«A boca é o espelho da sua saúde», sublinha Miguel Stanley, médico dentista, segundo o qual há vários problemas de saúde, associados a diversos órgãos do nosso corpo, que podem ser identificados durante uma consulta de medicina dentária.

Algumas doenças, como a diabetes, afetam a saúde oral, mas «a própria falta de saúde oral pode, por exemplo, agravar doenças hepáticas e renais», revela o especialista.

Existem, portanto, por isso, fortes motivos para manter uma boa higiene oral e visitar regularmente o seu dentista. Mais do que por uma mera questão estética, ao respeitar estas estratégias conseguirá evitar a doença periodontal (acumulação de uma película formada por bactérias, nutrientes e saliva que calcifica e dá origem ao tártaro e que, num estádio avançado, resulta mesmo na perda de massa óssea e consequentemente da dentição) e identificar e tratar atempadamente algumas patologias que podem estar na sua origem.

Mau hálito

Pode ser sinal de vários problemas. Os mais comuns são:

- Doença gengival (inflamação da gengiva causada pela acumulação de placa bacteriana) e doença periodontal (surge na sequência de doença gengival e resulta na perda de massa óssea e na perda de dentição)

- Xerostomia (boca seca)

- Problemas gastrointestinais, como úlcera gástrica

- Problemas nos seios perinasais, como sinusite, faringite, amigdalite crónica

- Outras doenças, como cancro da boca e faringe, insuficiência renal, doenças do fígado

Em situações de mau hálito, consulte um dentista antes de avançar para a compra de produtos que, em alguns casos, se limitam a mascarar o mau odor temporariamente. «O mau hálito pode ter três origens: gastrointestinal, oral ou perinasal», explica Miguel Stanley. Aposte, por isso, numa boa higiene oral.

A acumulação de placa bacteriana contribui para o mau hálito e promove o aparecimento de cáries que alojam bactérias e gases fétidos. Consulte um dentista/ higienista para realizar uma higienização oral. Se o problema persistir, «provavelmente terá de ser observada por um cirurgião maxilo-facial, um otorrinolaringologista ou um gastrenterologista», de forma a identificar e tratar as doenças que estão na origem do mau hálito, explica Miguel Stanley.

Boca seca (xerostomia)

Pode ser sinal de vários problemas. Os mais comuns são:

- Desidratação

- Efeito secundário da toma de medicação como anti-histamínicos, diuréticos, descongestionantes, analgésicos

-
Diabetes (associada a outros sintomas como necessidade de urinar muitas
vezes, sede intensa, fome constante, fadiga, comichão no corpo e visão
turva)

- Doença autoimune, como síndrome de Sjögren (em que o sistema imunológico ataca as glândulas produtoras de lágrimas e saliva)

A xerostomia ocorre quando diminui o fluxo de saliva, essencial para que os resquícios de alimentos sejam eliminados e a boca se mantenha limpa, aumentando o risco de doença periodontal e cáries. Para identificar a origem do problema e a melhor solução para o seu caso, deve «recorrer a um dentista especialista em patologia oral», salienta Miguel Stanley, que aconselha ainda reforçar os cuidados com a higiene oral.

A American Academy of Oral Medicine recomenda beber-se pelo menos um litro e meio de água por dia, reduzir a ingestão de doces, de cafeína e de bebidas gaseificadas, que têm uma ação diurética. As pastilhas ricas em xilitol estimulam a salivação e não provocam cáries. Existem também hidratantes orais que atuam como substitutos de saliva. Aconselhe-se com o seu médico dentista.

Aftas

Podem ser sinal de vários problemas. Os mais comuns são:

- Saúde oral precária
- Elevados níveis de stresse
- Carência de vitaminas do complexo B
- Lesão traumática (como mordedura da bochecha)
- Cancro oral

Procure um médico dentista se este tipo de lesão surge
frequentemente (o que pode denunciar uma saúde oral precária) ou se dura
há mais de uma semana, de forma a despistar o que está na origem da
afta. Pode ser necessário realizar-se uma biopsia. Adote uma eficaz e regular higiene oral, assim como uma alimentação
variada e saudável, rica em alimentos do complexo B (ovos, fígado,
produtos lácteos e cereais integrais, por exemplo).

«Para tratar as aftas são importantes os bochechos regulares com um
antissético, como a clorohexidina. A nível medicamentoso, podem ser
usados os corticoides (anti-inflamatórios com uma ação local) assim
como a betametasona e o clobetazol, todos eles mediante prescrição
médica», elucida Miguel Stanley.

Língua pálida

Pode ser sinal de carência de ferro, de anemia ou da presença de um
fungo (candida albicans). Se nunca teve a língua branca e esta assumiu
esta cor, durante mais de quatro a seis dias, deve procurar um médico
dentista.

«As pessoas esquecem-se que também devem escovar a língua para
eliminar os detritos alimentares que possam ficar retidos», alerta o
especialista. Miguel Stanley aconselha bochechos com um desinfetante
adquirido na farmácia, sem álcool e com clorohexidira ou triclosan.

Alteração do paladar

Problemas do sistema nervoso, insuficiente ingestão de vitaminas e
oligoelementos, assim como o tabagismo podem estar na sua origem.
Segundo a American Dental Association, alguns fármacos como
anti-inflamatórios ou substitutos da nicotina podem afetar o paladar.
«Além disso, a alteração do paladar também pode surgir na sequência de
trauma do nervo dentário inferior, uma situação que pode ocorrer após um
tratamento cirúrgico, como a colocação de implantes», exemplifica o
especialista.

As suas gengivas sangram?

Se respondeu positivamente a esta questão, a sua higiene oral não é eficaz. A
gengivite (inflamação da gengiva que sangra quando se escovam os
dentes) é causada pela acumulação de placa bacteriana, o que pode ser
controlável através de uma escovagem correta e pelo uso de fio dentário.
Assim, ao contrário do que possa pensar, deve lavar a zona que sangra,
posicionando as cerdas da escova de dentes dentro da gengiva. Não escove
os dentes na posição vertical, pois estará a empurrar placa bacteriana
para dentro da gengiva.

Calendário da higiene oral

Ponha em prática este guião para manter a sua boca e o seu organismo à prova de doença.

- Duas vezes por dia (de manhã e à noite)

Deve usar a escova de dentes durante dois minutos, em movimentos circulares ou
vaivém. Prefira uma escova média ou suave e substitua-a a cada três
meses. Se tiver tendência para cáries use uma pasta com maior teor em
flúor e, se tiver problemas gengivais, uma rica em componentes
anti-inflamatórios.

Para eliminar as bactérias da língua, use a sua escova de dentes ou experimente um raspador de língua, um utensílio que pode adquirir facilmente em qualquer hipermercado, farmácia ou parafarmácia.

- Uma vez por dia

A fita dentária é ideal para retirar os restos de alimentos nos espaços entre os
dentes, abrange uma maior superfície do dente, do que o fio dentário.
Prefira fitas enceradas. Quando existem espaços grandes entre os dentes, onde o fio dentário
não é eficaz, terá de usar um escovilhão. Se puder, use-o também ao
almoço. Use ainda uma fórmula de elixir rica em flúor, bochechando durante um minuto e sem passar por água.

- De três em três meses

Se tem doença periodontal, próteses fixas ou  implantes visite o
higienista para uma vigilância mais apertada (caso seja necessário, será
reencaminhado para o médico dentista).

- De seis em seis meses

Visite o higienista. Caso seja necessário, será reencaminhado para o médico dentista.

Texto: Fabiana Bravo com Miguel Stanley (médico dentista)