"Cortar é pensar". Essa ideia norteou a mão da diretora artística Maria Grazia Chiuri na concepção da coleção para a próxima primavera-verão, que certamente deve marcar uma ruptura com o mundo de ontem.

Num ambiente eclesiástico, com modernos vitrais "patchwork" e um coral feminino a cantar "Voceri" - música clássica associada a cerimónias fúnebres -, a italiana apresentou a sua "transformação dos códigos Dior para representar a contemporaneidade", como disse à AFP antes do desfile.

Proteção

"Hoje as pessoas têm uma relação diferente com o corpo, querem proteger-se, é algo que até agora não tínhamos levado em consideração".

"Além disso, o estilo de vida é diferente, mais privado", refletiu a influente estilista. Por isso, a grande novidade desta coleção é a modificação do design do elegante Bar Jacket, tradicionalmente estruturado e ajustado ao corpo.

"A ideia era fazer um casaco para nos sentirmos bem em casa. Trabalhamos muito com tecidos macios e rústicos, como linho e malhas", explica a estilista.

A nova proposta é inspirada num casaco desenhado por Christian Dior em 1957 para uma coleção feita no Japão.

É largo, comprido e com um cinto que permite ajustar ao gosto de cada mulher.

Cores suaves, tecidos vaporosos

A flexibilidade dá o tom da coleção: a peça não fixa a forma, mas envolve o corpo com fluidez. Vestidos esvoaçantes de musselina de seda, abertos em V nas costas, bordados florais.

A camisa masculina transforma-se em túnica ou vestido e é associada a calças ou calções de riscas largas. Também é usada sob grandes casacos.

As cores são suaves, muitas evocam a terra. Chiuri trabalha com "colagem", uma técnica de tecelagem indonésia que dá um ar boémio à coleção.

"Adaptação à dificuldade"

Enquanto a maioria das marcas apresentará as suas coleções em formato digital durante esta Semana da Moda, a Dior, assim como Chanel e Louis Vuitton, decidiram regressar ao formato físico apesar de todas as limitações impostas pela situação de saúde em França, onde a COVID-19 volta a alastrar.

Chiuri defendeu que "o público faz parte do desfile" e que podemos mostrar que "nos podemos adaptar às dificuldades" e procurar "outras soluções" em paralelo, como a sua divulgação nas redes sociais, inclusive pela primeira vez no Tik Tok.

Mas a indústria da moda também não escapou ao novo normal, e o desfile realizado numa pequena tenda no Jardin des Tuileries foi uma prova disso.

A Dior teve que se contentar com um público de cerca de 300 convidados, longe de 1.400 - incluindo atrizes, modelos e outras celebridades de todo o mundo - que costumava receber no Museu Rodin.

Mas os presentes puderam, pela primeira vez, ver o desfile à vontade, devido ao distanciamento social obrigatório, e vivenciaram algo inédito: aguardaram apenas alguns minutos pelo o início.

A cerimónia também foi encerrada de forma inesperada, com um público que se levantou com uma grande faixa proclamando "somos todos vítimas da moda".

A ação foi reivindicada pelo grupo ambientalista Extinction Rebellion.

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