Introdução

O cancro, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) (1) é definido como o crescimento descontrolado, invasivo, de disseminação de células que podem invadir os tecidos normais adjacentes e metastizar para locais distantes (2), podendo resultar em morte se a disseminação não for controlada. As patologias oncológicas têm aumentado significativamente a nível mundial, causando elevada morbilidade e mortalidade (3). Segundo a Internacional Agency for Research on Cancer (IARC) surgem 14 milhões de novos casos por ano e ocorrem 8 milhões de mortes relacionadas com cancro (5 anos após o diagnóstico). O tratamento do cancro tem mais sucesso se este for detetado e tratado num estádio precoce (4). Estima-se que a prevalência da desnutrição nos doentes com cancro varia entre os 8% e os 84% (5). Cerca de 5 a 10% dos cancros resultam diretamente de alterações genéticas, mas a maioria envolve alterações ou danos cumulativos ao longo da vida, provocados por fatores externos (6). O cancro resulta de interações genéticas e ambientais, em que a alimentação desempenha um papel preponderante, não só na prevenção e na etiologia, mas também no próprio desfecho, ao poder influenciar as condições onde ocorre a interação entre as células tumorais e o seu ambiente envolvente (7). O padrão alimentar pode ser definido como um conjunto de alimentos frequentemente consumidos por indivíduos e populações (8). Essa abordagem permite avaliar a dieta de uma perspetiva global, que facilita o estabelecimento de estratégias de promoção da alimentação saudável e prevenção de doenças e défices nutricionais. Assim, o estudo de padrões alimentares representa um instrumento complementar para avaliação do efeito da ingestão alimentar na saúde (9,10). A identificação de padrões alimentares produz um modelo mais coerente no estudo dos hábitos alimentares que permite identificar subgrupos populacionais em risco de doença e propor diretrizes nutricionais bem fundamentadas (11-13).

Objetivo geral

Identificar padrões alimentares de doentes oncológicos antes dos tratamentos de quimioterapia e radioterapia

Objetivos específicos

Determinar se existe associação entre os padrões alimentares e os parâmetros Sociodemográficos e clínicos

Metodologia

Estudou-se uma amostra de 331 doentes oncológicos em ambulatório. Os parâmetros sociodemográficos em estudo são sexo, idade, situação profissional, grau de escolaridade, estado civil, agregado familiar, atividade física regular, hábitos tabágicos e hábitos etílicos. Os parâmetros clínicos em estudo são os seguintes: peso atual, estatura, IMC, cotação do CASQ e das suas questões individualmente, diagnóstico, estádio da doença, ECOG-PS, albumina, PCR, mGPS, tratamento proposto, cirurgia prévia, alteração de peso no mês anterior e alteração da alimentação no mês anterior.

Para avaliar os hábitos alimentares no mês anterior a ferramenta utilizada foi o Questionário de Frequência Alimentar (QFA), sendo aplicado após o diagnóstico de cancro e antes do início de tratamentos. A análise foi efetuada com base em 26 itens alimentares e 18 grupos de alimentos. Cada um dos grupos foi constituído com itens com composição nutricional similar, de forma análoga ao realizado nas pesquisas desenvolvidas por Nobre et al (14) , Silva et al (15) e Neumann et al (16). A decisão de inclusão de um alimento num dos grupos baseou-se no seu muito baixo consumo. Calculou-se a frequência relativa de consumo de cada item alimentar e procedeu-se à análise fatorial para obter padrões alimentares a partir dos logaritmos das frequências relativas dos consumos de cada um dos 44 alimentos ou grupos de alimentos. Avaliou-se o coeficiente de Kaiser-Mayer-Olkin (KMO) e foi aplicado o teste da esfericidade de Bartlett. Observou-se que os requisitos exigidos para a análise fatorial cumpriram com o valor do KMO obtido, 0,668 (que deve ser sempre maior do que 0,6), e com resultado do teste de Barlett, p<0,001 (cujo valor deve ser significativo). Ambos indicaram, que a análise fatorial é adequada para os dados. Analisando a comunalidade dos logaritmos das frequências relativas de consumo dos alimentos, constatou-se que alguns têm extrações muito fracas, o que sugere que podem ser eliminados por não constituírem um elemento diferenciador. Assim foram retirados desta análise os alimentos: banana, arroz, azeite e azeitonas, marmelada e compotas, e refrigerantes por terem comunalidades, em módulo, abaixo de 0,1.

No gráfico nº1 apresenta-se o valor próprio de cada componente principal no modelo final. Utilizando o método de Cattell, também designado scree plot , (17) observamos que se destacam os dois primeiros componentes principais, que explicam 10,67 % e 7,53 % da variância total da amostra. Assim, estes foram selecionados para a caracterização de padrões alimentares. Considerou-se um efeito significativo quando a significância p<0,05. O tratamento estatístico dos dados foi realizado no programa IBM SPSS Statistics versão 24.

