Face às muitas perguntas que assaltam as famílias sobre o antes e o depois do nascimento, Carmen Ferreira, enfermeira especialista em saúde materna e obstétrica, deu vida a um blogue, mais tarde transformado numa academia digital. Do online para o papel, nasceu o primeiro livro de Carmen, Estamos Grávidos! E Agora? (edição Manuscrito), um manual que acompanha a jornada das futuras mamãs e papás, num tom informativo embora não despojado de bom humor. Um caminho que a “Enfermeira dos Bebés” como é carinhosamente conhecida Carmen Ferreira, conjugou no plural. Um “nós” que a autora transpôs para o segundo livro entretanto entregue aos escaparates, Nascemos! E Agora? (edição Manuscrito), de olhos postos no primeiro ano de vida do bebé.

Tendo como ponto de partida o universo da escrita de Carmen Ferreira, lançamos à autora alguns temas na ordem do dia – como a crise demográfica e as eventuais consequências da pandemia na taxa de mortalidade materna –, mas também aquela matéria que é universalmente vivida por todos os que experienciam a maternidade e paternidade: os apoios às famílias; o respeito pelo bebé, pela mulher e pelo casal no contexto de uma sociedade que vive acelerada; as novas dinâmicas familiares, nomeadamente o papel do homem, e todo um novo mundo que se abre fruto do nascimento.

Uma conversa a que não é alheia a necessidade de acesso a informação credível e fundamentada: “Com o ‘Dr Google’ a tendência é um ‘diagnóstico online’ alarmista e fatalista”, sublinha Carmen Ferreira.

Carmen é impossível iniciarmos esta conversa sem a referência a uma questão na ordem do dia, aquela que se prende com as urgências obstétricas. Como avalia esta realidade, presumindo que a vive de perto?

Considero uma realidade que merece muita atenção e ação. Infelizmente, já se vive há algum (demasiado) tempo e só vem reforçar que temos de reestruturar e repensar os cuidados de saúde na área da maternidade em Portugal.

Penso que, por isso, cada vez mais, os casais precisam de informação para perceberem onde e quando recorrer aos locais. Por outro lado, os profissionais devem pensar como poderão chegar até aos casais fora dos locais típicos. E, sem dúvida, exigirmos todos, enquanto sociedade, uma assistência em saúde digna e com as melhores práticas possíveis para as nossas famílias.

Podemos inspirar-nos em modelos fora de Portugal, onde a assistência de baixo risco na gravidez é baseada nos cuidados de midwives, mostrando não só maiores ganhos em saúde, como também maior satisfação dos casais. Fica uma sugestão de reflexão.

“Vivemos numa sociedade acelerada, com pouco tempo para esperar que os bebés nasçam, que tenham o seu ritmo de crescimento” – Carmen Ferreira, a “Enfermeira dos Bebés”
Carmen Ferreira começou o seu percurso profissional em contexto hospitalar, na área da saúde da mulher. créditos: Pau Storch

A Carmen assume-se como uma pessoa de bom humor, o que transporta para a sua escrita. É possível olhar com humor para a pirâmide etária em Portugal?

O meu humor tem o objetivo de tornar esta aventura da maternidade mais leve. Na minha opinião, até se aprende melhor com conteúdos mais engraçados e que cheguem a todas as pessoas, especialmente aos que nunca tiveram um bebé nas suas mãos e nem são da área da saúde. Desta forma, o humor pode universalizar o que muitas mães e pais sentem nesta etapa.

No que diz respeito à situação atual dos nascimentos em Portugal, é impossível não me deixar apreensiva. Por um lado, porque temos casais a pensar cada vez mais tarde em ser pais, dadas as circunstâncias atuais da sociedade, mas também porque estamos a viver uma problemática de falta de apoio às famílias para serem pais, a todos os níveis. Para não falar de um tema que vamos ter que abordar mais cedo ou mais tarde, que é a fertilidade dos casais, impactada pelos nossos estilos de vida.

Na pandemia, percebemos que as taxas de natalidade baixaram, ao contrário do que se esperava, e temo que possam continuar a diminuir, fruto dos contextos de saúde e também socioeconómicos. É uma problemática para todos intervirmos, quer queiramos ter mais filhos ou não.

Estamos a viver uma problemática de falta de apoio às famílias para serem pais, a todos os níveis.

No seu segundo livro, “Nascemos! e Agora?” refere que vive a luta diária de muitas mulheres e famílias pela falta de apoio no pós-parto. A que falta de apoio(s) se refere e que impactos tem esta realidade na vida das famílias?

