A diretora executiva, Laurência Gemito, e o presidente do conselho clínico e de saúde do ACES Alentejo Central, António Matos, demitiram-se hoje por não concordarem com a mobilização de médicos para o lar de Reguengos de Monsaraz, onde se localiza um surto de COVID-19 que já causou 12 mortes, informa a RTP.

A diretora executiva do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) do Alentejo Central, Maria Laurência Gemito, revelou hoje ter-se demitido formalmente do cargo, alegando que vai voltar a lecionar na Universidade de Évora (UÉ). “Apresentei a minha demissão formal. Pedi hoje ao presidente da Administração Regional de Saúde do Alentejo [José Robalo] para deixar as minhas funções enquanto diretora executiva do ACES porque pretendo assumir o meu cargo de professora-coordenadora na UÉ”, disse à agência Lusa a responsável.

Maria Laurência Gemito acrescentou que, uma vez que o conselho clínico do ACES é escolhido pelo diretor executivo que estiver em funções na altura, segundo a legislação, a sua saída do cargo implica que os quatro elementos deste órgão “também saiam”.

“Eles não precisaram de apresentar demissão. Atendendo a que eu saio e que os quatro membros do conselho clínico foram nomeados por mim, automaticamente saem comigo”, precisou a enfermeira.

Depois de a Administração Regional de Saúde (ARS) do Alentejo confirmar a suspensão das férias, até à próxima sexta-feira, de todos os médicos, enfermeiros e outros prestadores de cuidados primários do distrito de Évora devido a este surto da doença, o Sindicato Independente dos Médicos (SIM) exigiu a revogação imediata da medida.

A presidente da sub-região de Évora da Ordem dos Médicos, Augusta Portas Pereira, considerou “abusiva” e sem “suporte legal” a decisão da ARS de destacar médicos deste ACES para o lar de Reguengos de Monsaraz.

Já o Sindicato dos Médicos da Zona Sul denunciou no domingo o que disse ser, por parte da ARS, uma “mobilização forçada de médicos” do ACES do Alentejo Central, do Hospital do Espírito Santo de Évora e da Unidade Local de Saúde do Norte Alentejano para o combate à doença no lar de Reguengos de Monsaraz.

Laurência Gemito escusou-se a abordar o surto de Reguengos de Monsaraz em declarações à Lusa, vincando que a sua demissão se deve “a motivos pessoais e profissionais” ligados ao regresso à UÉ, mais precisamente à Escola de Enfermagem S. João de Deus, onde leciona desde 2001. “A minha nomeação como professora-coordenadora foi publicada em Diário da República em março e era para ter saído na altura, mas não saí, atendendo à situação que se vivia. Os últimos tempos têm sido desgastantes, com todo o trabalho à volta da covid-19, e com o aproximar do ano letivo preciso de tempo para preparar o meu regresso. Está na altura de sair”, insistiu.

Na sua página na Internet, o Sindicato Independente dos Médicos aludiu hoje a estas demissões e manifestou solidariedade para com os colegas, afirmando esperar que “o presidente da ARS Alentejo por fim revogue as orientações ilegais que emitiu”.

O SIM reproduz também a mensagem enviada por Maria Laurência Gemito e António Matos, presidente do conselho clínico e de saúde, aos profissionais do ACES Alentejo Central, que “tem estado na ribalta nos últimos dias por causa do problema dos idosos de Reguengos de Monsaraz e da desastrosa gestão que a ARS Alentejo está a fazer da questão”.

“Pelo respeito que temos por todos vós, não queremos deixar de vos informar de uma decisão tomada por nós, diretora executiva e conselho clínico e de Saúde do ACES Alentejo Central, na passada sexta-feira, em reunião conjunta e que acabámos de formalizar, apresentando o nosso pedido de demissão superiormente, com efeitos imediatos”, refere a mensagem, citada pelo SIM.

O número de casos ativos do surto de COVID-19 de Reguengos de Monsaraz estabilizou hoje em 141, apesar da deteção de três novos casos, dois na comunidade e um numa funcionária do lar, informou hoje a autarquia alentejana.

A manutenção de casos ativos explica-se com três novos casos curados, dois entre funcionários do lar da Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva (FMIVPS) e um na comunidade, que eleva para cinco o número de casos curados no surto detetado em 18 de junho.

De acordo com a última atualização do boletim epidemiológico, publicada pela Autoridade de Proteção Civil de Reguengos de Monsaraz, não houve óbitos a registar nas últimas 24 horas, depois de no domingo se ter registado o dia mais ‘negro’ desde a deteção do surto, com três novas mortes a elevar para 12 o número total de vítimas mortais.

Entre os casos ativos, 91 dizem respeito diretamente ao lar da FMIVPS, distribuídos entre 70 utentes (10 óbitos) e 21 funcionários (três casos curados e um óbito).

O aumento de um caso entre os utentes (eram 69 no boletim de domingo) explica-se com a atualização de um teste positivo que não constava no boletim da véspera, de acordo com uma fonte oficial da Câmara de Reguengos de Monsaraz contactada pela Lusa.

A mesma fonte explicou, ainda, que a funcionária que agora testou positivo encontrava-se “de baixa desde o início do surto e, portanto, não esteve de serviço no lar”.

Os restantes 50 casos ativos dizem respeito à infeção comunitária, onde há dois casos curados e um óbito.

O número de internamentos no Hospital do Espírito Santo de Évora (HESE) também baixou para 19 (eram 20 no domingo), mantendo-se na Unidade de Cuidados Intensivos (UCI) quatro utentes do lar e também o único caso de infeção comunitária a inspirar cuidados hospitalares.

Dos restantes infetados, todos os funcionários da instituição encontram-se a recuperar nas suas residências, assim como alguns dos utentes, enquanto mais de meia centena de idosos foram transferidos das instalações do lar, na sexta-feira, para um pavilhão montado para o efeito no parque de feiras de Reguengos de Monsaraz, no distrito de Évora.

Os números referem-se a um universo de cerca de 1.780 testes com resultados conhecidos até ao final de domingo, dia em que foram conhecidos os resultados de aproximadamente 50 testes.

Para hoje está prevista, também, a realização de novos testes a todos os profissionais e voluntários que contactam com utentes do lar da FMIVPS, independentemente de terem tido resultados positivos ou negativos nas testagens anteriores.

Os testes são realizados na Área Dedicada COVID-19 de Reguengos de Monsaraz, entretanto transferida do Parque de Feiras e Exposições para o Pavilhão Polidesportivo da Escola António Gião (Escola Amarela), incluindo os testes de cura ao 14.º dia, que de acordo com a norma n.º 004/2020 da DGS "deve realizar-se aos 14 dias após o início de sintomas e se o doente estiver assintomático durante três dias consecutivos".

A Câmara de Reguengos de Monsaraz ativou, na quinta-feira, o Plano Municipal de Emergência para gerir o surto de COVID-19 no concelho, depois de a generalidade de Portugal continental ter entrado em situação de alerta na véspera.

Com a situação no lar, o concelho de Reguengos de Monsaraz regista o maior surto da doença provocada pelo coronavírus SARS-CoV-2 do Alentejo, atualmente com doze mortos e 141 casos ativos de 158 acumulados.

Em Portugal, morreram 1.620 pessoas das 44.129 confirmadas como infetadas, de acordo com o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.

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