Livre-se do excesso de peso, pratique exercício, ingira alimentos de origem vegetal com qualidades protectoras e evite o álcool. Assim, vai reduzir ao máximo a probabilidade do seu peito adoecer. E não esqueça as palpações periódicas! A incidência do cancro da mama triplicou nos últimos 50 anos. Suspeita-se que inúmeros fatores ambientais, como a alimentação, possam ter influência na maioria dos casos, mas ainda não foram identificados os agentes responsáveis pelo aparecimento da doença.

Por outro lado, pese embora as medidas de prevenção contra o cancro da mama tenham um impacto limitado, há sempre algo a fazer para diminuir o risco. Optar por um estilo de vida saudável, sem tabaco, com exercício e bons hábitos, é a melhor opção. Mas existem outros fatores e outras situações a ter em conta:

1. Maior risco genético exige mais controlo

As mulheres com antecedentes da doença em familiares (mesmo em primeiro grau) não são necessariamente doentes com risco aumentado, mas devem, ainda assim, estar particularmente atentas à sua saúde. Entre 5 e 8% dos cancros da mama são hereditários. «Estão associados a uma alteração genética e a um tipo especial de cancro da mama, chamado tumor de células basais», explica Pelicano Borges, médico da Sociedade Portuguesa de Senologia.

«Quando uma mulher é operada e é detetado este tipo de tumor (através do estudo do tecido extraído na operação), é imediatamente orientada para uma consulta de doentes de risco onde é estudada e, se necessário, também a família», refere.

«Este estudo inclui um exame genético (consiste numa análise ao sangue), para verificar se tem mutações nos genes que predisponham a adoecer, e calcular o risco de aparecimento do tumor em familiares. Face a este cálculo, decide-se o tipo e a frequência de vigilância a efetuar», revela ainda Pelicano Borges.

2. As desvantagens da gravidez tardia

Outro dos fatores habitualmente relacionados como cancro da mama é o reprodutivo. A maior parte dos estudos efetuados no início do século XX apontava o dedo à menarca precoce (primeira menstruação) e à menopausa e gravidez tardias como elementos potencialmente desencadeadores da doença. Contudo, de acordo com Pelicano Borges, «hoje sabemos que havia desvios nesses estudos e que estes fatores não têm a importância que lhe era atribuída», sublinha.

3. Sim ou não à terapia hormonal de substituição?

A comunidade científica não está de acordo quanto aos benefícios e malefícios da terapêutica hormonal de substituição, o tratamento usado para controlar os sintomas da menopausa. Há estudos que revelam um ligeiro aumento da incidência do cancro da mama, após mais de cinco anos de terapêutica, e outros que mostram uma ligeira diminuição dessa mesma incidência.

Pelicano Borges revela que «são estudos feitos em países diferentes ou em realidades diferentes e não se sabe ao certo se essas diferenças terão importância». O que se sabe é que «todos tratamentos têm uma indicação precisa e uma aplicação específica, por isso só se deve realizar terapêutica hormonal de substituição quando os benefícios forem superiores aos malefícios», recomenda o médico.

Entre os seus benefícios destacam-se o controlo dos afrontamentos severos e a melhoria da saúde óssea. De qualquer modo, «uma mulher a realizar esta terapêutica e que apresente mamografia e ecografia mamária normais deve manter a vigilância em relação ao cancro da mama própria da idade», recomenda ainda.

Veja na página seguinte: A periodicidade recomendada para realização das mamografias

4. Mamografias a partir dos 40 anos

A radiografia da mama é um bom método para a detecção precoce e, tal como a ressonância magnética, melhorou significativamente o prognóstico da doença. Até há bem pouco tempo, contudo, temia-se que a irradiação do peito pudesse constituir um fator de risco acrescido.

Porém, «com as novas tecnologias, quer a nível de aparelhagem, quer a nível de películas de radiografia, a radiação é tão baixa que o aumento do risco não é significativo», assegura Pelicano Borges. Quanto à periodicidade recomendada, segundo o senologista, «neste momento o que está internacionalmente aceite é uma mamografia bienal entre os 40 e os 50 anos e, depois até aos 65 anos, uma mamografia anual», refere.

