A tosse, a expetoração e o cansaço são alguns dos sinais de Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC), que ao estar altamente associada ao tabagismo, faz com que a sejam muitas vezes desvalorizados. De acordo com o Presidente da Sociedade Respiratória Europeia “mais de 80% dos doentes com DPOC são fumadores” tratando-se, assim, de uma patologia facilmente prevenível. O Prof. Dr. Carlos Robalo Cordeiro alerta para o impacto da pandemia no diagnóstico e tratamento da doença e fala na necessidade de “correr contra o tempo perdido”.

HealthNews (HN)- A DPOC é uma doença respiratória muito incapacitante que tem uma prevalência, a nível nacional, de 14% em pessoas com mais de 40 anos. Em que medida o estilo de vida e os hábitos de consumo são responsáveis pelo surgimento desta doença?

Carlos Robalo Cordeiro (CRC)- Esta doença tem, sobretudo, causa inalatória e é maioritariamente prevenível. O hábito tabágico é o principal responsável pela doença. No entanto, existem outros fatores para além do tabaco, como é o caso da poluição ambiental, ocupacional ou industrial.

HN- Em Portugal, o número de fumadores diminuiu nos últimos cinco anos, sendo que apenas 16,8% da população no continente era fumadora em 2019, face aos 19,9% de 2014. Qual o impacto que esta realidade tem no número de doentes com DPOC?

CRC- O impacto é imenso, uma vez que mais de 80% dos doentes com DPOC são fumadores. E se é verdade que tem havido uma diminuição, e bem, dos hábitos tabágicos, é verdade também que estamos a verificar uma estratégia das grandes empresas produtoras de tabaco no sentido de promover outros produtos derivados do mesmo. Falo em particular dos cigarros eletrónicos e do tabaco aquecido que não são isentos de risco de desenvolvimento de DPOC. É uma falsa sensação de segurança que estas empresas de tabaco querem fazer passar às pessoas.

Evidentemente que há uma diminuição da prevalência do hábito tabágico, mas isso está a ser contrariado por estes novos produtos derivados do tabaco. Por exemplo, nos EUA já se percebeu que mais de 50% dos adolescentes começam a introduzir-se no hábito e na dependência da nicotina devido aos cigarros eletrónicos. Portanto, não deixa de ser uma ameaça.

HN- Tratando-se de uma doença silenciosa, qual o papel dos médicos de família na prevenção e controlo da doença?

CRC- Esta é uma questão muito importante porque é uma doença que é muitas vezes desvalorizada. Por estar associada aos fumadores a sua sintomatologia acaba por ser desvalorizada por doentes e médicos. A tosse, a expetoração e a fadiga são queixas que as pessoas associam ao hábito tabágico. Estas queixas podem, por outro lado, estar relacionadas com outras doenças. Muitos fumadores têm insuficiência cardíaca, hipertensão ou diabetes e podem ser causa das queixas que estão a ter. É muito importante que os médicos estejam sensibilizados para os sinais de DPOC.

HN- Cerca de 50% dos doentes em tratamento permanecem sintomáticos. Afinal, o tratamento disponível garante a qualidade de vida dos doentes?

CRC- O principal problema desta doença é ter caráter evolutivo, isto é, a tendência é de progressão no sentido do agravamento. E como é que podemos minimizar esta tendência evolutiva crónica? Tendo o doente com a sua doença controlada, nomeadamente conseguindo evitar as chamas agudizações da doença. Isso faz-se através da medicação inalatória. Esta é a base do tratamento dos doentes e a forma como conseguimos tê-los protegidos do risco de terem crises. A par desta medicação, são fundamentais as ações de prevenção. Os doentes devem fazer sempre vacinação para a influenza, vacinação pneumocócica, devem fazer uma boa hidratação diária e manter um estilo de vida saudável.

HN- Quais são as maiores limitações que os doentes com DPOC enfrentam no seu dia-a-dia?

CRC- Estes doentes têm muitas limitações. O cansaço, a fadiga, a apneia e a tendência para ter exacerbações frequentes levam a uma deterioração da qualidade de vida das pessoas com esta condição. As limitações criadas pela patologia fazem com que os doentes evitem atividades que implicam algum esforço.

HN- Qual o impacto que a pandemia teve no diagnóstico e tratamento da doença?

CRC- Recentemente houve uma apresentação na sede da Ordem dos Médicos em que foram reveladas as consequências da pandemia nos cuidados de saúde. Foram comparados dados do período pré-pandémico (de março de 2019 a janeiro de 2020) com o período homólogo pandémico (de março de 2020 a janeiro de 2021). Segundo a informação apresentada, houve uma diminuição nos novos diagnósticos de doenças obstrutivas das vias aéreas, concretamente da DPOC com uma redução muito significativa. Terá havido uma diminuição de 15% nos novos diagnósticos. Por outro lado, houve menos 30% de atos complementares de diagnóstico. Portanto, estes doentes ficaram com muito menos acesso aos cuidados de saúde.

HN- Qual a estratégia a adotar para recuperar o retrocesso impulsionado pela pandemia?

CRC- A telemonitorização cria a oportunidade de acompanhar os doentes a partir do seu domicílio. No serviço de pneumologia do CHUC conseguimos, todos os dias, ter informação da saturação do oxigénio, do número de passos que o doente deu e da frequência cardíaca. Com estas variáveis, temos conseguido ter os nossos pacientes controlados ainda que à distância. É possível antecipar problemas que possam surgir. A experiência que temos é a de diminuição do recurso às urgências e aos internamentos destes doentes no nosso hospital.

É importante atuar contra o tempo perdido e ter a capacidade de monitorizar estes doentes.

Entrevista de Vaishaly Funez

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