Resultados

Identificaram-se dois padrões alimentares: «Tradicional», mas sem sopa de legumes nem leite, e «Brando». Os alimentos mais correlacionados com o padrão «Tradicional» foram os legumes, os vegetais, a fruta, os cereais integrais, a massa, o peixe gordo e os ovos. Os menos correlacionados foram as bolachas Maria, os cereais refinados, o leite e o açúcar. Com o padrão «Brando» os alimentos mais relacionados foram: couve branca, sopa de legumes, maçã, peras e pêssegos, batatas, carnes brancas, frango, peixe magro e os iogurtes, os menos relacionados são o bacalhau, a carne vermelha, o fiambre, o queijo, as gorduras, os salgados, os doces, as bebidas alcoólicas e quentes. Os doentes que seguiam um padrão mais próximo do «Tradicional» eram os que habitavam sozinhos, os divorciados, com maior escolaridade, com maior peso e IMC, com diagnóstico de cancro esófago-gástrico ou cancro do grupo «outros», os que não foram operados, que realizavam maior número de refeições e que mantiveram ou aumentaram a ingestão alimentar no mês prévio aos tratamentos. Seguiam um padrão mais próximo do «Brando» os mais velhos, os mais baixos, os reformados, os desempregados, os menos escolarizados, os fumadores, com maior inflamação, com pior estado geral, com menor energia, mais deprimidos, os que fizeram tratamento radical, os operados, os que realizavam menos lanches e os que diminuíram a sua ingestão alimentar no mês prévio.

Conclusão

É importante avaliar a ingestão alimentar e, quanto mais cedo possível melhor para evitar a desnutrição, muito frequente nestes doentes. Conhecer os hábitos alimentares pouco tempo após o diagnóstico é fundamental para melhorar o suporte nutricional e aumentar a qualidade de vida destes doentes, motivo que nos levou a desenvolver este trabalho de investigação.

Bibliografia

  1. World Health Organization WHO: Cancer; 2012. Disponível em: http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs297/en/.
  2. Cancer facts and figures Atlanta: American Cancer Society; 2012. Disponível em: http://www.cancer.org/Research/CancerFactsFigures/CancerFactsFigures/cancerfacts-figures-2012.
  3. Stewart B, Wild CP. World cancer report 2014. 2014
  4. Madureira EM. Avaliação da ingestão nutricional, inflamação e estado nutricional em doentes oncológicos [Tese de Doutoramento em Nutrição Clinica]. Porto: Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto; 2015.
  5. Ravasco P, Grillo IM, Camilo M. Cancer wasting and quality of life react to early individualized nutritional counselling! Clinical Nutrition. 2007; 26(1):7-15.
  6. WCRF. Food, nutrition, physical activity, and the prevention of cancer: a global perspective. Washington: American Institute for Cancer Research; 2007.
  7. Heber D BG, Go VL. The principles of nutritional oncology, in Nutritional Oncology. A. Press, Editor ed. California; 1999.
  8. Devlin UM, McNulty BA, Nugent AP, Gibney MJ. The use of cluster analysis to derive dietary patterns: methodological considerations, reproducibility, validity and the effect of energy mis-reporting. Proceedings of the Nutrition Society. 2012; 71(04):599-609.
  9. Kristiansen AL, Lande B, Sexton JA, Andersen LF. Dietary patterns among Norwegian 2-year-olds in 1999 and in 2007 and associations with child and parent characteristics. British Journal of Nutrition. 2013; 110(01):135-44.
  10. de Castro Azevedo EC, da Silva Diniz A, Monteiro JS, Cabral PC. Padrão alimentar de risco para as doenças crônicas não transmissíveis e sua associação com a gordura corporal-uma revisão sistemática. Revista Ciência & Saúde Coletiva. 2014; 19(5)
  11. Jinlin F, Binyou W, Terry C. A new approach to the study of diet and risk of type 2 diabetes. Journal of postgraduate medicine. 2007; 53(2):139.
  12. Hu FB. Dietary pattern analysis: a new direction in nutritional epidemiology. Current opinion in lipidology. 2002; 13(1):3-9.
  13. van Dam RM. New approaches to the study of dietary patterns. British Journal of Nutrition. 2005; 93(05):573-74.
  14. Nobre LN, Lamounier JA, Franceschini SC. Preschool children dietary patterns and associated factors. Jornal de pediatria. 2012; 88(2):129-36.
  15. Ribeiro Silva RdC, Oliveira Assis AM, Szarfarc SC, Pinto EdJ, Carneiro da Costa LC, Rodrigues LC. Iniquidades socioeconômicas na conformação dos padrões alimentares de crianças e adolescentes. REVISTA DE NUTRICAO-BRAZILIAN JOURNAL OF NUTRITION. 2012; 25(4):451-61. 16. Neumann AICP, Martins IS, Marcopito LF, Araujo EAC. Dietary patterns associated with risk factors for cardiovascular disease in a Brazilian city. Revista Panamericana de Salud Pública. 2007; 22(5):329-39.
  16. Cattell RB. The scree test for the number of factors. Multivariate behavioral research. 1966; 1(2):245- 76.

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