Sim, o período da maternidade tende a isolar a mulher/casais por vários fenómenos hormonais, e por várias tarefas acrescidas para cuidar da criança. Estamos também numa altura em que, nas grandes cidades, temos pouco contacto com vizinhos, amigos que estão carregados com muitas ocupações laborais, famílias longe ou avós que ainda trabalham e não podem apoiar o casal. Foi-se perdendo a “tribo” de que falo no livro e que acompanhava a mulher na sua jornada da maternidade. A tribo que aconselhava, que inspirava os modelos de educação de geração em geração.

Por outro lado, temos também várias questões relacionadas com o regresso ao trabalho dos pais com um bebé, sendo a entrada para os berçários e creches cada vez mais cedo, mais difícil de conseguir e financeiramente pesada para os casais.

“No parto, é urgente libertar as mães da culpa” - Rita Silva Freire, autora do livro "Trazer ao Mundo"
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No que diz respeito aos cuidados de saúde, também percebo que há poucos recursos para as famílias. Na gravidez, temos várias consultas e no pós-parto apenas uma consulta para mulher, que está num processo de adaptação, com novas tarefas parentais, novas rotinas e a recuperar fisicamente do seu parto.

Falamos pouco da recuperação pós-parto desta forma integrada, levando as mulheres a acreditar que a recuperação é voltar ao número de calças que usavam antes e há muito mais a fazer para além disso, e que vai beneficiar muito as famílias e bebés.

Ainda na introdução ao livro sublinha uma frase do médico obstetra francês Michel Odent, “para mudar o mundo precisamos de mudar a forma de nascer”. A frase é bela, mas carregará uma mensagem crítica à forma como estamos a trazer ao mundo. Quer aprofundar?  

Claramente, percebemos que vivemos uma fase da Humanidade que precisa de reflexão de todos e, acima de tudo, de mudanças. Vivemos numa sociedade acelerada, com base em números, com pouco tempo para esperar que os bebés nasçam, que tenham o seu ritmo de crescimento, e podia continuar com mais exemplos.  Até porque no nascimento não é diferente. O respeito pelo bebé, pela mulher e pelo casal devem imperar nas práticas clínicas, assim como a obrigação dos profissionais de se atualizarem e respeitarem a fisiologia humana. Portanto, acredito mesmo que esta base de valores que levamos para a vida deve ser aplicada também na saúde, especialmente no nascimento, que é um acontecimento único e marcante na vida de uma família. Se este nascimento for uma experiência positiva, já temos evidência do quanto isso influencia positivamente a mulher e o casal, nomeadamente tornando-os mais autónomos nos cuidados ao bebé, querendo mais bebés no futuro (e a Humanidade agradece) e até gerando ganhos na saúde da mãe e daquele bebé.

Além disso, a nossa saúde futura é também condicionada pelos primeiros 1000 dias de vida da criança (alguns autores até referem 1100 porque contam com a fase da pré conceção), por isso começar com o pé direito já nos dá uma vantagem incrível e poupa-nos de muitas doenças que vemos atualmente serem comuns mais cedo na vida do ser humano.

“Vivemos numa sociedade acelerada, com pouco tempo para esperar que os bebés nasçam, que tenham o seu ritmo de crescimento” – Carmen Ferreira, a “Enfermeira dos Bebés”
Carmen Ferreira é formadora e colabora em blogues e projetos associados à amamentação e à saúde da mulher e da criança. créditos: Carmen Ferreira

A Carmen consegue eleger possíveis causas para o facto de a taxa de mortalidade materna ter aumentado nos últimos anos, valor que já subia nos anos anteriores à pandemia?

Do meu ponto de vista, até porque o vivi em contexto hospitalar nessa fase, por desconhecimento da infeção e do seu impacto na grávida e no feto, muitas intervenções foram realizadas sem necessidade, apenas para “aproveitar um teste negativo”. E, como sabemos, o nascimento não depende do teste COVID-19, mas sim do bebé e do corpo da mãe. Existe uma coordenação bio-psico-endócrina e mecânica importante para o parto e depois para a amamentação. Na minha análise, penso que talvez tenhamos ido, mais uma vez, contra a nossa fisiologia, e isso teve repercussões.

Por outro lado, com as questões do isolamento, talvez tenham escapado algumas situações de vigilância importantes, o que pode ter levado a desfechos menos felizes. Por isso, precisamos de aprender rapidamente com estes dados, para que não voltem a acontecer e possamos melhorar cada vez mais, criando mais recursos nas nossas comunidades para apoiar as nossas famílias.

