Nuno, de seu primeiro nome Francisco, era um homem rigoroso. Impunha tanto rigor na sua vida que, hoje em dia, todos dizem que não entrou em engenharia aeroespacial por três décimos: décimo, décimo primeiro e décimo segundo. O que mais o aproximava da engenharia eram os cálculos que fazia, todos os meses, para esticar o ordenado mínimo. Da parte aeroespacial, aproximava-o o facto de andar sempre com a cabeça na lua.

Nuno vivia descrente e imerso no ramerrame do dia-a-dia, até ter aberto o jornal e se ter colocado a par da actualidade. Leu, incrédulo, uma declaração que dizia que "menino veste azul e menina veste rosa". Se, inicialmente, achou que era uma citação dos tempos medievais, cedo se apercebeu de que vinha directamente do século XXI, proferida por Damares.

O seu quociente de inteligência fê-lo, erradamente, pensar que tinha sido dita por um habitante de uma vila do distrito de Braga. Releu a notícia e percebeu que era Damares Alves. Sentiu-se estúpido ao mesmo tempo que se envergonhava e, tristemente, lá corrigiu o seu erro: obviamente que o autor de tamanha barbaridade era o seu amigo Alves, um militar na reserva, habitante dessa tal vila do distrito de Braga - Amares. Nuno não sabe que esta sua oligofrenia o salva, diariamente, de um planeta esferoide oblato, que consegue estar constantemente de pernas para o ar.

Acha, ainda, que a única portuguesa que teria problemas no Brasil seria a Rosa Mota porque, apesar do nome Rosa ser claramente de menina, tem o apelido Mota e, para a ministra, mota é claramente uma coisa de menino

Alertaram Nuno de que Damares Alves era, afinal, o nome de uma nova ministra brasileira. Quando soube que alguém que profere considerações sexistas com preconceitos de género é ministra da (pasmem-se!) "Mulher, Família e Direitos Humanos", ficou tranquilo consigo e, acima de tudo, em paz com o mundo. Pensou que se alguém num pelouro tão importante, no qual pode fazer a diferença, pensa que tudo se resume à cor, torna a vida muito mais simples.

Nuno percebeu tão bem o intuito deste argumento da ministra, que agora acha que tem de ir ao recenseamento militar de verde tropa e que só pode pisar dejectos de animal com botas caqui. Intimidar a natureza pela cor, só reduz alguns aspirantes a seres humanos à sua parca significância.

Francisco Nuno nem considera isto escandaloso e, honestamente, julga que, se fosse em Portugal, o único problema seria o aumento do número de crises conjugais. Já imagina um marido a elogiar o vestido rosa da esposa e esta, aos gritos, dizer que "não é rosa, é fúcsia" ou ele chegar a casa e perguntar se gosta do seu fato azul claro e ela, aos gritos, dizer que "não é azul-claro, é azul-cueca".

Em bom rigor, não consegue perceber como é que Damares Alves foi tão permissiva nos tipos de azul. Arrisca-se a ver meninos de azul-celeste ou azul-alice

Acha, ainda, que a única portuguesa que teria problemas no Brasil seria a Rosa Mota porque, apesar do nome Rosa ser claramente de menina, tem o apelido Mota e, para a ministra, mota é claramente uma coisa de menino e não há cá misturas.

Em bom rigor, não consegue perceber como é que Damares Alves foi tão permissiva nos tipos de azul. Arrisca-se a ver meninos de azul-celeste ou azul-alice, dois tipos de azul que misturam no nome o que a ministra não quer misturar no seu país.

Nuno pode ter ficado triste pelo seu quociente de inteligência não lhe ter permitido entrar em engenharia aeroespacial por três décimos, mas está muito feliz porque isso faz com que esteja cada vez mais próximo de ser ministro no Brasil.

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