1. Um miúdo do Texas que sonhava ser estrela de cinema

Thomas Carlyle Ford nasceu em Austin, Texas, mas passou grande parte da sua infância em Santa Fé, Novo México. Desde muito novo que sentiu uma grande atração pelo mundo da moda e se em casa, os pais aceitavam os seus gostos e interesses, na escola o cenário era outro. O facto de não ter jeito para desportos coletivos, como era o caso do futebol, e até a maneira como se vestia, fez com que fosse vítima de bullying durante a infância. A avó, Ruth, que se tornaria numa das suas musas e viria a inspirar uma das coleções que desenhou para a Yves Saint Laurent, foi uma das primeiras pessoas a incentivar esta sua paixão.

“A minha avó gostava muito de moda. Era algo que partilhávamos. Estava sempre entusiasmado por estar com ela e depressa percebeu que éramos almas-gémeas. Estava sempre a comprar-me roupas e a encorajar-me nessa direção”, disse durante a “The Jess Cagle Interview” em 2016.

Para além da moda, Tom Ford sempre foi fascinado pela sétima arte, uma fascinação que fez com que desistisse do curso de História de Arte que estava a tirar na New York University para se tornar numa estrela de cinema.

Apesar de ter aparecido em diversos anúncios publicitários durante a sua juventude, Ford acabou por chegar à conclusão de que o seu futuro não passaria pela carreira de ator ou modelo e que deveria regressar aos estudos. “Rapidamente percebi que não estava confortável em frente às câmaras. Odiava. Estava muito consciente de mim mesmo. Não me soltava. E nunca ia ser um bom ator”, referiu.

Após frequentar a Parsons School of Design, onde concluiu a licenciatura em Design de Arquitetura, decidiu montar o seu próprio portefólio e apostar numa carreira no mundo da moda. Cathy Hardwick e Perry Ellis foram os dois estilistas com quem trabalhou antes de conseguir aquele que, para muitos jovens designers, é visto como o emprego de uma vida: trabalhar para a Gucci.

2. Anos de ouro: Gucci e Yves Saint Laurent

É em 1990 que Tom Ford se muda para Milão, em Itália, e começa a trabalhar naquele que se viria a tornar num dos maiores projetos da sua carreira: revolucionar e revitalizar a casa Gucci.

No espaço de quatro anos passa de diretor de design da marca a diretor criativo do Gucci Group que, até então, estava à beira da falência. É a partir desta altura que o estilista assume a responsabilidade de “desenhar toda a linha de produtos da Gucci, da roupa aos perfumes, e pela imagem corporativa, campanhas publicitárias e design das lojas do grupo”, pode ler-se no seu site oficial.

O ano 2000 torna-se determinante no seu percurso ao ser nomeado diretor criativo e de comunicação da Yves Saint Laurent, marca que atualmente é controlada pelo grupo Kering. De acordo com o jornal The Guardian, os 14 anos em que acumulou funções na Gucci e na YSL ficaram marcados pelo lançamento de peças que são ícones da marca – como é a famosa mala ‘Jackie O’ criada em tributo a Jaqueline Kennedy Onassis - e pelas campanhas publicitárias provocadoras e de cariz sexual, que hoje se tornaram numa imagem de marca do estilista norte-americano.

A publicidade ao perfume Opium da YSL é um dos casos mais polémicos e mais mediáticos. De acordo com o Advertising Standards Authority, o anúncio protagonizado pela modelo Sophie Dahl no ano 2000, no qual aparece completamente nua, está entre os que mais queixas recebeu.

“Acho que, a nível criativo, fiz muitas coisas que provavelmente não teria feito se estive sóbrio. No fim de contas, isso acabou por resultar a meu favor”, referiu, em entrevista à revista Mr. Porter, sobre a época em que contratou Terry Richardson para fotografar diversas campanhas da Gucci.

Tal como refere o site The Cut, outro dos anúncios mais controversos da sua carreira remonta a 2003 ano em que a Gucci lançou uma publicidade onde era possível ver a modelo Carmen Kass com um G - alusivo à marca italiana - desenhado na zona pública. A imagem, fotografada por Mario Testino, recebeu imensas queixas pelo seu conteúdo impróprio e ofensivo.