O respeito pelo bebé, pela mulher e pelo casal devem imperar nas práticas clínicas, assim como a obrigação dos profissionais de se atualizarem e respeitarem a fisiologia humana.

O antes e o depois da gravidez não são apenas uma condição física da mulher, mas também mental, emocional e espiritual. Em Portugal propiciamos as condições para o acompanhamento equilibrado de todas estas dimensões?

Como já referi anteriormente, infelizmente, penso que ainda não, na maioria dos locais não se vive essa realidade. Mas já vamos vendo iniciativas muito interessantes das equipas de saúde. Ainda assim penso que serão os casais a desafiar os profissionais a incorporar estas vertentes nos seus cuidados. Porque, tal como refere a Organização Mundial da Saúde, a saúde é muito mais do que a parte física. Logo, incorporar estas vertentes todas no cuidar será o futuro das novas gerações de profissionais de saúde.

Nos dias que correm os homens estão, de facto, a assumir um papel ativo no antes e no depois do nascimento?

Depois, durante e antes. Na maioria dos meus casais, os companheiros/companheiras são muito participativos/as e interessados/as em desenvolver este novo papel da melhor forma possível. Esta consciência tem vindo a ser crescente, felizmente, porque de facto todos beneficiam desta participação. Também tento ao máximo desafiá-los a participar e a serem parte deste processo. Até tenho uma aula no meu curso de preparação para o nascimento onde debatemos estas questões da parentalidade e, para facilitar um pouco esta transição, também para quem está do outro lado da barriga.

Hoje em dia, há menos censura e preconceitos para com o homem que participa, e também para aceitarmos famílias com organizações e dinâmicas diferentes das ditas tradicionais, o que torna também muita rica a experiência do profissional de saúde nas suas orientações e cuidados às famílias.

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Quais são as piores pessoas para se termos a nosso lado durante o período da gravidez e após o parto?

Nesta fase da vida de um casal, é importante ter as pessoas certas ao lado porque, além de serem um apoio importante, não minam a confiança do casal. Portanto, quem oferecer ajuda genuinamente, quem se disponibilizar para ouvir sem julgar, quem partilhar informação com intuito de ajudar e não de punir devem ser as pessoas ao nosso lado nestes períodos.

Quem gosta de partilhar coisas negativas, quem apenas critica sem ajudar ou tentar perceber o que o casal sente, quem põe em causa as nossas decisões enquanto família, não são pessoas bem-vindas. O pior é quando são da família, e aí a gestão torna-se complexa, eu sei. Mas é importante estabelecer limites, até porque vamos ter de os ensinar mais cedo ou mais tarde às nossas crianças, não é verdade?

Palpites, opiniões, críticas, práticas ultrapassadas no tempo, em suma comportamentos “tóxicos”, podem induzir na mulher um sentimento de culpa associado ao pré e pós-parto?

A culpa é sempre algo que as mães terão nas suas costas. A culpa “na dose certa” desafia-nos a refletir para sermos melhores e, cada vez mais, aprender com erros e evoluir. Mas não deve ser desmedida. Uma assadura não é culpa da mãe (ou do pai), por exemplo. Contudo, a culpa externa imposta pela sociedade agrava ainda mais este sentimento e o desempenho dos pais, especialmente da mãe. Há uma grande pressão na mulher-mãe para ter de ser perfeita e seguir as correntes que cada pessoa acha melhor para si. Mas podem não se aplicar àquela mulher ou à sua família. Há práticas clínicas desatualizadas que forçam a mulher e os bebés a rotinas que são humanamente quase impossíveis de cumprir, e claro que isso tem um impacto na satisfação da mulher enquanto mãe.

A individualidade é algo que não podemos esquecer quando cuidamos de famílias. Ainda que as nossas necessidades humanas básicas sejam transversais a todos, satisfazemo-las de forma diferente. E isso também é preciso respeitar e até honrar as diferenças. Penso que desta foram aliviamos um pouco desta “culpa materna”, evitando comparações.

“Vivemos numa sociedade acelerada, com pouco tempo para esperar que os bebés nasçam, que tenham o seu ritmo de crescimento” – Carmen Ferreira, a “Enfermeira dos Bebés”
créditos: Editora Manuscrito

Podemos encarar os dois livros que escreveu como uma espécie de antídoto contra o excesso de informação que circula em torno do pré e pós-parto?