5. Autopalpação e palpação

Uma vez que não tem qualquer tipo de contraindicação, é geralmente recomendado às mulheres em idade fértil fazerem a autopalpação do peito mensalmente, após cada menstruação, e às mulheres pós-menopáusicas, uma vez por mês. Para aprender a fazer a autopalpação corretamente, Pelicano Borges aconselha a mulher a «realizá-la frente ao seu médico, que a deverá corrigir e explicar o que sente durante o exame, e ensiná-la a distinguir o que é normal do que não é».

Também é importante ir ao médico uma vez por ano, para fazer um check-up completo, que deverá incluir a medição da tensão arterial, análises ao sangue e ao colesterol e todos os outros exames que o seu médico possa considerar relevantes.

6. Quando os sinais de alarme surgem

Não há tempo a perder. É importante ir ao médico o quanto antes, se notar a presença de um nódulo, uma ruborização ou retração da pele ou alterações no mamilo com algum tipo de secreção, por muito pequenas ou inofensivas que lhe pareçam. Antes de entrar em pânico, lembre-se, que embora seja recomendável vigiar de perto qualquer alteração no peito, só o seu médico sabe valorizar os sinais, e perceber se são de alarme ou não. Lembre-se também que, atualmente, são mais frequentes as histórias de cancro da mama com final feliz do que as com desfecho fatal.

7. Excesso de peso é o inimigo número um

Na verdade, o excesso de peso é o inimigo número um de quase todas as doenças modernas. No caso do cancro da mama, o facto de a mulher reter maior quantidade de gordura no corpo após a menopausa poderá ter influência no aparecimento do cancro da mama, uma vez que os estrogénios (hormonas femininas) acumulam-se na gordura e são libertados mais lentamente e durante mais tempo.

Mas ainda não se sabe ao certo a importância deste fator. O que se sabe é que a obesidade está presente muitas vezes no cancro da mama, mas também há doentes magras com cancro da mama.

8. Aleitamento materno é uma prática saudável

O aleitamento de longa duração diminui levemente o risco de cancro da mama enquanto a mulher se encontra em idade fértil. A explicação? «Na biologia, há uma verdade importante a reter. Um órgão mantém-se saudável se cumprir a sua função. Logicamente que, tendo sido a mama criada para amamentar, se cumprir a sua função diminui o risco», explica ainda Pelicano Borges.

Veja na página seguinte: A importância de um estilo de vida saudável

9. A importância de um estilo de vida saudável

Tome nota das medidas de carácter geral que melhoram o estilo de vida e, portanto, protegem contra diversos tipos de doença, incluindo o cancro da mama:

- A fibra trava a gordura

Esta componente vegetal não está relacionada diretamente com o cancro da mama, mas as pessoas que ingerem mais fibra vegetal costumam incluir menos gordura animal na sua alimentação, o que faz com que o seu índice de massa corporal seja menor. Para reduzir o excesso de gordura corporal, é imprescindível reduzir o consumo de calorias. As gorduras dos alimentos são uma das componentes mais calóricas da alimentação.

- Evite o excesso de álcool a todo o custo

Consumir bebidas alcoólicas aumenta o risco de padecer de um tumor mamário. A recomendação é não beber mais de um a dois copos pequenos de álcool por dia. Pelicano Borges explica porquê. «O nosso organismo está preparado para transformar os alimentos que ingerimos em combustível».

«Enquanto a maioria dos alimentos dá origem a outros elementos alem do combustível [vitaminas, proteínas, sais minerais e resíduos como os das fezes], o álcool dá origem unicamente a combustível, combustível em excesso que o corpo não consome imediatamente e, portanto, armazena sob a forma de gordura», acrescenta.

