neoliberalismo selvagem”, critica.

Mudar hoje para melhorar amanhã

Para que a sua mente não controle a sua vida de forma negativa, existem aspectos a considerar e que muito podem fazer por si e pelos que o rodeiam. “Modificar o seu (e o dos vossos filhos) estilo e padrões de vida com uma nova maneira de hierarquizar os valores pode ser um dos primeiros passos”, aconselha Medeiros Paiva.

A solidariedade, o convívio com amigos e familiares, a natureza e o exercício físico ao ar livre, “a destrinça entre o essencial o acessório, a evitação da luta pelo ter (consumo) e da luta por ser o primeiro, pelo poder” também contribuirão para a melhoria do seu estado de espírito. A regra principal passa por “conquistar o tempo aprendendo a parar para gozar os pequenos prazeres da vida”.

Como tratar?

O tratamento depende do tipo de doença mental. “Mas generalizando, podemos afirmar, sem deturpar o sentido mais específico e ao mesmo tempo complexo do que consiste o tratamento das doenças mentais, que as mais compreensíveis e com uma causalidade predominante ambiental (psicológica ou sociológica) – reactiva - podem ser ajudadas com apoio psicoterapêutico em primeira linha (no sentido de os ajudar a lidar com os estímulos adversos) e uma intervenção farmacológica numa segunda linha (psicofármacos)”, adianta o psiquiatra.

No que respeita às doenças mentais menos compreensíveis “de predomínio endógeno ou genético, e por vezes não aceites pelo próprio doente por falta de juízo crítico, a intervenção terapêutica deve ser essencialmente farmacológica e só em segunda linha psicológica”, conclui Medeiros Paiva.

Quando procurar ajuda
Por Dr. Medeiros Paiva

- Não há sinais particulares que justifiquem a procura de ajuda de um médico especializado, isto é de um psiquiatra.

- O mais habitual acontece quando a patologia se manifesta por comportamentos e alterações das funções psicológicas de tal modo estranhas ou qualitativamente alteradas relativamente ao normal que se torna evidente a necessidade de ajuda de um especialista. São assim as doenças em que os sintomas (a nível do pensamento, do raciocínio e do juízo crítico) se mostram profundamente alterados de forma qualitativa – sintomas heterólogos.

- Já se mostra mais difícil avaliar da necessidade de ser observado e seguido por um médico especialista quando os sintomas apenas se distinguem do normal na sua intensidade (ansiedade, tristeza, medo, etc.) – sintomas homólogos.

Texto: Cláudia Pinto

A responsabilidade editorial e científica desta informação é do jornal

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