Segundo as previsões dos especialistas, em 2040 teremos perto de 30 milhões de doentes oncológicos à escala global. São números pesados, particularmente por estarem associados a uma doença que desperta os nossos maiores temores. Há, contudo, uma mensagem de esperança: os avanços na ciência e medicina revelam-se determinantes na prevenção e no tratamento da doença.

Fundadas nesta mensagem de esperança, Marta Carriço, nutricionista na Fundação Champalimaud, e Catarina Sousa Guerreiro, especialista em Nutrição Clínica e professora associada na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, oferecem aos escaparates o livro Comer para Prevenir e Enfrentar o Cancro (edição Manuscrito). Um guia, ancorado em estudos científicos, que vê na alimentação uma das melhores armas para prevenir e tratar a doença. Pretexto para mantermos uma conversa com as autoras a quem, em jeito de preâmbulo à entrevista, pedimos que nos descrevessem o objetivo da obra: “surge da necessidade de querermos desconstruir uma série de mitos e desinformação associada à nutrição e ao cancro e resulta na experiência no acompanhamento de pessoas que têm ou que querem prevenir o cancro e nos projetos de investigação que desenvolvemos”.

“Queremos com o nosso livro ajudar todos aqueles que são invadidos com a palavra cancro na sua vida e que querem perceber, o que a ciência nos tem vindo a mostrar sobre a alimentação neste contexto”. Está dado o mote à conversa.

Alertam no vosso livro para a tendência crescente no número de casos de cancro nas décadas que se avizinham. Sublinham que o número será avassalador. Que razões concorrem para esta subida acentuada?

Catarina Sousa Guerreiro - Existem várias hipóteses para este crescimento avassalador. Não só a medicina tem evoluído consideravelmente nas últimas décadas, o que tem permitido diagnosticar mais precocemente e eficazmente o cancro, como o nosso estilo de vida e o ambiente que nos rodeia, de forma geral, se tem vindo a modificar e não para melhor. Sabemos hoje que uma alimentação desajustada, o aumento do número de casos de obesidade, baixos níveis de atividade e o sedentarismo são fatores de risco para cancro. E, estes fatores são passíveis de ser alterados favoravelmente. Estão nas nossas mãos.

No vosso livro citam Paracelso: “Tudo é veneno e, mesmo sem veneno, apenas a dose faz uma coisa não ser veneno”. Nesta perspetiva, até mesmo aquilo que nos faz bem, pode ser prejudicial ao organismo em doses imoderadas. O que devemos ter em conta para encontrar o ponto ótimo?

Catarina Sousa Guerreiro - Sim, sem dúvida e percebemos isso facilmente se pensarmos num medicamento: doses ajustadas podem ter benefício e doses muito aumentadas, podem levar a toxicidade. Neste ponto, sem dúvida, queremos reforçar a importância da moderação. A Dieta Mediterrânica leva-nos, por exemplo, a um equilíbrio de alimentos e nutrientes que tem demonstrado inúmeros benefícios, no contexto do cancro. Por exemplo, se comermos 20 quilogramas de cenoura por dia, podemos incorrer no risco de excesso de vitamina A. Tem tudo a ver com o equilíbrio. Por isso mesmo, não só explicamos como seguir uma dieta mediterrânica, como incluímos uma ferramenta que permite às pessoas avaliarem o quão próximas ou distantes estão de um padrão alimentar mediterrânico.

“Uma alimentação desajustada, a obesidade e o sedentarismo são fatores de risco para cancro”
Marta Carriço. créditos: Manuscrito

Como podemos definir um corpo sob “stress” e como se manifesta esta pressão?

Marta Carriço - Existem muitos fenómenos que podem comprometer o equilíbrio do nosso corpo. O nosso corpo lida diariamente com uma série de agressões que podem vir do exterior, por exemplo, um vírus que entra no nosso corpo, ou podem surgir do interior do nosso corpo quando este acumula compostos nocivos. Quando o nosso corpo não tem acesso a elementos fundamentais para proteger-se ou reparar estragos causados, podemos dizer que o corpo está em “stress”. Neste livro explicamos alguns dos processos que podem por o nosso corpo em “stress” e explicamos a importância da alimentação neste contexto. É através dos alimentos que o nosso corpo recebe um série de compostos, como vitaminas, que lhe permite poder proteger-se destas agressões e reparar danos, por exemplo. Mais, pelo contrário, uma alimentação desequilibrada pode também colocar o corpo em “stress”, ou por falta ou por excesso de nutrientes.