- O exercício físico é um grande protetor

Um recente estudo norte-americano demonstrou que as pacientes que faziam uma atividade física de mais de cinco horas por semana reduziram em 20% o risco de desenvolver cancro da mama invasivo e menos 31% de padecer de cancro em fase precoce, comparativamente com as pacientes que treinavam menos de 30 minutos semanais. Estes resultados podem dever-se, em parte, à influência que o exercício tem no controlo do peso.

- Fim às gorduras saturadas

O consumo elevado de gorduras saturadas, provenientes das carnes vermelhas, do leite gordo e seus derivados, dos enchidos e de outros alimentos, aumentam  a probabilidade de desenvolver um tumor cancerígeno. Os especialistas acreditam que os casos de cancro da mama diminuam com a redução da ingestão de gordura (sobretudo animal) para 20% do total das calorias diárias, e seguindo um estilo de vida mais são. Por essa razão, tem muitos motivos para colocar um ponto final na ingestão de gorduras saturadas.

- Diga não aos alimentos processados

Se consumir estes produtos regularmente, o risco de cancro da mama também pode aumentar. Isto acontece por causa dos métodos utilizados na sua cocção (em escabeche, fumados e por aí fora), e por serem uma fonte de radicais livres de oxigénio ou de nitrogénio, substâncias promotoras de tumores pelos danos irreversíveis que provocam no ADN ou código genético.

- O azeite virgem é um grande aliado

A alimentação é um dos fatores que não deve descurar. Diversos estudos efetuados em Espanha, Grécia e Itália concluíram que risco de desenvolver cancro da mama diminui quando se comparam mulheres que ingerem azeite virgem às que consomem outro tipo de óleos ou gorduras. De acordo com outro trabalho, elaborado no Instituto de Investigação para a Saúde de Chicago nos EUA, o ácido oleico, principal componente do azeite, reduz até 46% a expressão de um dos oncogenes relacionados com os tumores mais agressivos da mama.

Veja na página seguinte: A ajuda que a soja pode dar

10. A soja pode ajudar

A reduzida taxa de incidência de cancro da mama entre a população feminina asiática é atribuída, em parte, ao consumo de soja, cujos fitoestrogénios (hormonas vegetais) parecem protegê-la do risco. De acordo com Pelicano Borges, «houve um ensaio clínico que decorreu nos EUA e noutros países europeus, entre os quais Portugal, para estudar os efeitos da soja sobre o cancro da mama, mas o estudo nunca foi publicado, porque as variações foram tantas que não foi possível chegar a um resultado».

Ao que parece, «a libertação dos fitoestrogénios é de tal modo influenciada pela restante alimentação que, em alguns casos, é benéfica enquanto noutros é prejudicial. O que acontece na Ásia é que o tipo de alimentação favorece a utilização da soja. Em Portugal, ficou demonstrado que o benefício é nulo, devido ao tipo de alimentação que temos», regista o senologista.

Como se cura o cancro da mama

O cancro da mama tem cura na esmagadora maioria dos casos. Segundo Pelicano Borges, «atualmente, a taxa de cura no Hospital de São João, no Porto, ronda os 95%, dependendo da evolução da doença aquando do diagnóstico (piora nos casos mais agressivos e melhora nos casos mais precoces)», afirmou em 2013. Entende-se por cura estar livre da doença ao fim de dez anos do aparecimento do tumor ou falecer por outra causa.

5 avanços na área do cancro da mama:

1. Cirurgia conservadora

É tão eficaz como a mastectomia radical (que consiste em remover toda a mama), mas retira apenas o tumor e deixa a mama inteira, melhorando a qualidade de vida da mulher. Actualmente, é o procedimento standard, assegura Pelicano Borges. «Quando o tamanho do tumor ou da mama não permite um resultado esteticamente aceitável, realiza-se quimioterapia primária para reduzir o volume tumoral e permitir a cirurgia conservadora», explica.

2. Gânglio sentinela

Esta técnica consiste em injectar um colóide radioativo ao lado do mamilo, identificar o primeiro gânglio da axila e removê-lo para verificar o seu estado. Se estiver afectado, retiram-se os outros, e se estiver saudável, os demais ficam intactos. Assim, evita-se intervir na axila de um grande número de mulheres, libertando-as de vários transtornos, como o típico inchaço no braço (linfedema pós-mastectomia). Este é também um procedimento standard.

