Dedicamos uma grande parte da nossa adolescência e juventude a preparar-nos para ter uma profissão, aprender, estudar e aperfeiçoar. Passamos 35 ou 40 anos de dedicação, a executar essa mesma profissão praticamente todos os dias, onze meses por ano, cinco dias por semana, oito horas por dia. De repente, de um dia para o outro, pára tudo... Já não sou mais preciso. E esse sentimento de desvalorização pode acontecer se a transição para a reforma não for bem pensada e preparada.

O momento da reforma chega para todos, seja decorrente do tempo que se dedicou à profissão, das limitações do avançar da idade ou de problemas de saúde ou incapacidade inesperados. Em alguns casos é uma decisão consciente, pensada, planeada ao longo do tempo, noutros é um corte abrupto do dia a diaa que se estava habituado.Portanto, o processo de reforma é único, individual e pode despertar uma variedade de sentimentos. Sentimentos de satisfação, de realização e dever cumprido, liberdade perante a possibilidade de novas oportunidades, de investir em novos interesses e projetos de vida. Quantas vezes não ouvimos ou mesmo dizemos: “Quando me reformar vou me dedicar a um projeto voluntário, vou aprender a costurar, vou cuidar dos meus netos, vou viajar e aproveitar a vida, vou só fazer o que gosto e cuidar de mim!”

Contudo, a reforma para alguns pode despertar outros sentimentos como a preocupação com o fim da vida, com o sentir-se próximo da morte, velho, ultrapassado, sem serventia. Pode trazer medo, insegurança, desesperança, tristeza, sentimento de inutilidade e incapacidade associados a perda da função, do estatuto e da identidade profissional e pessoal, e como toda perda desencadeia um processo de luto.E o luto nada mais é do que uma reação natural e esperada frente a perda de um objeto amado que demanda tempo para ser elaborado, para que se possa investir em outros objetos.

É importante elaborar as perdas inerentes a esse processo, nem sempre identificadas e muitas vezes desvalorizadas, como a perda do papel social, da rotina diária, do contacto e do convívio com outras pessoas e em alguns casos as perdas financeiras.Como todo processo de luto, a passagem para a reforma necessita de apoio, compreensão, suporte social e familiar, tempo e espaço para ser elaborada e ressignificada, para que a pessoa encontre as melhores

estratégias para lidar com as perdas inerentes ao fim desse ciclo e consiga reinvestir o seu tempo, dedicação e interesse em outras atividades prazerosas.

Sempre que possível, o ideal é que o processo de reforma seja planeado e estruturado para que haja uma redução gradual da carga horária e de trabalho, com a inserção de novos projetos e interesses de vida na rotina diária, assim como o fortalecimento das relações sociais fora do trabalho, priorizando a qualidade e o sentido de vida, a autonomia e o domínio sobre a própria vida, para que seja possível olhar para a reforma com outros olhos, não como o fim, mas como o começo de uma nova etapa da vida, como novos papéis, que vale a pena ser vivida.

Um artigo de Mayra Delalibera, Psicóloga da PIN - Partners in Neurocience.

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