Tem filhos e trabalha? Agora já pode silenciar o seu sentimento de culpa de uma vez por todas. A Universidade de Harvard, nos Estados Unidos da América, comprovou que os filhos de mães trabalhadoras não só têm ordenados superiores como se preocupam mais com a família. Durante décadas, as mulheres eram socialmente pressionadas a ficar em casa a cuidar dos filhos e a fazer as tarefas domésticas.

Quando começaram a trabalhar fora e a trazer dinheiro para ajudar nas despesas mensais, deu-se uma revolução. Muitos aspetos mudaram na própria mulher e na dinâmica familiar. Nomeadamente, o modelo patriarcal. O pai deixou de ser o único progenitor a controlar a carteira e a estabelecer as regras da casa. A partilha dessas tarefas trouxe reconhecimento social à mulher, na medida em que lhe foram reconhecidas outras facetas e valências.

Hoje, a mulher é mãe, mulher, dona de casa, trabalhadora, filha, irmã… Uma verdadeira multitasker, capaz de executar várias tarefas em simultâneo e bem. Ainda assim, muitas mulheres carregam um sentimento de culpa quando começam a ter filhos e regressam ao mercado de trabalho. Uma sensação de frustração e impotência que muitos especialistas dizem que devem minimizar.

Uma verdadeira supermulher

De acordo com Inês Afonso Marques, psicóloga clínica e coordenadora da equipa infanto-juvenil na Oficina de Psicologia, isso acontece porque continua a haver «uma expetativa relativamente ao papel das mulheres dentro de uma família». Essa ideia preconcebida pode gerar alguma pressão na mãe, que tenta equilibrar a vida pessoal, profissional e familiar da melhor forma que sabe e pode.

«A mulher poderá sentir-se culpada por não conseguir corresponder às expetativas sociais e pessoais», esclarece Inês Afonso Marques. Sentimento perfeitamente desnecessário aos olhos de Kathleen McGinn, autora de um estudo que vem tirar esse peso dos ombros das mães trabalhadoras. «Mum’s the word!» é o título da investigação liderada pela professora na Harvard Business School que se especializou na questão do impacto que o género de uma pessoa tem no trabalho e nas negociações.

Nesse estudo, publicado em junho de 2015, a investigadora compara os dados de inquéritos de 24 países, relativos aos anos de 2002 e de 2012. A conclusão? «As mulheres cujas mães trabalharam fora de casa têm maior probabilidade de ficarem empregadas, de trabalharem mais horas, de serem mais bem compensadas pelo seu trabalho e de terem mais cargos de supervisão do que as mulheres cujas mães eram donas de casa», lê-se.

Sucesso gera sucesso

O paradigma mudou. Inês Afonso Marques explica esse fenómeno. «Mães trabalhadoras, com menos tempo para as tarefas domésticas, tenderão a incutir mais precocemente a necessidade da divisão de tarefas, fomentando a autonomia dos filhos e responsabilização desde tenra idade», defende. Além deste fator estruturante da personalidade, não podemos ignorar outro essencial, o da modelagem.

Afinal, por muito que não pareça quando estão a crescer, as filhas acabam por ver as mães como modelo a seguir. «Crianças que veem este como o seu contexto de referência, como aquilo que é natural que aconteça, traçam objetivos pessoais sensivelmente análogos», informa a psicóloga clínica. Na fase adulta da vida, as raparigas tentam igualar ou ultrapassar os feitos da mãe.

No caso dos rapazes «o padrão é diferente», escreve Kathleen McGinn. O facto de a mãe ter sido (ou de continuar a ser) trabalhadora não influencia positivamente o percurso académico e profissional dos rapazes. Aqui o que muda é o comportamento e a capacidade de mostrar afeto no seio familiar. A especialista clarifica que, curiosamente, «os filhos de mães trabalhadoras dedicam-se mais à família do que os rapazes cujas mães eram donas de casa».

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A necessidade de quebrar estereótipos

As mulheres que são mães e trabalham fora de casa contribuem, assim, para o fim (próximo) do estereótipo de que a dona de casa é que é a mãe perfeita, por estar mais presente. Do ponto de vista de Inês Afonso Marques, crescer com uma mãe trabalhadora permite que as crianças compreendam, desde cedo, «o valor do trabalho dentro e fora de casa».

No fundo, estas mulheres inspiram os filhos a conseguirem o melhor resultado possível académico e profissional e a cuidarem da família, sempre. «Em última instância, o sentido de responsabilidade, o autoconceito, a autoimagem e a noção de autoeficácia sairão mais reforçados», nas palavras da psicóloga clínica.

Os direitos das mães trabalhadoras

Conheça as condições a que, por lei, tem direito no seu local de trabalho em 2016:

- 30 dias por ano (no mínimo) para prestar assistência a um filho hospitalizado, se a criança tiver menos de 12 anos.

- 15 dias por ano para prestar assistência a um filho com 12 ou mais anos de idade, por doença ou acidente.

- 6 meses até quatro anos de licença para prestar assistência a um filho com deficiência ou doença crónica.

- 4 horas de ausência do trabalho por trimestre, para se informar acerca da situação educativa do seu filho no estabelecimento de ensino.

- Pode trabalhar a tempo parcial ou com horário flexível desde que o seu filho tenha menos de 12 anos ou se a criança tiver uma deficiência, ou sofrer de doença crónica.

Texto: Filipa Basílio da Silva

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