3. Inibidores da aromatase

Estes fármacos hormonais, que bloqueiam a enzima aromatase que favorece a produção de estrogénios, melhoram o prognóstico da doença.

4. Quimioterapia

Os taxanos, bloqueadores do crescimento celular, melhoraram o prognóstico e elevaram a taxa de sobrevivência quando administrados após a cirurgia.

5. Anticorpos monoclonais

O tratamento com o princípio ativo trastuzumab pressupõe um grande benefício para as mulheres afetadas por um dos tumores mais agressivos, que representa 20% do total. Esta terapêutica tem um espectro de aplicabilidade muito específico.

Veja na página seguinte: Como examinar os seus seios

Como examinar os seus seios

Estas são algumas das recomendações extraídas das associações médicas americanas e europeias:

Observação

1. À frente de um espelho, com os braços estendidos ao longo do corpo, observe a simetria das suas mamas, contorno, tamanho e pele. Procure zonas avermelhadas, escamas, altos, e veja se os mamilos estão retraídos.

2. Repita a operação, mas com os braços sobre o pescoço, o que fará com que os seus seios também subam um pouco. Nessa posição, verifique se não existe nenhum alto ou covinha.

É importante que a mama se mexa para poder identificar alterações. Se a pele estiver apanhada (formar uma covinha), vai ser mais fácil identificar a lesão com os movimentos da mama, movimentos que a pele não acompanha.

Palpação

Pode fazer a palpação quando estiver no duche ou deitada na cama com uma almofada debaixo do ombro correspondente ao seio que vai examinar, ou então, de barriga para cima, com um braço por trás da cabeça. Para o fazer, use a mão contrária à mama que vai palpar. Convém repetir a palpação deitada e em pé:

1. Efetue movimentos circulares desde a parte mais externa da mama em direcção ao mamilo, com os três dedos centrais.

2. Também pode realizar um movimento radial, começando no mamilo e avançando para fora.

3. Outra opção é tocar o seio com os dedos de um lado ao outro, de maneira a que o percurso forme um S.

4. Outra possibilidade de descobrir anomalias é movimentando os dedos de cima para baixo, examinando todo o seio.

5. Por último, comprima ligeiramente o mamilo e verifique se produz alguma secreção e, se assim for, identifique a sua coloração.

Não há um método único de palpação. Cada mulher deve adaptar-se à sua realidade. O fator importante e que facilita a palpação é a facilidade com que a mão escorrega sobre o peito. Por isso se fala, cada vez mais, na palpação feita no chuveiro. O peito e a mão ensaboados (ou com creme) facilitam a palpação. Outro factor relevante é o modo de palpação. O peito deve ser palpado contra as costelas, procurando a uniformidade da mama e nunca com os dedos tipo pinças, pois altera a perceção.

O peso da idade

Entre todos os fatores de risco relacionados com o cancro da mama, o mais importante e estatisticamente mais significativo é a idade, que, infelizmente, não pode ser modificado. De acordo com Pelicano Borges, «apesar da melhoria técnica dos métodos de deteção, a par da melhoria dos conhecimentos da população e do pessoal de saúde, ter feito diminuir a idade de diagnóstico em cerca de 10 anos, o pico da pirâmide etária encontra-se entre os 45 e 55 anos, onde são diagnosticados cerca de 60 a 70% dos cancros da mama».

Ainda assim, independentemente da idade, «ao diminuir os outros factores de risco que são modificáveis [aqui enumerados], é possível melhorar a vida das mulheres em todos os aspetos, diminuindo também a probabilidade de desenvolver cancro. Lembre-se que uma vida saudável é uma vida melhor e com menos risco de doença», remata o senologista.

Texto: Fernanda Soares com revisão científica de Pelicano Borges (médico da Sociedade Portuguesa de Senologia)

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