Tudo o que se passou, desde o início da pandemia até ao meio, não cabe em duas páginas. O fim ainda não chegou. Infelizmente. Seria imprudente tentar prever as próximas páginas, porque este vírus, até agora, só nos mostrou o quão imprevisível pode ser.

E da imprevisibilidade surgiram as certezas. Os efeitos e os afetados. Quando se começou esta história, quando se abriu a primeira página, ninguém esperava o plot twist que se deu. Mas num livro há vários capítulos e esta pandemia parece que usa e abusa deles.

Os efeitos iniciaram no segundo capítulo, quando a humanidade começou a parecer perder a sanidade mental; os meus pais encheram a casa de papel higiénico, os meus amigos mudaram de visual e até o tempo mudou. Porque um mês em casa tanto pareceu um ano como uma semana – era uma autêntica antítese. O tempo deixou de fazer sentido.

E com a falta de sentido de tempo veio a falta de amigos. Nunca me senti tão distante dos meus amigos, de variadíssimas maneiras. A verdade é que não sei se tenho amigos. Sigo-os nas redes sociais e até faço parte da lista dos amigos chegados, mas hoje ter amigos é isto? É fazer parte de uma lista exclusiva de uma rede social?

E contra mim falo: não tenho amigos, mas acho que os meus “não amigos” também não me têm. A distância presencial afastou-nos de uma forma que nem milhares de quilómetros o podiam fazer. Faço parte de uma geração com poucas amizades e que se questiona, todos os dias, sobre o amanhã – porque se a pandemia continuar a ser imprevisível, será que alguma vez voltaremos a ter amigos?

Penso que estou sozinha. Sozinha numa multidão que usa máscaras, que tem álcool gel na mala e que está sempre a dois metros de mim. Estou sozinha no meio de um mundo gigante. E com isso fico solitária, com um vazio que nem os meus amigos podiam preencher.

A minha solidão vem porque todos os que me rodeiam parecem estar bem... pelo menos parece, pelo que vejo à distância

À distância de um clique. E, então, eu passava os dias a clicar até me doer o dedo ou até os olhos ficarem totalmente vermelhos – era uma maneira de me abstrair da solidão. Mas era um ato masoquista – ficava horas e horas à frente de um telemóvel a olhar para pessoas com um corpo perfeito, com uma vida perfeita e com um futuro perfeito. O que para mim era uma incógnita, para eles era uma certeza perfeita. E isto fez-me mal, porque enquanto estava deprimida comia, já que a comida era uma salvação do vazio em que me encontrava.

O capítulo mudou e eu também – deixei de me sentir bem comigo mesma, com o meu corpo, com a forma como os outros olhavam para mim, com o que eu via refletido ao espelho e com o modo como um simples pão podia piorar tudo o que já havia de mau em mim.

Nunca apanhei o vírus , mas contraí todos os outros efeitos secundários: a solidão, o vazio, o aumento de peso e a depressão

O tempo foi passando e os capítulos também e, infelizmente, ainda não há um ponto de viragem. Confesso que a minha mudança, tanto a nível físico quanto psicológico, mudou-me bastante. Não sou a pessoa que era há dois anos. Nunca apanhei o vírus que se de nomeia como “Covid-19”, mas contraí todos os outros efeitos secundários: a solidão, o vazio, o aumento de peso e a depressão.

Mesmo não tendo apanhado o vírus, somos todos enfermos e sempre o seremos. Querendo ou não, somos todos vítimas desta pandemia que traz mais efeitos para além da dor de cabeça, da tosse ou até da falta de olfato. A minha depressão trouxe-me tristeza, mas ainda tenho esperança; esperança de que este “livro pandémico” se encerre uma vez por todas – e que nunca mais seja aberto.

Fechem o livro com o mesmo número de chaves que amigos perdidos, que quilos ganhos ou que lágrimas escorridas. O mais triste da minha depressão é que todos nos transformamos em adolescentes solitários quando ainda não devíamos saber o que é a solidão.

Sobre a autora

Mafalda Benamor de Castro diz que aprendeu a escrever quando ainda não sabia o poder da verdade. Hoje, com 20 anos, ganhou finalmente coragem para mostrar a faceta que poucos conheciam: está em fase de edição de um livro, criou a marca de roupa SURVIVE, desistiu da licenciatura de Marketing em Inglaterra e começou a desabafar no momento em que deixou a "Mafalda de Portugal" no passado. Regressando ao presente, e depois de várias viagens no tempo, brinca com as palavras para partilhar os desafios que, para ela, é viver.

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