Quem gosta de política externa, conhece bem o termo realpolitik, o conceito que advoga que as decisões de negócios estrangeiros sejam pautadas por fatores materiais e práticos, em vez de objetivos teóricos, éticos ou morais. A pandemia causada pela Covid-19, poderia ter criado uma nova forma de agir nas relações externas, mais baseada na solidariedade e com maior foco na saúde global. Uma evolução para um paradigma mais humano e cooperação.

Pelo contrário, a ausência de solidariedade internacional, conjugada com o elevar da tensão militar em Taiwan e, de forma intensa e próxima, na Ucrânia, relembra-nos que o paradigma clássico baseado no equilíbrio de poder continua em vigor. A pandemia não teve consequências diretas no escalar da tensão, as causas são anteriores e independentes da situação pandémica. Dado o impacto que teve na demografia russa, ao erodir uma década de ganhos na esperança de vida, a Covid-19 até poderia ter produzido um impacto positivo, ao afastar o conflito externo como prioridade geopolítica.

Fica demonstrado, que a geopolítica pandémica é tática e alicerçada em epifenómenos, ao contrário da habilidade para projetar poder, que tem uma vocação mais estratégica e de longo prazo. Um país bem preparado para responder à pandemia, não é necessariamente um país que vê a sua capacidade de projetar poder reforçada.

O aumento de casos, o impacto social e na saúde causados pela pandemia, não impediu que Moscovo aumentasse a tensão militar na fronteira ucraniana. Com apenas 48% da população vacinada com 2 doses, o país corre o sério risco de sofrer um severo impacto nos hospitais, derivado do recente enorme aumento de casos. Conclui-se que a pandemia não alterou as considerações estratégicas russas, nem de qualquer outro ator mundial, apenas as colocou temporariamente em pausa.

O impacto das doenças na história da humanidade é antigo e bem documentado. Por várias ocasiões, pandemias moldaram e alteraram o curso da história. Criaram impérios, ou foram a causa do seu ocaso. Desde o século XIX, com o avanço da compreensão sobre as causas das doenças, os estados incluíram a dimensão da saúde e prevenção da doença na organização das suas forças militares. Mas esta preocupação segue a lógica do balanço de poder, a prioridade é garantir a prontidão dos exércitos, não a saúde das populações. Na atual crise ucraniana, os estrategas russos estão convencidos que os EUA ou a Nato não enviarão tropas para a região. Esta consideração não está relacionada com a evolução da Covid-19, em que as forças americanas até estariam mais preparadas para o confronto. De facto, a decisão de utilizar a força para alterar o equilíbrio de poder, não se prende com as decisões e considerações prévias seguidas para controlar a pandemia.

Para a saúde dos ucranianos, um eventual conflito seria uma calamidade. Os conflitos armados criam as condições ideais para a propagação de doenças, tais como o Sarampo, Difteria ou Poliomielite. Destroem a infraestrutura e arquitetura de saúde existente, torna o acesso aos cuidados de saúde uma missão impossível e afasta os profissionais de saúde existentes. A prioridade, tem de ser manter a diplomacia a trabalhar, de forma a produzir um acordo que garanta a paz e o desenvolvimento à região.

A esperança de que a experiência do combate à pandemia trouxesse um novo mundo, em que a solidariedade, saúde e desenvolvimento das populações fossem a prioridade geopolítica, ficou desfeita num ápice. Regressamos à velha lógica de jogos de soma zero, em que há sempre um perdedor ressentido. E bem sabemos como o ressentimento não é um bom conselheiro a prazo.

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