Num mundo global, exposto a “contaminações” de todos os quadrantes e com um número crescente de intervenientes nos processos produtivos, há que garantir a segurança dos bens alimentares. Pense-se, por exemplo, no bioterrorismo ou na sabotagem por empresas concorrentes, para que fiquemos alertas face aos perigos que rondam os alimentos que adquirimos.

Nesta conversa com a engenheira alimentar Alexandra Costa percebemos como se preparam as organizações para defender os seus produtos. Uma vigilância que começa dentro de portas com funcionários e fornecedores, mas que cerra também trincheiras face à concorrência e a produtos que chegam de outros quadrantes geográficos. Bem-vindos ao mundo da Food Defense.

Alexandra, há uma diferença considerável entre aquilo que é a segurança alimentar e a defesa dos alimentos. Quer explicar-nos?

Levamo-los à mesa, mas estes alimentos são perigosos e mortais
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Sim. Um plano de defesa alimentar é um conjunto de medidas a que uma organização recorre para proteção e defesa dos alimentos das contaminações intencionais e maliciosas, das sabotagens, ações que impeçam a distribuição. Torna-se muito importante face às fragilidades do mundo atual. Basta que pensemos nas ações malfeitoras de uma organização de bioterrorismo junto da indústria alimentar. Podemos imaginar o impacto que teria na saúde pública e na credibilidade e imagem da empresa.

As empresas têm, então, de identificar os pontos mais vulneráveis, de forma a proteger os alimentos destas práticas nocivas. As organizações têm, desta forma, que antecipar e avaliar os perigos, a probabilidade da sua ocorrência e desenvolvimento de ações preventivas e corretivas, que garantam a segurança dos produtos durante os processos produtivos.

Esta é uma estratégia que vai além da tradicional segurança alimentar, que todos os operadores portugueses foram legalmente obrigados a implementar a partir de 1998.

Food Defense: Como se defendem as empresas alimentares de um mundo perigoso?

Acaba por ser um tanto ou quanto assustador. Pode dar-nos alguns exemplos dessas ameaças?

São muitos e podemos, inclusivamente, separá-los em dois grupos. O primeiro, é aquilo a que chamamos a contaminação intencional. E esta pode começar, por exemplo, em funcionários insatisfeitos, em colaboradores de fornecedores e, também, nos funcionários de organizações e entidades concorrentes. Neste primeiro grupo podemos, ainda, incluir pessoas externas à empresa com divergências ideológicas e mesmo num âmbito mais pessoal.

O segundo grupo prende-se com a fraude. Dou-lhe um exemplo. Imagine que está na área de aquisição de produto numa empresa X e que no seu processo produtivo integra óleo de amendoim. Compra e paga por este e, na realidade, estão a vender-lhe óleo de girassol. Ou que quer adquirir carne de vaca e vendem-lhe carne de cavalo.

Imagine que está na área de aquisição de produto numa empresa X e que no seu processo produtivo integra óleo de amendoim. Compra e paga por este e, na realidade, estão a vender-lhe óleo de girassol.

Este último exemplo que a Alexandra refere remete-nos para uma situação que ainda está bem presente na memória dos consumidores.

Sim, um exemplo claro da inexistência ou falha de um Plano de Defesa dos Alimentos. Um caso concreto de fraude, uma vez que a carne de cavalo adquirida era mais barata que a carne de vaca. Todos nós somos consumidores e certamente perguntamo-nos quantas vezes já fomos defraudados? O que está no rótulo é realmente o que adquirimos e consumimos?

Como referiu os riscos são tantos que, enquanto consumidores, somos levados à questão: o que podem as indústrias alimentares fazer para evitarem estas situações?

Como sublinhei no início da nossa conversa, as organizações devem estabelecer um Plano de Defesa Alimentar, identificando vulnerabilidades internas em relação ao risco de contaminação intencional. Devem definir medidas para reduzir o risco e definir o modo de atuação em caso de emergência por forma a que a contaminação seja contida de modo rápido e eficaz. Este Plano exige a implementação de medidas de controlo relativamente a: matérias-primas, materiais de embalagem, produto acabado, instalações, processos de produção, rede de distribuição de produtos e visitantes.

Food Defense: Como se defendem as empresas alimentares de um mundo perigoso?

Certo, mas pelo que vimos, o risco não está só dentro de portas.

Exatamente, é muito importante a realização de auditorias aos fornecedores de matérias-primas, desta forma temos algum controlo sobre os procedimentos dos nossos fornecedores. Alerto também para a origem das matérias-primas, pois podem ter proveniência de alguns países com menos controlos, mas como geralmente são mais baratas são adquiridas pelos fornecedores.

Os consumidores começam a ficar alertas e procuram produtos que à partida estejam num patamar superior de confiança, e também porque é fundamental em termos de imagem para as organizações.

Como consumidores devemos ficar assustados?

Não, eu diria que este é um assunto pertinente e como tal muitas indústrias e produtores alimentares começam a pensar em prevenir estas possíveis ocorrências e a desenvolver os Planos de Defesa dos Alimentos, até porque muitas vezes exportar para determinados países significa obrigatoriedade na implementação destes mecanismos.

Alexandra, é certo que esta é uma questão que no futuro será prioritária?

Sim, na medida em que os consumidores começam a ficar alertas e procuram produtos que à partida estejam num patamar superior de confiança, e também porque é fundamental em termos de imagem para as organizações garantirem a segurança e defesa dos seus produtos num mundo global.

Para além da defesa dos seus produtos, quais são as outras vantagens para as indústrias?

As organizações promovem a melhoria dos produtos, inovação produtiva e tecnológica, satisfação das necessidades e expectativas dos clientes.


Alexandra Costa é  Mestre em Ciência e Engenharia de Alimentos, trabalhou perto de duas décadas em empresa vitivinícola nas áreas laboratorial, qualidade e segurança alimentar.