Nessa cidade do distrito de Aveiro, o centro mostra-se mais calmo do que em 2019 e a estação ferroviária é das zonas mais agitadas, sendo que, entre umas 20 pessoas, várias delas não usam a máscara indicada como obrigatória na entrada do edifício e outras reclamam perante casas de banho cujas portas exibem a mensagem "fora de serviço".

A poucos metros de distância, a gerência da Taberna do Joaquim lamenta que a CP se esteja "a portar muito mal" ao nível sanitário e, não fosse por esse desmazelo "na sala de visitas da cidade", o positivismo seria completo: a casa fechou durante os 31 dias da cerca profilática, mas está "a recuperar bem" depois de ter criado uma sala extra para distanciar as mesas sem cortar nos seus anteriores 50 lugares.

"Perdemos alguma clientela, porque os mais idosos deixaram de sair de casa e ainda há muita gente em teletrabalho, mas ganhámos outra. Os hotéis estão com gente e recomendam-nos aos hóspedes, e agora abrimos ao domingo e também fazemos 'take-away', que foi uma evolução já a pensar no futuro", conta Joaquim Coutinho à Lusa.

Defendendo que a primeira quinzena do cerco sanitário foi adequada, o empresário hesita quanto à segunda porque "representou um grande rombo económico" e, se no seu caso há boas expectativas porque em setembro a zona deverá estar transformada numa área pedonal "digna e com bom aspeto", outros colegas não puderam esperar e já fecharam portas - como aconteceu com a taberna "João da Vareirinha", a casa "Oásis" e o "Alquimista".

O proprietário desse último espaço, Renato Santos, é, aliás, um dos críticos da segunda quinzena do cerco e do "desgoverno atual" da Câmara de Ovar. "Levámos com o que se pode considerar três 'pandemias' em menos de um ano: obras à porta mal abrimos, depois a covid-19 e, quando íamos reabrir, obras outra vez, porque as primeiras não ficaram em condições", explica.

Mesmo com uma classificação de 5 estrelas na plataforma "TripAdvisor", o empresário garante que "um restaurante pequeno não aguenta isso", e diz-se dececionado com a postura do presidente da Câmara - "fez umas 100 refeições por dia sempre no mesmo sítio durante o cerco, sem ajudar os outros restaurantes, e disse que vinha falar connosco quando viu que íamos fechar, mas até hoje nem uma palavra de conforto ou consideração" -, defendendo que Ovar tem que aprender com o Porto, onde "o [autarca] Rui Moreira dá ajudas aos comerciantes que têm obras ao pé da porta".

Também Maria José Figueiredo, do pronto-a-vestir "Alta Costura", perdeu muitos clientes porque "as pessoas estão a poupar nos gastos com receio do que ainda vem aí" e, tal como Renato Santos, deparou-se com um senhorio intransigente que "não baixou nem um cêntimo à renda", pelo que, "mesmo com a porta fechada, as despesas foram as de sempre e a Câmara não ajudou ninguém com um tostão".

Sintetizada, a lista de reclamações é esta: faz falta "animação nas ruas do comércio tradicional", pedem-se "desfiles de moda com lojas locais como se faz noutros concelhos" e é preciso mostrar que "a terra não é só carnaval, pão-de-ló e azulejo", o que passa por mudar a estratégia de comunicação da autarquia.

"É só promoção ao Salvador Malheiro: muito ‘show off', tudo para o umbigo dele e nem uma ideia concreta para ajudar os comerciantes. Se recebi alguma ajuda neste tempo todo, foi da [associação empresarial] SEMCA e os únicos políticos que cá passaram foram os do CDS", revela.

Mais otimista está Marco Resende, gerente da cafetaria "Twelve": aumentou a esplanada, investiu em divisórias de acrílico já a pensar que as pandemias podem tornar-se frequentes, vem recebendo "mais turistas espanhóis do que era costume" e declara que "a cidade agora está mais bonita", depois do arranjo urbano após o cerco.

O que lhe custa é o desamparo de alguns clientes: "Chego a fazer de psicólogo. As pessoas mais velhas agora saem muito pouco de casa, vêm uma vez por semana tomar café à rua e depois percebe-se que precisam de conversar - estão muito sozinhas e transtornadas".

Outro destino terapêutico é o horto EuroPlantas: o coproprietário Alberto Soares diz que vai fechar o ano com quebras de "30 a 40% no negócio", mas não recorreu ao ‘lay-off’, tem as caixas registadoras com vários clientes em fila e reconhece que o parque de estacionamento tem estado mais cheio, como antes só se via pelo Dia da Mãe ou Domingo de Ramos.

O centro comercial Dolce Vita também retoma o ritmo pré-covid, estimulado por uma nova esplanada ao ar livre. A administradora Marta Félix admite até "grande esperança no futuro, devido ao investimento de dois milhões de euros que a White Sand Capital está a aplicar na transformação do espaço".

A pandemia de covid-19 já provocou 770.429 mortos no mundo desde dezembro do ano passado, incluindo 1.779 em Portugal.

Os efeitos da pandemia já se refletiram na economia portuguesa no segundo trimestre, com o PIB a cair 16,5% face ao mesmo período de 2019, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).

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