Já dizia um tal de Albert Einstein que "além das aptidões e das qualidades herdadas, é a tradição que faz de nós aquilo que somos", pelo que a devemos perpetuar a par da inteligência. Se, para muitos, é tradição comer bacalhau na consoada, parece-me sensato manter a prática, quanto mais não seja pelo seu valor proteico, mineral e vitamínico. Por outro, se é para termos gladiadores em anfiteatros à luta com outras pessoas ou animais até à morte, apenas para gáudio do público, parece-me sensata a sua extinção.

Houve o cuidado de mantermos ao longo do tempo um refúgio na tradição e na arte que, além de fácil, é redutor para com aquilo que é, de facto, tradicional, artístico, histórico e bonito de se preservar num futuro em que a sociedade evoluiu ao invés das suas práticas. A eterna mania de o ser humano se tentar superiorizar com a cobardia é o que o faz ser moralmente inferior a qualquer raça. Assim de repente acabo de inventar, também eu, um espectáculo tradicional que consiste na arte de lidar com toureiros bravos, tanto a pé quanto a cavalo. Quanto ao IVA, penso que deva ser igual ao dos outros espectáculos para não discriminarem a toureiromaquia, mas deixo à consideração, para que não soe a totalitarismo. Se gostam ou não, já é uma questão de liberdade. É que se for bem instaurado hoje, daqui a 100 anos já nós não estamos cá e isto vira facilmente tradição. E não me lixem, as tradições são para manter.

Certo é que terminaram com um jogo eruditamente estúpido que ajudava de grosso modo a selecção natural, na medida em que poderia ter consequências ao nível da reprodução, inviabilizando o nascimento de pessoas que, pelo teor da brincadeira, iriam acabar na política

Lembro-me que quando andava no 2º ciclo existia um jogo que se intitulava "levar ao toco". Os letrados estudantes de 10 anos escolhiam aleatoriamente um colega do sexo masculino e levavam-no ao poste mais próximo. Enquanto uns seguravam nele, os outros puxavam ambas as pernas, de forma a que o abono de família ficasse esmagado contra a coluna de betão. Nos restantes dias rodava pelos restantes do sexo masculino, para que a cultura fosse acessível a todos, tal e qual a redução do IVA. Para nosso espanto, os ditadores do conselho executivo, não reconhecendo os limites da sua autoridade, regulamentaram que acabássemos com uma tradição antiga, impondo a sua vontade quase como que por decreto. Claro que com 10 anos, cheirou-nos logo a totalitarismo e custou-nos a aceitar. Mas a bola nova que o Mário tinha levado nesse dia ajudou a lidar com o momento doloroso e, no intervalo seguinte, já ninguém o recordava. Certo é que terminaram com um jogo eruditamente estúpido que ajudava de grosso modo a selecção natural, na medida em que poderia ter consequências ao nível da reprodução, inviabilizando o nascimento de pessoas que, pelo teor da brincadeira, iriam acabar na política.

Os cortes na tradição não ficaram por aqui. Terminaram com a continuidade de doutrinas com anos de evolução, como colar chiclas debaixo das mesas, a ingestão de macacos do nariz ou soltar uma flatulência quando se puxava o dedo indicador. Porquê? Não sei. Talvez seja pela mesma razão que ter lixo na parede é Bordallo II, ter buracos na parede é Vhills e ter um selo na roupa interior é só porco. Já o Centeno foi dos poucos que manteve a tradição: sempre viu o Benfica e continua a fazê-lo hoje em dia, nem que para isso tenha de acelerar os debates do Parlamento.

Este receio de cortar com a tradição não é de agora. Basta recuarmos no tempo para que percebamos que antigamente se curava tudo com álcool. Se tinham tosse colocavam-no no peito, se tinham dor nas pernas esfregavam bagaço e se tinham cefaleias colocavam uma ligadura na cabeça embebida em éter. Comiam sopas de cavalo cansado que davam força para trabalhar e, à mínima patologia, bebiam água ardente para "matar o bicho". A tradição passou a hábito e, actualmente, a maioria tem cirrose. A embriaguez tornou-se cultural ou culturalmente aceite, pelo que preferem o risco de ter um carcinoma hepatocelular a renegar toda uma vida de tradições.

Eu também as defendo. Aliás, quando era mais novo e chegava a casa alcoolizado, urinava sempre no vaso da entrada, para não acordar ninguém e porque a cerveja é diurética. Deixei de beber e agora não consigo entrar sem mictar no canteiro. Inclusive já me constipei 15 vezes este ano porque, com o avançar da idade, a próstata começa a dar de si, obrigando-me a ficar ao relento pela minha fidelidade às raízes. Não as da planta, mas as da tradição. O meu cão ainda é mais tradicionalista do que eu, porque o faz no vaso e pela casa toda.

 O problema é que Alegre fez este pedido numa carta aberta e, se é tão adepto da tradição como apregoa, sabe que é tradição fecharem-se as cartas

Nesta problemática da tauromaquia, uma das questões é centrada na discriminação e no imposto. Por esta ordem de ideias, quando o governo aplicou a taxa do açúcar, tornando os refrigerantes mais caros, estaria claramente a discriminar os magros e os obesos que querem desperdiçar os últimos anos de vida e poupar-se aos problemas da velhice. Também o tratamento fiscal diferente no diesel e na gasolina discrimina quem depende do gasóleo para trabalhar e muitas pessoas com Q.I. baixo, que julgam que a medida afecta quem bebe cerveja com coca-cola.

O que Manuel Alegre pediu a António Costa foi a descida de 6% do IVA para todos os espectáculos, não discriminando a tauromaquia, bem como que se opusesse à proposta do PAN para alterar a lei que, segundo o próprio, vem comprometer várias actividades do mundo da caça, argumentando que se trata de uma tradição cultural e social que é parte integrante da nossa civilização. O problema é que Alegre fez este pedido numa carta aberta e, se é tão adepto da tradição como apregoa, sabe que é tradição fecharem-se as cartas. Ler correspondência alheia é crime, pelo que Manuel Alegre só quis tornar o país cúmplice de forma a irmos todos presos, dando-lhe a liberdade de poder colocar o IVA à sua maneira. É que, por vezes, dá a ideia de que Manuel Alegre calado era um poeta.