A criança, com um hamartoma (malformação não relacionada com cancro) hipotalâmico e epilepsia refratária, foi operada na sexta-feira e teve alta dois dias depois, um dia antes do previsto, disse Alexandre Campos, o neurocirurgião que realizou a “termoablação por laser”, uma técnica que permite destruir tecidos doentes no cérebro de forma minimamente invasiva, com taxas de complicações menores e internamentos mais curtos.

No dia seguinte à cirurgia, “a criança parecia que não tinha sido operada. Em termos de vitalidade, estava ótima e sem crises”, contou o especialista do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa (CHULN).

Alexandre Campos disse que tem recebido alguma informação da família a dizer que “a criança continua muito bem”. Contudo, ressalvou, o resultado do tratamento tem que ser observado a longo prazo.

“Se há complicações nós vemos logo, mas o resultado final, se fica sem crises, tem de se ver ao fim de um, dois, três ou mais anos”, disse, sublinhando que a criança pode nunca mais voltar a ter epilepsia.

Recordando o caso, o neurocirurgião contou que a criança tinha uma lesão malformativa localizada numa zona muito profunda do cérebro junto ao hipotálamo, que é um centro regulador de uma série de funções importantes no cérebro.

“Quando estas malformações aparecem podem provocar várias coisas, como uma puberdade precoce”, que se consegue controlar com medicação hormonal, ou uma epilepsia refratária, resistente aos medicamentos.

“Os medicamentos podem ir atenuando as crises mas a criança continua a tê-las e se continuarem ao longo da vida vai ser prejudicial para o cérebro, porque não vai conseguir desenvolver-se corretamente porque está constantemente com aquelas descargas”, explicou.

Alexandre Campos adiantou que este tipo de epilepsia é muito característico porque provoca “um riso descontextualizado e desadequado”.

Ao perceberem que a criança tinha “uma epilepsia fármaco resistente” e que estava com um aumento das crises, com cinco a dez por dia, os médicos decidiram usar esta técnica que foi introduzida na Europa em março de 2018, existindo atualmente 17 centros na Europa a realizar esta técnica.

“A criança teve uma evolução fantástica” e é “uma técnica minimamente invasiva, portanto, não dá o transtorno de uma abertura do crânio”, vincou.

Na próxima semana, um jovem de 16 anos vai ser submetido a esta cirurgia, uma vez que já fez um tratamento prévio que reduziu o número de crises, mas não as tratou, avançou o médico que faz parte do Grupo da Cirurgia da Epilepsia, que junta neurocirugiões, neuropediatras, neurologistas e neurorradiologistas.

Todos os anos surgem em média cerca de 250 casos de epilepsia refratária: “Um terço dos doentes com epilepsia vão ter sempre crises, apesar da medicação, e nestas vamos ter de avaliar se há ou não outra alternativa, nomeadamente a cirurgia”, disse o médico, estimando que sejam entre 10 a 20% deste terço.

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