Uma orientação distribuída por quatro centros de saúde de Lisboa a determinar a frequência da avaliação periódica da saúde está a gerar polémica junto de especialistas que atribuem a iniciativa a uma tentativa de poupar na prevenção.

O documento foi distribuído pelo Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) de Lisboa Norte, que inclui o de Alvalade, Benfica, Lumiar e Sete Rios, e refere-se à “avaliação periódica de saúde, vulgarmente chamada check-up”.

Os exames necessários “não são requisitados de uma forma indiscriminada, mas sim baseados em fundamentos científicos e adequados à idade, género e risco individual”, lê-se no documento, a que a Agência Lusa teve acesso.

Este plano preconiza, para adultos “sem fatores de risco individuais ou familiares”, que, no âmbito da prevenção do cancro da mama, a avaliação tenha um intervalo de dois anos, em mulheres dos 50 aos 69 anos, tendo por base o Plano Oncológico Nacional.

Para Vítor Veloso, da Liga Portuguesa Contra o Cancro, estes dois anos são tempo a mais e “poderá lançar a confusão”, uma vez que o recomendado é “uma mamografia anual, com ecografia em caso de necessidade”, a partir dos 45 anos.

“Compreendo que é preciso poupar, mas não aceito isto. A prevenção é fundamental e, quanto mais cedo os casos forem detetados, menos gasta o Ministério da Saúde com casos graves de mais difícil solução”, disse.

Ainda nesta área, Vítor Veloso duvida das recomendações para a prevenção do cancro do intestino-colon: análise das fezes anual ou colonoscopia total cada dez anos, dos 50 aos 74 anos.

E defende que, a partir dos 50 anos, seja recomendada a pesquisa de sangue nas fezes e uma colonoscopia sempre que este for detetado.

Para o cancro da próstata, o documento esclarece que “não existe consenso internacional quanto à validade de rastreio para quaisquer dos exames – rectal, ecografia ou Antigénio Específico da Próstata (PSA), mas Vítor Veloso considera que, a partir dos 45/50 anos, seja realizado um PSA.

Sublinhou que “um cidadão tem direito à realização de um exame anual”, apesar de ressalvar que é “contra o desperdício”.

“O médico deve ser soberano e, perante o utente que se senta à sua frente, decidir quais os exames e com que frequência os deve prescrever”, defendeu.

Também ao nível da prevenção das doenças cardiovasculares, as recomendações merecem críticas do presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia.

Este ACES defende a avaliação da pressão arterial em cada dois anos, após os 18 anos, do colesterol a cada cinco anos, após os 35 anos, da diabetes a cada três anos, após os 45 anos, e da doença renal de cinco em cinco, com medição da tensão arterial e análise da urina, após os 50 anos.

“Esta é uma perspetiva muito economicista”, acusa Manuel Carrageta, para quem a medição da tensão arterial deve ser feita sempre que o utente vai a uma consulta.

Manuel Carrageta disse que os intervalos de tempo defendidos nesta orientação só podem ter sido estabelecidos “numa perspetiva dos médicos de saúde pública, que são os que não veem os doentes”.

Defende ainda a realização de análises de controlo do colesterol e da diabetes, pelo menos, uma vez por ano.

Luís Gardete Correia, da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal, questiona os três anos de intervalo entre cada exame à diabetes e, quando confrontado com o facto da orientação ter por base a Associação Americana da Diabetes, disse que há diferenças entre os dois países que devem ser levadas em conta.

“Podemos ser mais abertos e até equacionar os dois anos de intervalo, mas considero que três anos é muito tempo num país com uma prevalência tão elevada de diabetes”, disse.

À Lusa, a diretora do ACES Lisboa Norte esclareceu que o documento é “orientador e informativo”, mas ressalvou que “os enfermeiros e os médicos têm autonomia técnica”.

Trata-se, segundo Manuela Peleteiro, de “um documento indicativo, emanado do conselho diretivo deste ACES, no âmbito das suas funções”.

20 de maio de 2011

Fonte: Lusa/SAPO

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