"Quando depilei o G da Gucci nos pêlos púbicos da modelo era para ser uma piada irónica sobre branding - na época tínhamos Gucci escrito em tudo - e pensei que podíamos fazer o mesmo nos pêlos púbicos. Não tinha nada que ver com sexo",explicou em entrevista à Vogue britânica em 2009 sobre a sua reputação.

Apesar do sucesso que a marca alcançou durante os anos em que esteve como diretor criativo e de comunicação da Yves Saint Laurent, Tom Ford sentiu que não estava feliz. O fim do seu reinado no Gucci Group, em que fez da Gucci numa das maiores e mais rentáveis marcas de luxo,  não podia ter sido pior: saiu incompatibilizado com o falecido Yves Saint Laurent.

“No início ele era muito amigável. Conhecíamo-nos e ele queria que fosse eu a desenhar a coleção. Quando as coisas começaram a correr bem e a ter boas críticas, deixou de ser meu amigo. Tenho lindíssimas cartas escritas à mão, com uma caligrafia muito bonita. ‘Em 13 minutos conseguiste destruir aquilo que construí em 40 anos.’ […] Fiquei um pouco devastado por ele se sentir assim, mas as vendas estavam a correr bem, as críticas eram ótimas e cada vez mais pessoas estavam a usar as nossas roupas,”, disse durante uma conferência organizada pela 92Y, em 2012, citado pelo Women’s Wear Daily (WWD).

3. O lançamento da marca Tom Ford

Após abandonar o Gucci Group, Tom Ford chegou a pensar que nunca mais voltaria a trabalhar em moda. Mas a verdade é que o seu amor pela indústria acabou por falar mais alto e, em 2005, decidiu criar a sua marca homónima com o lançamento de uma linha de óculos de sol, Tom Ford Eyewear, e uma linha de beleza, Tom Ford Beauty, desenvolvidas em parceria com marcas de renome. Mas, tal como referiu em entrevista ao site Business of Fashion, não estava preparado para a exigência de um projeto desta magnitude.

“É muito, muito, muito mais difícil começar do zero. […] Não tinha ideia do quão difícil ia ser, e estava em vantagem do que qualquer outra pessoa”, explicou sobre o processo de lançamento da sua própria marca e onde teve de pensar em todos os detalhes: desde o logotipo, à cadeia de distribuição passando pela abertura da primeira loja.

Em 2007 aposta no lançamento da primeira coleção de roupa e acessórios para homem em parceria com a marca Ermenegildo Zegna e em 2010 apresenta a sua primeira coleção feminina.

“Nada é calculado. Quando imagino ou estou a vestir uma mulher – tenho a reputação de sexualizar ou tornar as mulheres demasiado sexy, assim como os homens – mas não começo com a ideia de ‘Oh, vou fazer com que esta mulher pareça sexy ou seuxal’. Coloco-a diante de mim e penso ‘O que posso fazer para a tornar mais bonita? Vamos subir o vestido, vamos fazer isto e aquilo’. O resultado final é algo que as outras pessoas consideram sexual, mas para mim é apenas bonito. A minha forma de expressar beleza é algo que faço naturalmente. Adoro o corpo humano”, disse à Interview Magazine em 2011 sobre o processo de criação das suas coleções.

Em seguida apostou no universo dos perfumes – com o lançamento de fragrâncias de assinatura e da coleção The Private Blend Fragrances, destinada para os verdadeiros amantes de aromas originais e exclusivos. Depois de uma coleção de roupa interior para homem, a relojoaria é a sua última aventura. Tom Ford 001 é o nome da coleção assinada pelo estilista, que descreve como clássica e unissexo.

“Estou entusiasmado porque é um conceito muito simples e que nunca foi feito por ninguém e não existe no mercado. É algo que quero fazer há muitos anos e nunca percebi porque nunca o fizeram”, disse em entrevista ao site WWD. Mas aos 57 anos, Tom Ford está imparável e já tem outros planos na manga.

“Gostava de entrar na área de decoração para casa. Trabalho na área da cosmética e fragrâncias e estou a trabalhar numa linha de cuidados de pele, em que estou a pesquisar há dois anos. Ainda não estou pronto para falar no assunto mas é um segmento da cosmética completamente diferente. E vou lançar um coleção de cosméticos bastante diferente chamada Extremê: produtos que são mais radicais e arriscados”, conclui.

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