“O cancro não quer ver ninguém bem. É o maior filho da mãe que anda por aí, mas os teimosos não se resignam” – Marine Antunes
“O cancro não quer ver ninguém bem. É o maior filho da mãe que anda por aí, mas os teimosos não se resignam” – Marine Antunes
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Que dados sustentam a associação entre o aumento dos casos de obesidade ao aumento de cancros?

Catarina Sousa Guerreiro - O crescente número de casos de obesidade e de cancro, levantou a questão sobre se a obesidade poderia ser um fator de risco para cancro. Hoje sabe-se que sim, a obesidade pode aumentar o risco de 13 tipos de cancro, como o cancro da mama e do cólon e reto – os cancros mais prevalentes em Portugal. A ciência tem-nos vindo a mostrar que o excesso de gordura corporal, promove um aumento de inflamação e alterações hormonais, entre outros, o que faz com que o corpo fique mais suscetível a sofrer erros que, em última instância, podem conduzir a cancro. Isto é extremamente preocupante, considerando que 57% dos portugueses têm peso a mais.

E, por isto, neste livro não só explicamos o impacto da obesidade no cancro, como partilhamos algumas estratégias para diminuir o risco de vir a ter peso a mais.

A Dieta Mediterrânica leva-nos, por exemplo, a um equilíbrio de alimentos e nutrientes que tem demonstrado inúmeros benefícios, no contexto do cancro.

Em concreto e no que respeita ao cancro, à sua prevenção e tratamento, prevalece a desinformação no que toca à alimentação? Podem dar-nos alguns exemplos desta desinformação?

Marta Carriço - Claro, não será difícil. Um dos alimentos mais temidos é o açúcar. O açúcar por si só não aumenta o risco de cancro, mas claro que consumido em excesso pode aumentar o risco de obesidade e trazer as complicações que falávamos há pouco. Mais, os produtos lácteos fazem frequentemente parte dos alimentos mais temidos; porém à data de hoje, a evidência mostra-nos que o consumo moderado de lacticínios é protetor para alguns tipos de cancro.

A água e a dieta alcalina são constantemente apontadas como benéficas para prevenir e tratar a doença com intuito de alterar o pH do sangue (torná-lo mais alcalino). Porém, esta teoria deixa muito a desejar e promete o que não é possível.

Os suplementos alimentares são também muitas vezes considerados como aliados contra o cancro, mas por vezes são até inimigos, por levar a doses exageradas ou interagirem com medicação, por exemplo.

Como pode perceber poderíamos continuar facilmente. E daí a necessidade que sentíamos de ter este livro para podermos explicar isto e mais às pessoas que se querem proteger contra o cancro ou estão a passar por um.

O açúcar por si só não aumenta o risco de cancro, mas claro que consumido em excesso pode aumentar o risco de obesidade e trazer as complicações.

Por que razão a Dieta Mediterrânica é a mais eficaz na prevenção do cancro, entre outras doenças crónicas?

Catarina Sousa Guerreiro - Para começar, a Dieta Mediterrânica é muito mais do que uma dieta, mas sim um modo de vida. Contempla, para além dos alimentos, o descanso, o convívio, a atividade física, a partilha de tradições culinárias e das refeições, fomentando assim hábitos mais saudáveis. No que diz respeito aos alimentos, a Dieta Mediterrânica tem na sua base alimentos como a fruta, os hortícolas, os cereais integrais e as leguminosas, alimentos ricos em fibra, vitaminas e minerais essenciais ao nosso corpo e que têm função antioxidante. Este padrão alimentar dá ainda preferência ao consumo de alimentos ricos em gorduras vegetais, como o azeite, frutos oleaginosos (como as nozes, entre outras) e peixes gordos que desempenham funções anti-inflamatórias. Por outro lado, promove o consumo regrado de carne vermelha e processada, bem como produtos açucarados; promovendo assim um equilíbrio "quase perfeito".

“Uma alimentação desajustada, a obesidade e o sedentarismo são fatores de risco para cancro”
Catarina Gonçalves créditos: Manuscrito

O vinho é um dos alimentos que encontramos na Dieta Mediterrânica. Não será sensato evitar o consumo de vinho?