Espero que sim e que acima de tudo que seja uma partilha de informação leve, sem fundamentalismos e que possam aplicar nas suas vidas. Pensei neles como um “manual” para os pais irem consultando à medida que surgem alguns desafios nas suas vidas e até mesmo para se anteciparem a eles.  Acredito mesmo que informação (certa, no momento certo) é poder.

Com os livros a informação está filtrada e pode ser adaptada a cada contexto. Claro que não substitui uma consulta pois esse não é o seu objetivo, mas ajuda o casal a debater algumas questões que nunca pensaram ser importantes naquele momento, e também junto da equipa de saúde.

No meu primeiro livro já abordo o plano de nascimento, de que tanto se fala atualmente, precisamente como ferramenta de reflexão e debate entre casal e equipa de saúde. Não é um guião de uma telenovela e muito menos uma “ordem”. No nascimento não pode haver “guerras de lados”, o cérebro precisa de um ambiente de amor e acolhimento para estes processos se desenrolarem.

Há práticas clínicas desatualizadas que forçam a mulher e os bebés a rotinas que são humanamente quase impossíveis de cumprir, e claro que isso tem um impacto na satisfação da mulher enquanto mãe.

Mais informação não quer dizer melhor informação. Sendo o parto uma das experiências mais marcantes da vida de uma mulher, muitas chegam a esse dia sem saber com detalhe o que lhes vai acontecer. Concorda com esta frase?

É menos frequente nos dias de hoje, porque eu vejo que as mulheres gostam de estar bem informadas sobre todos os processos da maternidade e, com o fenómeno das redes socais, é quase impossível que saibam pouco, pois são bombardeadas com muita coisa (às vezes até incorreta) e partilhas de amigas ou familiares que enviam artigos.

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Ainda assim, claro que há quem, no meio de tanta informação, prefira não investir no curso de preparação e faça a sua autodescoberta. É uma opção de cada pessoa. Ainda assim, será necessário perceber o mínimo, pois temos que participar e tomar decisões juntamente com a equipa de saúde, que também estará lá para orientar o processo claro. Além do que, sem informação sobre cuidados do bebé ou até do parto/gravidez, podem existir situações que são normais e, por desconhecimento, os pais recorram às urgências sem essa real necessidade. E vice-versa, terem um sinal de alarme que desvalorizam e precisam mesmo de avaliar.

Com o “Dr Google” hoje em dia a tendência é um “diagnóstico online” alarmista e fatalista, pelo que o conhecimento é importante para os casais saberem minimamente como atuar e onde/a quem recorrer. Não precisamos com isto de nos licenciarmos em obstetrícia assim que engravidamos, mas, na era da informação, ainda há muita desinformação na maternidade e fundamentalismos do tudo ou nada que, sinceramente, acho que mais confundem e desunem as mulheres do que outra coisa.

Carmen, qual foi a frase mais bela que ouviu a propósito do nascimento?

Não me posso esquecer do que as mulheres me dizem depois do seu próprio parto. Frases como “eu sou capaz” ou “consegui” tocam-me particularmente porque, num mundo onde ainda vemos a mulher como “sexo fraco”, este momento pode emponderar muito uma mulher e também o casal. Também os pais verbalizam este momento de forma muito bonita e emocionados. Recordo-me particularmente de um pai que me disse que a experiência foi tão intensa para ele que até se lembrava do cheiro.

Finalmente, quer falar-nos do seu “Conversas com Barriguinhas”?

As aulas online de preparação para o nascimento foi um projeto realizado em parceria com as “Conversas com Barriguinhas” antes do primeiro confinamento, mas foi lançado precisamente nessa altura. São aulas com temas da preparação para o nascimento gravadas e que também tem vários conteúdos para o primeiro ano de vida do bebé. Tem uma abordagem multidisciplinar, com vários profissionais de saúde, que enriquece muito os conteúdos sem dúvida. Foi, por isso, importante para muitas famílias que viram o acesso aos cursos de preparação presenciais condicionados pelo confinamento em todo o mundo. Depois, pelo conforto e hipótese de rever as aulas, foi-se mantendo um projeto inovador para a altura que vivíamos. Contudo, ele terá o seu fim no mês de setembro de 2022, porque vai ser lançado um novo projeto que tenho a certeza de que vão gostar e vai ser útil. Ainda podem aproveitar e consultar também no meu site para terem acesso a novos workshops, cursos online e presenciais, e até listas gratuitas para enxoval, mala da maternidade, cólicas do bebé, entre outros.

Entrevista concedida por escrito em julho de 2022.

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