Não verbalizamos o medo de lidar com as palavras, porque temos de usá-las. Vamos usando o léxico para fugir ao óbvio e contornamos o receio, sob pena de perdermos o sentido. É uma época de fuga, mesmo após nos terem educado a encarar os problemas. Os velhos, que sabem que o são, usam as palavras sem rodeios, porque a vida ensinou-lhes que o circunlóquio lhes tira tempo na luta contra a finitude. “Ai filho, é muito triste ser-se velho”, obrigando-me a retorquir com um “triste é não chegar, sequer, a sê-lo”. A conversa vai acontecendo entre a retórica e o senso comum, onde a eloquência tende sempre a sair vencedora. Os velhos não querem ser sábios, talvez porque até sabem que o são e isso responsabiliza-os mais do que a idade que já têm. Talvez queiram ser só velhos e não perder muito tempo a pensar em títulos que os façam protelar-se e, quiçá, perder-se. Como se fosse uma condição só deles e não, eventualmente, de todos. Os velhos só se chateiam de o ser porque isso lhes rouba a identidade. Só é vantajoso puxar dos galões quando é para reforçar uma vida plena. Quando se vangloria o que se foi e não se esquece quem, ainda, o é. “Velhos são os trapos”, dizem. Parece-me uma expressão demasiado elogiosa para um farrapo. Há uma tentativa de impor exclusividade à roupa velha, que talvez seja exagerada. Até pode haver trapos tão incríveis que sejam merecedores desse elogio, mas generalizar nunca foi bom presságio. Aos trapos que denominam de velhos, invejo quem os tem pela sua raridade e beleza.

Tendemos a respeitar a idade e a desculpar o que dela advém, como se o expectável lhe roubasse o sentimento. A perda tende a ser relativizada pelos anos, como se a dor fosse menos justa com o passar do tempo. A anosidade torna o amor diferente. Chega a amar-se da mesma forma, só que mais ainda. Quase permite gostar-se das particularidades que só o casal conhece. Deixam-se de lado os defeitos para serem substituídos por parte integrante do seu feitio, como se a personalidade existisse para se desculparem e se concentrarem no afecto. O amor entre dois velhos é tão intenso que consegue acoplar em si a paixão, o carinho, a amizade e mais uma dúzia de coisas boas. Quando um deles parte, só a enormidade da dor se pode comparar a esse amor. Força-se a amenizar o sentimento pelo expectável, como se as palavras acelerassem alguma coisa. A perda leva consigo parte de uma outra vida, todo aquele companheirismo e o aparente sentido das coisas. Tudo o que vem depois é um lado B, que não se prepara. Amar é uma dor, um desassossego que traz uma taquicardia que nos leva a paz a cada batimento. Forçamo-nos a agarrar-nos àquilo que de menos palpável existe: a memória - esse bote salva-vidas que vai perdendo nitidez com o passar dos dias.

Há uma proporcionalidade das pessoas presentes naquela despedida religiosa àquilo que se foi, como se fosse um reflexo do que se fez. Talvez por isso não dê muito jeito falecer agora, pela ideia de que o vírus nos resume a nada. Nada de toque, nada de choro, nada de expressões, como se a dignidade fosse levada a reboque da pessoa.

Há um luxo em ser-se velho e outro em usar-se as palavras sem medo, respeitando-as. Há outro em viver-se uma vida de amor, antes e depois.

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