Marta Carriço - Essa é uma pergunta extremamente pertinente e que tem inclusive gerado muita controvérsia entre investigadores. O vinho tinto enquadra-se no grupo das bebidas alcoólicas e o álcool está bem identificado como um fator de risco para o cancro do cólon e reto, fígado e estômago. Para além disso, o vinho tinto encontra-se contemplado num dos padrões alimentares mais saudáveis e, por isso, em que é que ficamos? O que acontece é que o vinho tinto tem uma série de fitoquímicos (os químicos das plantas), como o resveratrol que induzem respostas positivas no nosso corpo, pelo que o seu consumo às refeições e moderado (até 125mL para as mulheres e até 250mL para os homens por dia), parece conferir proteção. Porém, seguindo as orientações da Organização Mundial da Saúde, que recomenda um maior restrição no consumo de bebidas alcoólicas, podemos ir um pouco mais além e sugerir a inclusão frequente de uvas pretas, com casca, na alimentação para obter os mesmos benefícios, eliminando o álcool da equação e deixando o vinho tinto para ocasiões especiais e fora da rotina diária.

Existe uma relação direta entre o consumo de carnes vermelhas e alguns tipos de cancro?

Catarina Sousa Guerreiro - Sim, cancro do cólon e reto por exemplo. Mas esta relação rege-se pelo consumo excessivo. Um consumo de carne vermelha na ordem das 350 a 500 gramas por semana não acarreta um risco aumentado para cancro. Temos mais que nos preocupar com as carnes processadas (como as salsichas, chouriço, salpicão), pelo que devemos preferi-las apenas em momentos festivos e deixá-las de fora da nossa rotina.

Havendo vantagens óbvias na adoção de uma dieta e estilo de vida Mediterrânicos, enraizados na nossa matriz cultural, encontram uma explicação para insistirmos, à mesa, em alimentos processados e ultraprocessados?

Marta Carriço - Tudo parece indicar que sim e é fácil para nós, mesmo enquanto nutricionistas, percebermos isto. Mas a ciência também nos mostra que a falta de competências culinárias aumenta a probabilidade na preferência por alimentos processados. Quando não sabemos como cozinhar e organizar a ementa da semana, o processo de cozinhar ao fim de um dia agitado, torna-se um processo fastidioso, e pensamos que encomendar as refeições ou preferir refeições pré-feitas é mais rápido e fácil, mas nem sempre o é. Daí também a Dieta Mediterrânica salientar a importância da partilha de tradições culinárias, para que as futuras gerações tenham acesso a costumes e práticas alimentares mais saudáveis.

“Uma alimentação desajustada, a obesidade e o sedentarismo são fatores de risco para cancro”
créditos: Manuscrito

Trazem ao vosso livro uma lista de dietas restritivas, atualmente na moda. Porquê?

Marta Carriço - Porque essa é uma das questões mais frequentes nas nossas consultas. Após o diagnóstico de cancro, as pessoas querem muitas vezes saber se devem praticar alguma delas [dieta alcalina, dieta cetogénica e dieta do jejum]. Incluir essas questões no livro permite que a nossa resposta chegue fora das portas dos nossos gabinetes. Queremos esclarecer essas dúvidas a um maior número possível de pessoas e garantir que as pessoas não põem em risco a sua saúde, numa fase crítica.

Quando existe um diagnóstico de cancro, o nosso maior conselho é, em primeiro lugar, confiar na equipa clínica que o acompanha e com ela esclarecer as questões.

Que conselho dariam a quem procura mais informação a propósito do tema que trazem para o vosso livro? Informação, naturalmente, acessível ao leigo.

Catarina Sousa Guerreiro - Quando existe um diagnóstico de cancro, o nosso maior conselho é, em primeiro lugar, confiar na equipa clínica que o acompanha e com ela esclarecer as questões. Nesta fase, é frequente existirem inúmeras dúvidas sobre o que pode ou não comer e muito provavelmente nas consultas médicas pode não encontrar o tempo, nem o profissional mais indicado para lhe esclarecer essas questões. Peça para falar com o nutricionista da equipa, caso não o conheça ainda. Não hesite em fazer perguntas para ficar mais seguro daquilo que deve fazer. Por outro lado, apesar de muitas vezes inspiradores, os livros com relatos individuais de como determinado alimento/comportamento tratou o cancro ou dietas altamente duvidosas que prometem milagres, consciencializar-se que serão muito provavelmente falsas. Por fim, lerem o nosso livro poderá ser uma boa ajuda. Sem floreios nem devaneios, a informação que ali escolhemos colocar é ao dia de hoje a mais cientificamente válida.

Entrevista concedida por escrito em maio de 2022.

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