5 de junho de 2014 - 16h40
A Casa Grande, no bairro de Benfica, abriu hoje as portas à comunidade, desafiando os lisboetas a ir ali lavar a roupa, comprar produtos hortícolas, flores e outros artigos feitos por jovens com Síndrome de Asperger.
Situada na Quinta da Granja, a Casa Grande é um espaço de formação, de treino de competências sociais e funcionais para jovens Asperger maiores de 16 anos.
O objetivo é que “adquiram as ferramentas necessárias para os podermos encaminhar no mundo do trabalho e construir com eles o seu projeto de vida”, disse à agência Lusa a presidente da Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger (APSA), mãe de um jovem Asperger com 21 anos.
A casa tem atelieres de música, artes plásticas, informática, costura, horticultura e jardinagem, onde os jovens desafiam a sua criatividades e aprendem várias artes e ofícios.
São os serviços, os artigos e os produtos desses atelieres que estão disponíveis à comunidade a partir de hoje.
“Podem vir à nossa lavandaria, podem fazer arranjos no nosso atelier de costura, ter aulas de música, de informática, de artes plásticas ou fazer pequenas festas” nos pátios da casa, um velho edifício do século XVII recuperado pela associação, apelou a presidente da APSA.
Os primeiros passos já estão a ser dados, disse Piedade Monteiro, contando que as alfaces cultivadas nas hortas da casa já estão a ser vendidas numa loja do bairro.
“Depois do sonho de construir a casa, o sonho agora é se torne autossustentável para não cair naquilo que as instituições particulares de solidariedade social caem quase sempre, que é o mecenato e os subsídios do Estado, mas também para não sobrecarregar o Estado”, sublinhou.
Para mostrar o trabalho dos jovens e os serviços da casa, a APSA convidou hoje a comunidades a conhecer o edifício.
Nos pátios da casa estavam expostos para venda os produtos hortícolas e as flores plantadas pelos jovens, mas também quadros e vários artigos artesanais.
“Os nossos jovens têm uma vida muito ativa e são os protagonistas do dia-a-dia da Casa Grande”, disse, orgulhosa, Piedade Monteiro.

Bruno, 26 anos, é um desses jovens. Está na casa desde janeiro e uma parte do seu tempo é passado no atelier de jardinagem.
“Não gosto muito do trabalho físico e, por isso, sou assistente da monitora e coordeno os jovens”, disse o jovem à Lusa, comentando: “Uso mais a cabeça do que o corpo”,
A tarefa que mais gosta é “controlar os minutos e os segundos” no cronómetro. “Desde miúdo que sou assim, coordeno o tempo”, disse, com um sorriso.
Contou que está feliz na casa, porque tem “mais liberdade” e já arranjou amigos.
“No centro onde estava, não éramos todos iguais. Aqui somos livres e temos todos Asperger”, sublinhou o jovem.
Para Piedade Monteiro, “não é saudável” juntar pessoas com vários tipos de deficiência no mesmo espaço, porque estes jovens “copiam muito”.
“Se há um ponto de referência para eles que é uma deficiência mais profunda, eles acabam por a imitar”, prejudicando o seu desenvolvimento.
Piedade Monteiro contou que alguns dos 11 jovens que estão na casa viviam em instituições, mas outros, com mais de 20 anos, estavam em casa sem atividade nenhuma.
“Isto não pode acontecer. O que nós queremos é que os nossos filhos sejam de tal maneira iguais que consigam não ser um peso para o Estado”, frisou.
Portanto, “temos de ir pelas capacidades deles e nunca pelas dificuldades. Se há dificuldades vamos colmatá-las ou tentar colmatá-las”.
“Em Portugal, dá-nos a ideia que só há duas condições, a normal e a anormal, não há o meio”, lamentou.
Para a responsável, é preciso “dar a possibilidade a cada uma das pessoas, dentro da sua condição, a ter o seu espaço o mais adaptado possível para que tenha uma vida digna”, por isso é que a Casa Grande é “um projeto pioneiro”.
Por Lusa

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