Estenose aórtica (EA) é o estreitamento da valva aórtica, obstruindo o fluxo sanguíneo do ventrículo esquerdo para a aorta ascendente durante a sístole. As causas compreendem valva bicúspide congênita, esclerose degenerativa idiopática com calcificação e febre reumática. A estenose aórtica não tratada progride e torna-se sintomática com um ou mais sintomas da tríade clássica de síncope, angina e dispneia de esforço; ela pode provocar insuficiência cardíaca e arritmias. O sopro de ejeção crescendo-decrescendo é característico da estenose aórtica, “que pode acontecer porque a válvula é “geneticamente diferente” (estenose aórtica congénita) ou por causa da idade (estenose aórtica do idoso). Ambas as condições são muito malignas e precisam de ser tratadas precocemente, alerta Lino Patrício, cardiologista de intervenção no Centro de Responsabilidade Cérebro-cardiovascular do Hospital do Espírito Santo, em Évora. Nesta entrevista, saiba mais sobre as causas, sintomas, diagnóstico e tratamento desta patologia, que afeta cerca de 32 mil portugueses.

HealthNews (HN)- O que é a estenose aórtica?

Lino Patrício (LP)- A estenose aórtica é uma doença cardíaca que se caracteriza por uma obstrução da válvula aórtica, que é a válvula que está à saída do coração, que tem uma obstrução por degenerescência, que resulta da idade, e que faz com que o débito cardíaco – a quantidade de sangue que sai do coração em cada sístole, em cada batimento – fique reduzido. E, portanto, menos débito cardíaco, menos sangue que chega aos órgãos, nomeadamente a órgãos como o cérebro – faz com que haja uma síncope, devido ao baixo débito cardíaco – ou o coração – pelas artérias coronárias irriga o próprio coração, portanto faz com que haja angina de peito -, ou esse débito chega menos aos músculos e ao corpo todo, e, portanto, dá sintomas de cansaço. Em resumo, é uma obstrução da válvula que está à saída do coração que reduz o débito cardíaco aos órgãos e que dá estes três sintomas fundamentais: síncope, angina e cansaço.

HN- Quais as causas desta doença?

LP- A estenose aórtica tem dois grandes quadros. O primeiro é a estenose aórtica congénita. [A estenose aórtica congénita ocorre em 3 a 5/1000 nados vivos e afeta mais homens; está associada a coarctação e dilatação progressiva da aorta ascendente, provocando dissecção da aorta que resulta de uma deformação na válvula (válvula bicúspide)], que se vai deteriorando ao longo do tempo por ser geneticamente diferente. O segundo é a estenose aórtica do idoso, que resulta de um processo de degenerescência da válvula, que, ao longo dos anos, bate muitas vezes por minuto, 60 ou 70 vezes por minuto, durante várias horas, durante 365 dias, durante 80 ou 90 anos, e que, nessas idades, nos 70/80/90 anos, vai-se degenerando, criando calcificação e obstrução. Portanto, em resumo, duas grandes diferenças: a estenose aórtica congénita e hereditária – válvula aórtica bicúspide – e a estenose aórtica dita do idoso, que é degenerativa, das fases idades mais avançadas da vida.

Temos assistido ao aumento da esperança de vida das populações. Isso faz com que venham a aparecer doenças, e uma delas é esta estenose aórtica do idoso. Não é como na doença coronária, uma doença que resulta de comportamentos, como, por exemplo, o tabagismo, o colesterol elevado, a diabetes ou a hipertensão. É uma doença que tem a ver com o aumento da esperança média de vida da população.

HN- Pode falar um pouco mais sobre sintomas e sua identificação?

LP- São fundamentalmente três sintomas: o cansaço, a dor no peito (angina de peito) e a síncope, que é o desmaio – a perda da função do cérebro, por redução do débito cardíaco ao cérebro. O problema que se põe é que estamos a tratar de doentes idosos, doentes que já por si têm algumas queixas de cansaço – que é um sintoma predominante – e por vezes é difícil perceber o que é sintoma e o que é normalidade. E muitos destes doentes têm de facto estenose aórtica, que agrava o cansaço, mas eles relacionam o cansaço com a idade. É difícil, do ponto de vista clínico, o diagnóstico nestes doentes mais idosos.

HN- Como é feito o diagnóstico?

LP- O diagnóstico faz-se através da auscultação, da observação do doente, com a auscultação de um sopro aórtico, mas fundamentalmente através da ecocardiografia. É possível, através de um ecocardiograma, avaliar a calcificação e o aperto da válvula e ver qual a quantidade de estenose que afeta a área que a válvula tem. Isso faz com que, juntamente com os sintomas, que podem passar despercebidos (nomeadamente os sintomas de cansaço), estes doentes tenham o diagnóstico de estenose aórtica sintomática, e a estenose aórtica sintomática tem de ser tratada através da desobstrução da válvula aórtica.

HN- Como são acompanhados e tratados estes doentes?

LP- Depois de terem o diagnóstico, estes doentes são referenciados a um centro que possa substituir a válvula aórtica, porque não há tratamento preventivo, nem há tratamento médico para esta patologia. Portanto, não há medicamentos. Pode haver medicamentos para aliviar a insuficiência cardíaca ou as dores no peito, mas não há medicamento para tratar a doença. O tratamento é a substituição da válvula aórtica. E a substituição da válvula aórtica pode-se fazer de duas formas: substituição cirúrgica da válvula com esternotomia, portanto, abertura do peito, paragem cardiocirculatória, retirar a válvula e a implantação de uma válvula cirúrgica, o que é feito com circulação extracorporal e com uma técnica de cirurgia cardíaca; ou através de uma técnica não invasiva percutânea, que é um cateter colocado numa virilha que leva uma válvula ao coração, que passa a funcionar por cima e em lugar da válvula que está extenuada.

HN- Existem diferenças no prognóstico consoante a apresentação clínica nos doentes?

LP- Sem dúvida que existem. Esta doença tem muito mau prognóstico. É uma doença que, depois de dar sintomas, tem uma taxa de mortalidade de 50% no segundo ano. Dos doentes que apresentam sintomatologia, só 50% estão vivos ao fim de dois anos. É uma doença que tem uma mortalidade muita elevada e que precisa de ser tratada. Não é muito correto comparar prognósticos, mas é uma doença que tem um prognóstico pior do que uma neoplasia do pulmão. Nós, neste momento, temos de olhar para esta doença como uma doença muito maligna; não neoplásica, mas com uma taxa de mortalidade muito elevada.

HN- Portanto, há um longo caminho a percorrer.

LP- Há um longo caminho a percorrer por duas razões: diagnóstico – a dificuldade de diagnosticar estes doentes, porque são idosos e as queixas às vezes não são muito explícitas – e tratamento – o facto de serem idosos é às vezes um impedimento para o tratamento. Pode haver alguma relutância no tratamento do doente idoso ou muito idoso.

HN- Quais são as inovações terapêuticas mais recentes?

LP- Durante anos, trataram-se estes doentes por cirurgia. Alguns destes doentes tinham contra-indicação para serem operados, porque eram muito idosos. Tinham comorbilidades ou fragilidade e eram recusados para cirurgia. Há mais de uma dezena de anos, apareceu uma técnica minimamente invasiva que faz com que seja possível tratar doentes de alto risco, mas também doentes com risco intermédio e de baixo risco. Esta técnica, que já descrevi, tem, pelo menos, tão bons resultados como a cirurgia.

Entrevista de Rita Antunes

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