“Não estamos no fim das nossas forças porque para quem trabalha na saúde, o que se passou na covid, faz parte da profissão. É algo normal, eu diria, mas há uma parte humilhante de não nos terem dado os meios necessários para trabalhamos”, afirmou à agência Lusa Patrick Pelloux, médico das urgências do Hospital Necker em Paris e presidente da Associação de Médicos de Urgências de França.

Entre os profissionais de saúde que saíram à rua em Paris para uma manifestação junto ao Ministério da Saúde, os relatos de falta de máscaras, luvas e a utilização de sacos de lixo como batas nas unidades de cuidados intensivos multiplicavam-se.

“Precisamos, desde logo, de material. Em vez de batas, durante os últimos meses, usámos sacos do lixo, não tínhamos máscaras, agora não temos luvas. Chegou uma altura no nosso hospital em que nem sacos para pôr os mortos tínhamos”, relataram à Lusa Emanuelle e Laura, enfermeiras no hospital de Juvisy-sur-Orge, na região parisiense.

A falta de investimento na Saúde, mesmo depois de várias promessas de apresentação de um plano para os hospitais públicos durante a pandemia de covid-19 por parte do Governo, trouxe milhares de médicos, enfermeiros e outras profissões do setor à rua esta terça-feira.

“As palavras são bonitas, mas nós queremos atos e queremos dinheiro. O Governo dá muito dinheiro às empresas para as ajudar neste período de crise, mas para o hospital que está doente há anos, não há nada”, exigiu Philippe Martinez, líder da CGT, uma das maiores centrais sindicais em França.

E se combater o vírus faz parte das suas funções como profissionais de saúde, o cansaço acumulado de quem esteve na primeira linha e aguarda melhorias no hospital e na sua carreira, faz-se sentir de forma pesada.

“Eu sou enfermeira nos cuidados intensivos e acolhemos vários pacientes com a covid-19. Tivemos de transformar metade das nossas camas para acolher esses pacientes o que foi complicado tanto a nível físico como emocional. Muitas pessoas morreram e tivemos de gerir também as famílias”, contou Evelyne, enfermeira no Hospital de la Salpêtrière, em Paris, um dos epicentros do combate ao vírus na capital.

Antes da pandemia, Evelyne já equacionava deixar a profissão, mas agora é quase uma certeza.

“Eu sou enfermeira há dois anos nos cuidados intensivos e vejo mais coisas negativas que positivas. Há uma degradação na nossa carreira e penso mesmo em mudar completamente. Para ficar era preciso uma verdadeira revalorização do nosso trabalho e dos salários”, indicou esta jovem parisiense.

Em França, cerca de 30% dos enfermeiros abandonam a profissão nos primeiros cinco anos de carreira devido aos baixos salários, ao desgaste físico e à falta de progressão.

Na região parisiense, um dos principais motivos é mesmo a falta de meios para viver numa das cidades mais caras do Mundo, já que um enfermeiro em início de carreira no hospital público ganha cerca de 1.700 euros e alugar uma casa pode chegar aos mil euros.

“As pessoas não conseguem viver do seu trabalho, os salários são baixos e os bónus que recebemos serviram só para cobrir saldos negativos no banco. A vida é muito cara e até percebo que as pessoas prefiram outro tipo de carreiras”, admitiu Patrick Pelloux.

Quanto aos médicos, Pelloux refere que quem opta por exercer a profissão como médico liberal pode mesmo ganhar quatro vezes o salário de um médico do hospital público.

Às palavras de ordem “Mais dinheiro para o hospital” e “Demissão” para Olivier Véran, ministro da Saúde, juntaram-se ainda o som de petardos e incêndios deflagrados pelos designados ‘black blocs’, ativistas que se infiltraram o protesto, a que a polícia respondeu com o lançamento de granadas de gás lacrimogéneo, num confronto que já se tornou habitual nas manifestações em Paris.

A CGT quer agora uma nova jornada de mobilização geral. “Queremos claro uma grande greve, mas não só dos hospitais. Há tantos problemas em todo o lado que precisamos vir para a rua o mais rápido possível”, defendeu Martinez.

No entanto, os profissionais de saúde têm as suas reticências. “Nós não podemos fazer greve. Se fizermos, as pessoas morrem. Além disso, até para estarmos nesta manifestação tirámos dias de férias e outros colegas vieram porque fizeram porque fizeram o turno da noite”, descreveram Laura e Emanuelle.

Uma dedicação que só é possível, segundo Pelloux, neto de emigrantes portugueses, devido aos valores de cidadania de quem trabalha no serviço público.

“Somos talvez loucos por continuar a trabalhar no hospital público, mas é algo de que nos orgulhamos, talvez por cidadania e dever republicano e talvez seja por isso que não temos consideração por parte do Governo, porque eles sabem que, apesar de tudo, vamos continuar”, concluiu.

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