Tanto a Quercus como a Zero, integradas na Rede de Ação Climática Europeia (CAN) alertam para o risco de a União Europeia (UE) ficar para trás no processo de ratificação e aplicação do acordo de Paris, contra as alterações climáticas, que será assinado por mais de 150 países, incluindo Portugal, através do ministro do Ambiente, João Matos Fernandes.

"A UE pode demorar demasiado tempo a discutir e decidir qual será a partilha de esforços entre os Estados-membros e, por outro lado e até agora, mostrou pouca vontade em reforçar os atuais objetivos climáticos e energéticos para 2030 e 2050", segundo os ambientalistas.

A Zero - Associação Sistema Terrestre Sustentável quer que Portugal ratifique o acordo de Paris "com a maior celeridade possível, sobretudo quando se antevê uma implementação morosa que deverá efetuar-se ao longo de vários meses".

"Após conversa com o ministro do Ambiente, sabemos que, logo após esta reunião de Nova Iorque, vai ser iniciado o processo", disse à Lusa o presidente da Zero.

Questionado pela agência Lusa acerca do que mais surpreendeu desde a obtenção do acordo de Paris, no início de dezembro, Francisco Ferreira apontou "a discussão e o entusiasmo que vários setores da sociedade e vários países têm demonstrado em relação à necessidade" de o documento entrar em vigor.

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Outra questão refere-se às "fortes reticências na UE, que se arrisca [a perder a liderança no processo], em comparação com outros grupos de países, incluindo a China e os EUA e países em desenvolvimento".

Estes "vão avançar rapidamente com a ratificação e que podem deixar o líder europeu, na década anterior, numa posição desconfortável", acrescentou.

Para o presidente da Quercus, a assinatura "é um bom sinal, de que os países se comprometem publicamente a cumprir as metas estabelecidas", mas "a prática ainda está muito longe do que está definido" no documento.

Novas explorações de petróleo em Portugal

O acordo "prevê a diminuição da utilização de combustíveis fósseis até a não utilização e nós vemos que o que acontece, nomeadamente em Portugal, vai em outra direção, há novas explorações de petróleo e ainda agora foi anunciado que vão começar a perfurar no Algarve e foram licenciadas concessões para 'fracking' [fratura hidraulica]", salientou João Branco.

Francisco Ferreira frisou que vários países estão a "pôr alguns obstáculos em relação à ambição da Europa, nomeadamente à capacidade de ir mais além do que uma redução de 40% [das emissões], que está estabelecida e pode perfeitamente ser mais ambiciosa".

Para a Zero, "Portugal pode e deve ir muito mais longe" nas metas, "olhando para 2050 como o ano para o objetivo de balanço neutro, balanço zero, entre emissões de gases com efeito de estufa" e o carbono que se consegue retirar da atmosfera, exemplificando com o contributo de "uma forte transição para uma mobilidade elétrica" ou da promoção da água quente solar, para abastecer 75% das vivendas portuguesas e 10% dos apartamentos em prédios.

"Portugal, de acordo com os dados de 2013, está muito bem colocado, temos as emissões a reduzir a um ritmo de 2,2% nos últimos cinco anos", salientou o presidente da Zero.

O presidente da Quercus defendeu o papel da reflorestação, contemplado pelo acordo de Paris, como um mecanismo para combater as alterações climáticas, sendo a floresta "o único meio aceitável de retirar o carbono da atmosfera, armazenando-o no tronco das árvores".

Para João Branco, "se os governos tiverem políticas adequadas, é possível reduzir as emissões em Portugal", no entanto, não pode ser "a todo o custo" e especificou, por exemplo, que, "a própria indústria das renováveis, muitas vezes tem apetência por zonas que entram em conflito com a conservação da natureza e da paisagem".